Patricia Douglas, a primeira atriz a denunciar um estupro em Hollywood (em 1937)



O movimento #MeToo trouxe a tona diversos casos de assédio, violência e abuso sexual na indústria do entretenimento. Muitas atrizes resolveram criar coragem para denunciar perseguições e até estupros por poderosos em Hollywood.

A prática condenável, entretanto, não é uma novidade, mas somente agora muitas mulheres tiveram suas vozes ouvidas. Mas diversos casos são conhecidos ao longo da história de Hollywood, e o "teste do sofá" era algo tão corriqueiro, que já rendeu até piadas no anedotário popular.

No longínquo ano de 1937, a jovem Patricia Douglas ousou a confrontar a MGM, o maior estúdio de cinema do mundo na época, e denunciar o estupro sofrido em um evento promovido pela empresa cinematográfica, que se orgulhava de ter "mais estrelas que o céu".

Patricia Douglas

Patricia Douglas seria um nome excluído até das notas de rodapé de Hollywood, se não fosse pela denúncia que fez contra a MGM. Nascida no Missouri, em 24 de março de 1917, ela mudou-se com a mãe para Los Angeles, na época da Grande Depressão.

Exímia costureira, sua mãe sonhava em fazer vestidos elegantes para as atrizes de Hollywood, mas acabou fazendo pequenos reparos para as vizinhas e amigas. Patricia, como muitas jovens beldades da época, também sonhava em ser uma das estrelas do cinema, igual aquela que ela via nas matinês, quando sobrava um dinheirinho.

Após conseguir alguns trabalhos como coristas na casa noturna Cotton Club, ela fez uma pequena ponta dançando em Tapeando os Vivos (So This is Africa, 1933) e Cavadoras de Ouro (Gold Diggers of 1933). É possível que ela tenha dançando no couro de outros musicais, mas seu nome não consta em outros créditos, algo muito normal entre os extras na época.

Cena de Cavadoras de Ouro, Patricia é uma das coristas, não identificada

Em 02 de maio de 1937 o telefone de Patricia Douglas tocou, era Vincent Conniff, um agente de elenco da MGM, que a chamava para uma filmagem, nos estúdios de Culver City. Por um dia de filmagem em um musical, Patricia receberia sete dólares e um prato de comida quente. Ela e outras 119 meninas aceitaram a oferta, muitas nem mesmo mais tinham sonhos de estrelato ao aparecer em um filme, mas o faziam apenas pela refeição.

Elas foram maquiadas, e vestidas todas iguais, com roupas de vaqueiras. As starlets que responderam ao chamado foram embarcadas em um ônibus, para serem levadas até uma parte do estúdio, que ocupava diversos acres de terra. E ao chegarem lá, descobriram que não havia filme algum.

Elas na verdade haviam sido contratadas para servir as mesas em uma festa do estúdio. A MGM havia reunido 300 distribuidores cinematográficos, para presenteá-los pelas lucros obtidos na venda dos filmes para as salas de exibição. Por seus feitos comerciais, eles receberam diversas homenagens, incluindo um almoço realizado horas antes, ao lado de astros Clark Gable, Jean Harlow, Norma Shearer, Charles Boyer e Rosallind Russell. Eles também foram agraciados com um show das Dandridge Sisters, com a jovem Dorothy Dandridge, com 13 anos de idade.

As meninas contratadas para o evento eram jovens que sonhavam em serem atrizes, e que tinham algum crédito menor nas telas, como Teddie BlueDona Dax e Iris Gaye. Todas as starlets receberam um número, e Patricia Douglas era a "Garota 27". 

Após as cerimônias e o almoço com os artistas, a festa continuou, com churrasco e bebida a vontade. Sem serem comunicadas, as meninas foram jogadas na festa como "um agradinho" para os exibidores.
Tudo sob a supervisão de Eddie Mannix, um misto de faz tudo e capanga da MGM.

Mannix era famoso por resolver todos os problemas secretos do estúdio, e nos bastidores também era comandante de um bordel que o estúdio mantinha com aspirantes ao estrelato. Em 1929 ele também havia espancado quase até a morte a atriz Mary Nolan, sua antiga amante, quando esta resolveu deixá-lo. Nolan ficou seis meses internada no hospital, e teve sua carreira destruída posteriormente.

Eddie Mannix também é suspeito de estar envolvido na morte do ator George Reeves.

Eddie Mannix

Laurel e Hardy (o Gordo e o Magro) eram os anunciantes da festa, que corria sob controle. Mas ao passar das horas os homens começaram a perder os limites, e começaram a assediar as garotas, muitas delas menores de idade.

Ginger Wyatt, aos prantos, pediu ajuda ao ator Wallace Berry, pois dois homens a estavam espancado. Berry expulsou os homens da festa, e se retirou em seguida. Patricia Douglas não teve a mesma sorte.

Dois homens a seguraram, e jogaram uma garrafa de wisky inteira em sua garganta. Ela foi até o banheiro, para vomitar. Passando mal, ela notou que David Ross, um de seus agressores a seguira, e entrou no banheiro feminino.

David Ross

Ele a arrastou até o estacionamento, onde estava o seu carro, e a violentou. Com gritos de "vou destruir você" e "você nunca mais respirará", ele também espancou a garota, de 20 anos de idade. Quando ela quase desmaiou ele bateu em seu rosto dizendo "eu quero você acordada, coopere!".

Um funcionário do estacionamento encontrou Patricia nua, ferida, cambaleando, e chegou a ver Ross fugindo do local, por volta das 23:30, sete horas depois que as meninas chegaram no estúdio.

Douglas foi levada para o hospital da MGM, e o médico Edward Lindquist ordenou que as enfermeiras dessem um longo banho nela. Só depois, após apelos da atriz, fez um exame de corpo de delito, mas as provas da violência haviam sido providencialmente removidas por ordem do médico.

Um carro do estúdio levou Douglas para casa, e nenhuma queixa de estupro foi aberta. A jovem também não teve nenhum contato com policiais, apenas recebeu a ordem de comparecer no dia seguinte a MGM, para receber seus sete dólares devidos.

Em casa ela desmaiou, acordando apenas 14 horas depois da violência sofrida. Com o descaso do estúdio, ela pediu autorização da mãe (pois era menor de 21 anos) e prestou queixa. A polícia registrou o caso como "honra danificada", e Mannix a procurou, dizendo que ela poderia mover um processo, mas nunca mais atuaria em Hollywood.



Patricia não se intimidou, e deu continuidade ao processo, que chamou a atenção da imprensa. Dois garçons aceitaram depor a favor da atriz. Oscar Buddin, o primeiro a falar declarou que "ouviu conversas sujas e viu garotas se afastando porque os homens tentavam molestá-las". Outro garçom, Henry Schulte disse que "a atitude dos homens foi muito rude, eles passavam as mãos sobre os corpos das meninas e forçavam elas a beberem".

No julgamento, Patricia Douglas recebeu uma foto com os agentes sentados na mesa, onde então ela reconheceu seu agressor. Depois foi confirmada a identidade de David Ross. O agente de vendas se declerou inocente, alegando ser "um bom homem cristão".


David Ross, na festa da MGM

Das 120 meninas, apenas outras duas aceitaram depor a favor de Patricia. A primeira foi Ginger Wyatt, que Wallace Berry havia defendido. A outra foi Paula Bromley. Também ouvido no tribunal, Wallace Berry negou a história de Wyatt.


A estratégia da defesa foi desacreditar a vítima. Lester Roth, advogado de Ross, chegou a apontar para Patricia Douglas, dizendo aos jurados "Olhem Para ela! O que vocês acham que ela quer? E quem iria querer ela?"

A MGM providenciou algumas das meninas da festa para deporem contra Patricia. Virginia Lee disse que a festa foi um "caso alegre com muita diversão boa e limpa" e Grace Downs disse "que só lembrava da exuberância e refinamento". Já Sugar Geise disse que havia visto Patricia "embriagada, desmaiada, já no começo da festa". Ao contrário de Patricia, Gynger Wyatt e Paula Bromley, que tiveram as carreiras destruídas, Virginia, Sugar e Grace receberam papéis significativos no estúdio nos meses seguintes.

Além disto a mãe de Sugar Geise era amiga pessoal de Buron Fitts, o promotor do caso. Fitts também era amigo pessoal e afilhado de Louis B. Mayer, o presidente da MGM, e havia sido o investigador responsável pelo misterioso caso da morte da atriz Thelma Todd, até hoje não esclarecido. Poucos meses depois, ele foi o promotor do caso de Paul Bern, produtor marido de Jean Harlow, que se matou pouco tempo depois do caso de Patricia Douglas. Muitos autores afirmam que Fitts extorquiu a MGM em troca de esconder os verdadeiros fatos do caso. Em 1973 Fitts se matou com um tiro na cabeça.




O funcionário que havia socorrido Patricia também foi promovido no estúdio, logo após negar seu depoimento original.

Durante o julgamento, humilhada e desesperada, Patricia Douglas chegou a tentar o suicídio, correndo para se atirar de uma janela do prédio, mas foi contida por policiais. Após meses de julgamento, David Ross foi inocentado, por falta de provas.

Saindo aos prantos do tribunal, seu agressor a procurou com um sorriso no rosto, pedindo para tirar uma foto com ela, para estampar os jornais.



Chamada de vagabunda pela imprensa, Patricia Douglas se mudou para uma cidade pequena, no meio do deserto, próximo a Las Vegas, e viveu reclusa por anos. Ela mudou de nome, e viveu muitas dificuldades financeiras.

Em 1993 o jornalista David Steen estava escrevendo um livro sobre a morte da atriz Jean Harlow, que era editado pela ex-primeira dama Jacqueline Kennedy. Ele se deparou com o caso da atriz nos jornais antigos, e foi estimulado por Jackie Kennedy a procurar o paradeiro daquela moça.

Dez anos depois ele a encontrou, agora uma bisavó. Seus filhos e herdeiros desconheciam a história daquela frágil senhora, quieta, fria e assustada. Em 2007 ele lançou o documentário Girl 27 (2007).

Patricia Douglas não chegou a ver o filme pronto, pois morreu em 11 de novembro de 2003.



Em suas pesquisas, o jornalista descobriu inclusive um filme da festa, trancado a sete chaves nos cofres da MGM. Nele é possível ver David Ross chegando no local.




O documentário também conta com uma entrevista com o filho de Eloise Spann, uma cantora de ópera contratada como atriz pela MGM, que em 1939 também denunciou um caso de estupro no estúdio, e foi demitida após seu caso ser arquivado. Spann também se escondeu do mundo, e cometeu suicídio em 1960, aos 43 anos de idade.


Outro depoimento tocante é da atriz Judy Lewis, filha de Loretta Young, nascida de um estupro sofrido pela atriz, cometido pelo ator Clark Gable. Loretta entregou a filha para um orfanato, adotando-a pouco tempo depois, para esconder o escândalo. Já contamos está história aqui.

Trailer de Girl 27


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