Francesca de Scaffa, a falsa condessa que foi pivô de um dos maiores escândalos de Hollywood


Na Era de Ouro de Hollywood, era comum os estúdios inventarem fatos fantásticos para enfeitar a carreira de seus astros. Theda Bara, a estrela do cinema mudo, era anunciada como uma princesa exótica oriental, quando na verdade se chamava Theodosia Burr Goodman, e era filha de um alfaiate judeu de Ohio, por exemplo.

Também há casos de atores que enganaram Hollywood, com biografias fantásticas, como Anna Kashfi, a falsa hindu que se casou com Marlon Brando. Mas um dos casos mais famosos foi o da suposta condessa italiana Francesca de Scaffa, que aportou na terra do cinema no começo dos anos 50.


Francesca de Scaffa


Em 1951 o diretor Walter Lang conheceu a bela "aristocrata" em Monte Carlo, quando filmava Escândalos na Riviera (On the Riviera, 1951). Ele se encantou com a história da bela condessa italiana, de origem chilena, que era amiga pessoal de Mahatma Gandhi, e lhe deu um pequeno papel no filme.

Mas mesmo sendo uma participação pequena, garantiu a bela jovem convites para Hollywood. Francesca mudou-se para Los Angeles, e logo se casou com o galã Bruce Cabot, o astro de King Kong (Idem, 1933), em 1950, antes mesmo do filme ser lançado nos cinemas.

Francesca de Scaffa e Bruce Cabot

Mas o sonho de se tornar estrela não se concretizou. Após atuar em alguns poucos programas de televisão, Francesca conseguiu um pequeno papel, não creditado, no filme Flechas Flamejantes (Captain John Smith and Pocahontas, 1953). Depois, só voltaria ao cinema, ainda sem crédito, em Caminhos Sem Volta (The Racers, 1955), filme estrelado por Kirk Douglas e a trágica Bella Darvi, outra europeia que teve uma história frustrada em Hollywood.

Em 1956 as coisas pareciam melhorar em sua carreira, quando ela foi escalada para estrelar o noir Edge of Hell (1956), do diretor Hugo Hass, que também protagoniza o filme.

Francesca de Scaffa no cartaz de Edge of Hell


Sua carreira finalmente parecia começar a dar certo, e ela foi escalada para protagonizar um filme ao lado de Jerry Lewis e Dean Martin, substituindo a húngara Zsa Zsa Gabor, que fora demitida após ser alvo da imprensa de fofocas, por ter dado um soco no playboy Porfírio Rubirosa em público (na época, eles eram namorados).

A própria Francesca era alvo dos fotógrafos, que se interessavam mais pela sua vida do que pela sua carreira. Em 1955 ela foi apontada como o pivô da separação de Marlon Brando com Rita Moreno, que tentou o suicídio após se separar do ator. E na época, Scaffa e Cabot ainda eram casados e tinham uma filha.

Mas o filme com Jerry Lewis nunca seria realizado. No final de 1956 veio a público que Francesca era paga pela revista Confidential desde 1954, para contar segredos dos astros com quem convivia.

A revista Confidential era um tablóide de fofocas, especializado nas estrelas de cinema, e exibia manchetes como: "Lana Turner dividiu um amante com Ava Gardner", "Por que Lizabeth Scott não se casa", "Dan Daily virou Dolly Dawn", "Elvis Presley e as sete coristas de Las Vegas" e "As Bebedeiras de Elizabeth Taylor". E claro, era detestada pelas estrelas de cinema.

Mas adorada pelo público, tendo uma tiragem de mais de 3 milhões e 300 mil exemplares semanais.

Francesca de Scaffa recebia de 30 a 40 mil dólares por ano, para escrever ao menos 30 reportagens anuais. Foi um escândalo na terra do cinema. Bruce Cabot pediu o divórcio, assinado em janeiro de 1957. Francesca processou o ator, pedindo uma fortuna de indenização, incluindo parte dos poços de petróleo que ele tinha como investimento.

Francesca de Scaffa e seu advogado, na assinatura do divórcio com Bruce Cabot

Sua carreira estava arruinada, mas ela estava financeiramente bem. Além do divórcio, possuía uma pequena coleção de jóias, que havia ganhou do Xá do Irã, com quem também teve um relacionamento.

Mas no começo de 1957 a indústria do cinema começou a ficar extremamente incomodada com publicações de revistas como a Confidential, a Whisper (que era do mesmo dono da Confidential, Exposed e Supressed. A revista publicava coisas sobre a sexualidade de artistas como Tab Hunter e Liberace, e matérias que diziam que Mae West havia sido amante do ex-campeão de boxe Chalky Wright ou que Maureen O'Harra havia sido flagrada fazendo sexo com um importante político mexicano em uma sala de cinema.

Robert Mitchum chegou a ser preso após ter uma foto publicada nas páginas do tablóide fumando maconha junto com a atriz Corinne Calvet, a estrela de Escândalos da Riviera (primeiro filme de Scaffa). Os dois foram presos, e Mitchum conseguiu manter sua carreira, mas Calvet não teve a mesma sorte.

A revista ainda vasculhava a vida dos astros antes da fama,  revelando por exemplo que Rory Calhum, antes da fama, havia sido preso por assalto, aos 17 anos de idade.



Entre as matérias de Francesca estavam uma em que contava que havia sido estuprada por Burt Lancaster em seu camarim, e outra que dizia que Clark Gable havia confessado maltratar sua primeira esposa, a atriz Josephine Dillon. Supostamente, Francesca de Scaffa se envolvia sexualmente com os artistas, para conseguir confidências deles próprios.

Foi criada uma comissão no senado para investigar a revista. Por ordem judicial, foi apreendido todas as tiragens da próxima publicação, que não chegou a circular. Dizem que nos exemplares, que foram destruídos antes de irem as bancas de revista, havia uma matéria onde ela listava os diversos artistas com quem teve relações, e davam um ranking por desempenho e tamanho do orgão sexual do ator. Embora não tenha tornado-se público, aparentemente Victor Mature encabeçava a lista.

Na mesma edição, havia também uma matéria sobre a ex-primeira dama Eleanor Roosvelt, mas o conteúdo desta nunca foi divulgado.

Além de Francesca de Scaffa, outros nomes de Hollywood trabalhavam como fontes da publicação. O maestro Daniel Terry vendeu uma matéria onde dizia ter participado de uma orgia com Dorothy Dandridge, e Gloria Wellman (filha do diretor William Wellman) afirmou participar de festas sexuais na casa do ator John Carroll, onde também estavam presentes Forrest Tucker e bandleader Jimmy Dorsey.

 Gloria Wellman durante o julgamento contra a revista Confidential

Uma multidão de artistas processou a revista, e mais de duzentos deles compareceram no julgamento que envolvia a publicação. Entre eles Maurren O'Haara, Ava Gardner, Lana Turner, Edward G. Robinson, Donal d O'Connor, Clark Gable e sua ex-esposa  Josephine Dillon, Joan Crawford, Dan Dailey, Walter Pidgeon, Tab Hunter, Frederich March, Denise Darcel, Doris Duke, Mae West, Dick Powell, Corinne Calvet, , Robert Mitchum, Jeff Chandler Errol Flynn e Dorothy Dandridge. Nem o estúdio mais rico conseguiria reunir este elenco.

Ocorrido em agosto de 1957, o processo contra a revista chamou a atenção da imprensa internacional. Gloria Wellman desmaiou durante o depoimento.  Outras fontes como Ronnie Quillian, que havia sido casada com o cantor Herb Jeffries, também foram intimadas a depor. Ronnie admitiu que foi prostituta, e que havia feito um programa com Desi Arnaz, que também compareceu no julgamento, ao lado de sua esposa, Lucille Ball. Até o produtor Mike Todd, casado com Elizabeth Taylor, foi delatado como informante do periódico.

Outra informante da revista, uma detetive particular, cometeu suicídio antes de ir a julgamento. E Chalky Wright, o lutador de boxe acusado de ter um caso com Mae West, morreu uma semana antes de depor. Casado e com filhos, Wright foi encontrado morto, afogado na sua banheira, aos 45 anos de idade. Cogitou-se na época que ele teria tirado a própria vida com vergonha da humilhação pública.

Mas nem Francesca de Scaffa e nem Robert Harrison, o dono da revista, foram julgados. Eles fugiram para o México antes de serem intimados. Dizem que Francesca pegou sua filha e suas jóias, e fugiu com seu Jaguar preto até a fronteira do país.

Ao chegar no México, com visto de turista, ela teve suas jóias roubadas do quarto de hotel, ficando sem dinheiro algum. Ela então casou-se com o famoso toureiro Jaime Bravo, numa tentativa de conseguir o visto de residência para não ser extraditada, pois seria deportada assim que seu visto expirasse e enviada novamente aos Estados Unidos, onde seria presa. 

Mas o pintor Pablo Picasso, amigo de Bravo, o alertou sobre quem era sua nova esposa, e o toureiro pediu a anulação do casamento. Procurada pela polícia, e sem dinheiro, Francesca tentou se matar tomando remédios, mas foi levada ao Hospital, onde foi salva. Ela disse a familiares que preferia morrer a ir pra cadeia, e depois disso fugiu novamente.

Foi a irmã de Bravo que indicou seu paradeiro, e a polícia mexicana encontrou uma casa humilde onde ela havia se escondido, mas a atriz já não estava mais lá. Na casa, os policiais encontraram matérias que ela estava escrevendo sobre estrelas mexicanas, como María Felix, Arturo de Cordova e Pedro Armendariz. Mas Francesca de Scaffa, agora já estava em Cuba. E a condessa italiana, que na época tinha 24 anos de idade, na verdade, era venezuelana.

De Havana, ela refugiou-se em Caracas. A atriz nunca foi julgada, e desapareceu por completo de Hollywood, que até hoje apaga os rastros de sua passagem pela terra do cinema.

E embora tenha sido condenada a pagar diversas indenizações milionárias (só a desconhecida atriz Tita Phillips, cuja publicação afirmou ser agredida pelo marido, o também ator Edmund Purdon, ganhou dois milhões de dólares), a publicação continuou a circular até 1978.

Em 1965 Francesca de Scaffa se casou com Raymond Affroy, um importante político francês (amigo de Charles de Gaulle e do general brasileiro João Batista Figueiredo). Affroy era embaixador da França no México na época.

Casada com um homem importante, ela manteve-se muito discreta nos seus últimos anos de vida. Pouco se sabe sobre a vida da atriz, como seu nome verdadeiro ou data de nascimento, e quase não existem fotos dela na internet. Também não se sabe publicamente quando Francesca de Scaffa faleceu, mas quando Affroy morreu em 2003, os obituários informaram que ele era viúvo da segunda esposa, que no caso era Scaffa. Com Affroy ela teve uma filha, e aparentemente ele teria adotado legalmente a filha dela com Bruce Cabot.

 Francesca de Scaffa

Em 1957, no auge do processo, foi feito o filme Calúnia Sangrenta (Slander, 1957), onde Van Heflin interpretava um artista vítima de calúnias de uma revista de fofocas, que destruía sua carreira e o relacionamento com sua esposa (vivida por Ann Blyth).




Leia também: A estrela Ann Blyth

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