Peter Sellers, um gênio atormentado


Protagonista de algumas das comédias mais famosas da história do cinema, Peter Sellers foi influência para muitos comediantes, com Steve Martin e Robin Williams. Versátil, ele também era um bom ator dramático, mas na vida pessoal, o ator lutava constantemente contra a depressão e inseguranças pessoais, e nos deixou cedo demais, morrendo com apenas 54 anos de idade.

Em 1997 a revista inglesa Empire, especializada em cinema, o elegeu colocou na posição 84 na lista dos "100 maiores estrelas do cinema de todos os tempos".



Richard Henry Sellers nasceu em Hampshire, Inglaterra, em 08 de setembro de 1925. Ele era filho de Peg Marks e Bill Sellers, artistas de Vaudeville que atuava na companhia do avô de Peter Sellers

Seu irmão, Peter, havia nascido morto, e apesar de ter sido batizado como Richard, ele era chamado de Peter pelos pais, de onde nasceu seu nome artístico, e sua estreia nos palcos aconteceu quando ele era ainda bebê.


O pequeno Peter Sellers

Peter trabalhou como ator durante toda a sua vida, fazendo apenas uma pausa quando serviu na Força Aérea Inglesa durante a Segunda Guerra Mundial Após a Guerra, conheceu Spike Milligan, Harry Secombe e Michael Bentine, que se tornariam seus grandes amigos e colegas de trabalho.


Peter Sellers no exército

Após a Guerra Peter montou um grupo que misturava música e esquetes cômicas, que fez sucesso na época. Além de atuar, ele tocava bateria no conjunto. O ator Dudley Moore também fazia parte da companhia, e também tocava bateria eventualmente.


Peter Sellers baterista

Sellers tinha um enorme talento para imitar vozes de famosos (ele fez a voz de Winston Churchill em alguns filmes), e acabou contratado para atuar no programa de rádio The Goon Show (1951-1960), que fez muito sucesso nas ondas da BBC.

O durou por muitos anos, e gerou vários discos de humor gravado durante o tempo em que ficou no ar. Eles eram produzidos por George Martin, que tornaria-se o lendário produtor dos Beatles, de quem Peter Sellers acabou formando uma forte amizade.

Alguns anos mais tarde, ele faria um filme ao lado de Ringo Starr.


Peter Sellers na BBC

E foi seu talento vocal que o levou para o cinema, dublando o ator Alfonso Bedoya em A Rosa Negra (The Black Rose, 1950). No ano seguinte, apareceria pela primeira vez em frente às câmeras de cinema em Penny Points to Paradise (1951).


Peter Sellers em Penny Points to Paradise

Sellers fez diversos pequenos papéis no cinema nos anos seguintes, e também dublou muitos filmes até 1955, quando teve sua primeira grande chance como um dos criminosos em Quinteto da Morte (The Ladykillers, 1955), e teve papéis destacados em filmes como A Audácia de Um Canalha (The Naked Truth, 1957) e O Pequeno Polegar (Tom Thumb, 1958).


Peter Sellers e Terry-Thomas em O Pequeno Polegar


 mas seu nome só ficou realmente conhecido após ele atuar em Papai é Um Nudista (I'm All Right Jack, 1959), onde fez seu primeiro papel de protagonista. O filme fez um enorme sucesso, e garantiu ao ator diversos outros trabalhos no cinema, em filmes como O Prisioneiro Vagabundo (Two Way Stretch, 1960), A Batalha dos Sexos (The Battle of the Sexes, 1960), A Fúria de Um Bruto (Never Let Go, 1960), Com Milhões e Sem Carinho (The Millionairess, 1960), O Preço do Pecado (Only Two Can Play, 1962), A Valsa dos Toureadores (Walts of the Toreadors, 1962) e fez uma participação especial em Dois Errados no Espaço (The Road to Hong Kong, 1962).

Em 1961 ele também estreou como diretor com A Solidão da Riqueza (Mr. Topaze, 1961), que também estrelou.


Peter Sellers e Sophia Loren em Com Milhões e Sem Carinho


Bing Crosby, Bob Hope e Peter Sellers em Dois Errados no Espaço


Apesar de ter se destacado principalmente em comédias, em 1962 o ator foi escalado para atuar no polêmico drama Lolita (Idem, 1962), dirigido por Stanley Kubrick. No ano seguinte, dirigido por Blake Edwards (com quem trabalharia em diversas ocasiões) o ator viveu pela primeira vez um de seus personagens mais famoso, o atrapalhado Inspetor Closeau, o astro de A Pantera Cor-de Rosa (The Pink Panther, 1963). O filme fez um enorme sucesso nas bilheterias mundiais.


Peter Sellers em A Pantera Cor-de Rosa



No ano seguinte, ele voltou a trabalhar com Kubrick no clássico Dr. Fantástico (Dr. Strangelove of: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964). Sellers interpretava três personagens diferentes, interprentado um alemão, um britânico e um americano.

Essa versatilidade lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Curiosamente, ele já havia sido indicado ao Oscar em 1959, como diretor do curta-metragem The Running Jumping & Standing Still Film (1959).


Peter Sellers em Dr. Estranho


Em 1964 o ator atuou ainda em outros dois grandes sucessos de bilheteria, O Mundo de Henry Orient (The World of Henry Orient, 1964) e Um Tiro no Escuro (A Shot in the Dark, 1964), o segundo filme da saga do Inspetor Closeau. Peter Sellers era agora um grande astro do cinema, e estava no topo do mundo.


Peter Sellers e Elke Sommers em Um Tiro no Escuro

No mesmo ano, tornou-se o primeiro homem a aparecer na capa da revista Playboy. Sellers protagonizou um ensaio (vestido), onde parodiava diversas cenas clássicas do cinema, ao lado de modelos da revista.


Peter Seller, como Rudolph Valentino, na capa da Playboy, em 1964



Mas na noite de 05 de abril de 1964 ele sofreu um ataque cardíaco quase fatal após usar uma droga estimulante sexual. Sellers estava consumido altas doses de poppers com a sua segunda esposa, a atriz Britt Ekland, com quem havia se casado há pouco tempo. Eles se casaram dez dias depois que se viram pela primeira vez.

Antes disto, ele havia sido casado com a atriz Anne Heyes (entre 1951-1963).


Britt Ekland e Peter Sellers


Na época, ele estava gravando Beije-Me Idiota (Kiss Me, Stupid, 1964), do genial cineasta Billy Wilder, mas precisou ser sustido por Ray Waltson.

No ano seguinte, ele estava recuperado, e voltou a atuar com frequência em comédias de sucesso, como Que é Que Há, Gatinha? (What's New Pussycat, 1965) e O Fino da Vigarice (Caccia alla Volpe, 1966), de Vitorio De Sica.

Em 1967 Peter Sellers estrelou Casino Royale (Idem, 1967), onde viveu James Bond, o agente 007, em uma paródia não autorizada (sem recolher direitos autorais). O filme estourou seu orçamento inicial, e acabou dando prejuízo ao estúdio. O ator foi considerado um dos culpados pelo fracasso comercial da obra, principalmente por causa de seu gênio forte, que o deixou com o estigma de ator difícil de se trabalhar, o que havia acabado atrasando em muito as filmagens.


Peter Sellers e Ursula Andress em Casino Royale


Em 1968 o ego inflado do ator fez com que ele recusasse estrelar Inspetor Closeau (Inspector Closeau, 1968), e o ator Alan Arkin acabou ficando com seu famoso papel. Peter Sellers ficou furioso quando soube que havia sido substituído.


Alan Arkin como o Inspetor Closeau


Em 1968, entretanto, Peter Sellers estrelou outro grande sucesso de sua carreira, a comédia Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, 1968), novamente sob direção de Blake Edwards.


Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão



Mas apesar dos grandes sucessos da década de 1960, o ator também havia feito filmes não tão bem sucedidos, como Toureiro Sem Sorte (The Bobo, 1967), Sete Vezes Mulher (Woman Times Seven, 1967), O Abilolado Endoidou (I Love You, Alice B. Toklas!, 1968) e Um Beatle no Paraíso (The Magic Christian, 1968), ao lado do amigo Ringo Starr.


Shirley McLaine e Peter Sellers em A Senhora e Seus Maridos


Ringo Starr e Peter Sellers em Um Beatle no Paraíso


Sellers tinha fama de difícil, e muitos diretores não queriam mais trabalhar com ele. Isto combinado com uma sucessão de filmes não tão bem sucedidos afetaram o seu status de estrela, e sua carreira começou a entrar em declínio.

E apesar de ter feito o mundo rir diversas vezes, ele era um homem infeliz, com uma depressão profunda. Também era muito inseguro, que alegou muitas vezes não ter personalidade própria fora dos papéis que desempenhava. Após cada trabalho, ele assumia a personalidade de seu último personagem, e brigava muito nos bastidores de filmagens, criando atritos com diretores e colegas de elenco.

Com a saúde mental abalada, o ator bebia cada vez mais, além de abusar muito das drogas. Com problemas cardíacos, também se recusava a procurar tratamento médico, preferindo recorrer a curandeiros, o que deteriorou ainda mais o seu coração.

Na década de 1970 o ator se viu trabalhando em uma série de filmes de baixo orçamento, que pouco fizeram para mantê-lo em evidência. Ele foi visto em filmes como O Amor de Um Homem (Hoffman, 1970), Caiu Uma Moça em Minha Sopa (There's a Girl in My Soup, 1970), Onde Dói Mais? (Where Does It Hurt, 1972), As Aventuras de Alice no Mundo das Maravilhas (Alice's Adventures in Wondeland, 1972), O Otimista (The Optimists of Nine Elms, 1973), Na Cama Venceremos (Soft Beds, Hard Battles, 1974) e O Fantasma do Sol do Meio-Dia (Ghost in the Noonday Sun, 1974).


Peter Sellers e Goldie Hawn em Caiu Uma Moça em Minha Sopa


Peter Sellers em Alice no País das Maravilhas




Seu jeito errático, e fama de complicado fez com que o ator perdesse o papel de Willy Wonka em A Fantástica Fábrica de Chocolates (Willy Wonka & the Chocolate Factory, 1971), que foi para o ator Gene Wilder.

Mas em 1974 o produtor Lew Grade procurou Blake Edwards, o criador de o Inspetor Closeau para criar uma série de televisão baseada no personagem. Edwards então o convenceu a financiar um novo longa metragem, trazendo Peter Sellers de volta ao papel.

O diretor não só era o responsável por proporcionar ao ator alguns de seus filmes mais famosos, como também o ajudou a voltar ao topo de Hollywood.



Peter Sellers e Blake Edwards



A Volta da Pantera Cor-de-Rosa (The Return of the Pink Panther, 1975) fez um enorme sucesso de bilheteria, e garantiu ao ator um papel em Assassinato Por Morte (Murder by Death, 1976), que mostrou Sellers novamente em forma criando tipos caricatos e hilários.

Ele ainda interpretaria Closeau em A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther Strikes Again, 1976) e A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (Revenge of the Pink Panther, 1978).


Peter Sellers em A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa 


Edwards também o convidou para estrelar o grande sucesso Mulher Nota 10 (10, 1979), mas Peter Sellers recusou o papel, que foi interpretado por Dudley Moore. Ele até chegou a gravar uma participação especial no filme, mas sua cena foi cortada na ilha de edição.

Sellers preferiu dedicar-se a um projeto pessoal que desejava realizar desde 1972, quando leu o romance Being There de Jerzy Kosinski. E em 1979 ele finalmente pode interpretar Cahucey Gardiner no belo Muito Além do Jardim (Being There, 1979).

O ator foi aclamado pelo papel, e recebeu sua segunda indicação ao Oscar.


Cartaz de Muito Além do Jardim


No mesmo ano ele havia feito uma produção pouco expressiva, O Prisioneiro de Zenda (The Prisioner of Zenda, 1979), onde atuou ao lado de sua quarta esposa, a atriz Lynne Frederick, com quem havia se casado em 1977.


Lynne Frederick e Peter Sellers em O Prisioneiro de Zenda


Frederick era uma atriz inglesa em ascensão na época, mas acabou ficando mais famosa por causa de seu turbulento casamento com Sellers. Os tabloides adoravam expor as brigas e a dependência química do casal.

E em 24 de julho de 1980 Peter Sellers acabou falecendo, vítima de um ataque cardíaco fatal. Dois dias antes, o ator estava se vestindo para encontrar os antigos colegas de Goon Show Spike Mulligan e Harry Secombe, quando desmaiou em seu quarto de hotel, entrando em coma imediatamente. Sellers nunca mais acordou, e saiu morto do hospital.

Quando seu testamento foi aberto, ele havia deixado tudo para Lynne Fredercik, e deixado apenas 800 dólares para dividir entre seus três filhos do casamento anterior. Amigos do ator procuraram a atriz, para interceder em favor de seus filhos, mas ela alegou que não daria nenhum centavo para eles, já que Sellers nunca teve relação com nenhum de seus filhos.

Peter Sellers nunca foi um pai presente, e chegou a confessar em uma entrevista ter engravidado uma moça na juventude, mas a abandonou-a sozinha. Herdeira também dos diretos de imagem do marido, Lynne Frederick também processou o diretor Blake Edwards pelo filme A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Taril of the Pink Panther, 1982), que usava cenas de arquivo do ator, cortada dos outros filmes.

Por causa disto, Lynne Fredrick passou a ser mal vista em Hollywood, e nunca mais atuou. Ela morreria de overdose em 1994, com apenas 39 anos de idade.


Lynne Frederick e Peter Sellers


Peter Sellers tinha descoberto seus problemas cardíacos quando infartou em 1964, e em 1977 havia implantado um marca-passo no coração após sofrer outro grande ataque cardíaco. Nesta época, os médicos aconselharam que ele diminuísse suas atividades, o que o ator se recusou.

Ele também se recusou a passar por outro tratamento cirúrgico, o que poderia ter prolongado sua vida por vários anos.

Quando morreu, o ator havia acabado de dirigir e estrelar O Diabólico Dr. Fu Manchu (The Friendish Plot of Dr. Fu Manchu, 1980), que só foi lançado após a sua morte, e também não foi bem recebido pela crítica e pelo público.



Peter Sellers em O Diabólico Dr. Fu Manchu, seu último filme



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