Abusos e maus tratos, a história de Baby LeReoy, o mais jovem astro do cinema



Após a Quebra da Bolsa de Valores de 1929 os Estados Unidos viveram um período difícil e muito desanimador, chamado de "A Grande Depressão". Neste período, o cinema tornou-se uma válvula de escape barata para uma população desolada diante do cenário econômico do país, e filmes leves e ternos eram um dos gêneros favoritos do público, e muitas dessas produções eram estreladas por crianças fofas e encantadoras.

Em 1933 Shirley Temple, com 4 anos de idade, era uma grande estrela, que estava enchendo os cofres da Fox com as bilheterias arrecadadas com seus filmes. Foi então que a Paramount lançou Baby LeRoy, de apenas 6 meses de idade, fazendo Temple parecer uma "anciã" nas telas.



Maurice Chevalier e Baby Leroy em Beijos Para Todos


Baby Leroy foi o nome artístico dado a Ronald Le Roy Overacker, nascido em Los Angeles, em 12 de maio de 1932. 

Em 1933 a Paramount escreveu o roteiro de Beijos Para Todos (A Betime Story, 1933), que mostrava o ator Maurice Chevalier como um solteirão mulherengo que tem sua vida boemia atrapalhada após um filho seu, recém nascido, ser deixado em sua porta.

O estúdio promoveu um grande concurso para encontrar um bebê risonho, calmo e carismático, e o jovem Bebê LeRoy foi o escolhido, que morava com a família em um abrigo do Exército da Salvação.






Era comum naquela época atores mirins receberem o nome artístico de baby (bebê), como é o caso de Baby Peggy, a mais famosa estrela infantil dos tempos do cinema mudo. Os cinéfilos também devem lembrar da Baby Jane, personagem fictício eternizado por Betty Davis na década de 1960.

Vale lembrar que Baby Leroy não foi o primeiro bebê a trabalhar no cinema, mas ele viria a ser o primeiro a assinar um longo contrato com um alto salário em um estúdio cinematográfico.





O filme fez um grande sucesso, principalmente por causa do bebê, que levava o público as gargalhadas ou as lágrimas sempre que ele aparecia na tela. Baby LeRoy fez as salas de cinema se emocionarem cada vez que ele estava em cena.

Logo o estúdio, vendo seu potencial, criou outro roteiro para o menino, que interpretou o filho de Claudette Colbert em Vozes do Coração (Torch Singer, 1933). Colbert fazia uma jovem de origem humilde que abandonava seu bebê para poder seguir sua carreira de cantora. Agora astro de um dramalhão, Baby Leroy fazia as pessoas chorar, e a sessão de estreia, com a presença do pequeno ator, levou 70 mil pessoas para a sala de cinema onde ele seria exibido, para ver de perto o pequeno astro.


Baby LeRoy e Claudette Colbert


Vendo o potencial do garoto, a Paramount lhe ofereceu um vantajoso contrato de 7 anos, com um salário maior que de Freddie Bartholomew, o menino prodígio da MGM. Baby Leroy tinha na época menos de 1 ano de idade, e foi o mais jovem ator da história a assinar um contrato de exclusividade de longo prazo em um estúdio de cinema.

Como ele não podia assinar os papéis, por motivos óbvios, foi preciso que seu avô assinasse a documentação, já que a mãe de Baby LeRoy tinha apenas 16 anos na época. Devido ela ter sido mãe adolescente, o material publicitário nunca se referia a sua genitora.


Baby Leroy assinando o contrato na Paramount


O menino era um grande sucesso, e chamava a atenção do público. Logo ele estava estampando as capas de revista, e posando para publicidade. O menino também passou a receber milhares de cartas, de todo o mundo, e recebeu correspondência de fãs famosos como Greta Garbo, Mahtma Ghandi e até de Benito Mussolini.



Baby LeRoy e Carole Lombard (com quem ele nunca contracenou)





Para seu novo filme, ele foi reunido com W. C. Fields, o maior comediante do estúdio, e um dos nomes mais famosos do cinema da época. Eles atuaram juntos em Esperto Contra Sabido (Tillie and Gus, 1933), que também fez um grande sucesso.

Cartaz de Esperto Contra Sabido

A dupla logo caiu no gosto popular, e a Paramount apostou em Fields e LeRoy como novos parceiros de comédia, querendo fazer deles uma espécie os novos o Gordo e o Magro, só que com um bebê.

Eles voltaram a atuar juntos em No Tempo do Onça (The Old Fashioned Way, 1934), onde Baby LeRoy fez a icônica cena onde joga comida na cabeça de Fields, além de quebrar seu relógio de bolso. 


Baby LeRoy e W. C. Fields em No Tempo do Onça


Mas foi a cena final, onde Fields da um chute na bunda do menino quem mais fez o público rir. Aliás, maltratar crianças em cena era uma das piadas favoritas de Fields em seus filmes. Embora anos mais tarde, antigas atrizes mirins como Gloria Jean e Jane Withers tenham rasgados elogios ao ator em entrevistas concedidas a historiadores de Hollywood.


W. C. Fields e Baby Leroy em No Tempo do Onça


Fields também era famoso ao fazer piadas em reuniões sociais contando como odiava crianças, e começou a se sentir incomodado com o sucesso do bebê ator, que estava lhe roubando a cena. Em uma festa, certa vez, confessou as risadas, que colocava gim na mamadeira do ator, para ele dormir ou parar de chorar, e que "logo ele ficava bêbado como um Barrymore" (referência a tradicional família de atores em Hollywood, que teve sérios problemas com o alcoolismo).


W. C. Fields e Baby LeRoy em foto publicitária



A dupla ainda protagonizaria Um Negócio da China (It's a Gift, 1934), outra comédia com Baby Leroy causando grandes inconvenientes a Fields em cena. Eles também trabalharam juntos em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1933), uma super produção que reunia praticamente todos os atros do estúdio.


Baby LeRoy em Alice no País dos Maravilhas


Norman Z. McLeod, o diretor de Alice no País das Maravilhas havia se recusado a dirigir cenas de W. Fields e Baby Leroy nesta produção, e então eles não contracenaram neste filme. McLeod havia ficado chocado com a forma como o ator gritava com o bebê, com menos de dois anos de idade, durante a realização de Um Negócio da China (It's a Gift, 1934), que ele também dirigiu.

Segundo o diretor, Fields xingava tanto a criança durante as filmagens, que muitas vezes o diretor se viu obrigado a parar as gravações e teve que cortar muitos metros de película com os ataques feitos pelo veterano ator.

Leo Rosten, roteirista da Paramount naquela época, costumava contar, em tom de piada, que certa vez viu W. C. Fields chegou a ameaçar a criança com um picador de gelo, para que ele parasse de chorar. A Paramount chegou a contratar um dublê para o menino, um bebê chamado Ron Smith, para substituir LeRoy em algumas cenas, e deixar o menino repousar.




Ron Smith e Baby Leroy


Sem W. C. Fields, Baby LeRoy atuou no drama Dúvida Que Tortura (Miss Fane's Baby is Stolen, 1934), e durante uma gravação, o pequeno falou sua primeira palavra (o que não estava previsto), proferindo "mamãe" para a atriz Dorothea Wieck. Em seguida ele atuou em The Lemon Drop Kid (1934), uma comédia agora estrelada por Lee Tracy. O filme foi um fracasso de bilheterias, e nem chegou a ser lançado no Brasil.


Dorothea Wieck e Baby LeRoy




Lee Tracy e Baby LeRoy


A Paramount tentava salvar a carreira de seu astro juvenil, e o colocou em diversos curtas metragens publicitários, e conseguiu que o menino, agora com pouco mais de dois anos, fizesse uma sessão de fotos publicitárias ao lado da estrela Shirley Temple. As manchetes diziam "o primeiro encontro de Baby Leroy", e ainda afirmavam, que com o dinheiro que ele estava ganhando, ele poderia pagar diversos sorvetes.

Mas nem todo o esforço publicitário foi o suficiente para salvar sua carreira.


Baby LeRoy e Shirley Temple


Cary Grant e Baby LeRoy



Mas o menino já não era mais novidade, e o público parecia sentir falta da parceria com W. C. Fields.  E seu filme seguinte, Que Boa Vida (It's a Great Life, 1935), também não agradou. Ele só apareceria ainda no curta metragem Babes in Hollywood (1935), e depois desapareceu das telas.

Babes in Hollywood contava com praticamente todo o elenco de atores mirins do estúdio: Billy Lee, Lois Kent, Leonard e Sidney Kibrick (que eram irmãos), Jerry Tucker e Virginia Weidler.


Baby LeRoy e Billy Lee


Sem dar retorno nas bilheterias, Baby Leroy foi demitido em 1935, antes do fim de seu contrato, com apenas 3 anos de idade. A revista Variety publicou a infame manchete: "Baby LeRoy está acabado".

No ano seguinte, em 1936, a Fox lançaria o filme O Médico da Aldeia (The Country Doctor, 1936), que era estrelado pelas irmãs Dionne, que eram 5 gêmeas canadenses que se tornaram um grande fenômeno mundial (e também foram vítimas de exploração e maus tratos). Elas tinham pouco mais de um ano quando fizeram o primeiro filme, e se tornaram os novos bebês sensação de Hollywood.


As quíntuplas Dionne


Três anos depois, foi a vez da Universal lançar Baby Sandy, que tinha apenas alguns meses de idade quando estreou em Caído do Céu (East Side Heaven, 1939). Baby Sandy também foi um grande sucesso junto ao público, que tinha adoração por bebês atores na época. Aos cinco anos de idade, ela pediu para a mãe para deixar de atuar, e foi atendida. Ao contrário do que aconteceu com muitos atores mirins na história do cinema, sua mãe guardou para ela todo o dinheiro que ela ganhou com cinema e publicidade, garantindo a Baby Sandy uma boa vida na fase adulta.

O filme Bachelor Daddy (1941), serviu de inspiração para o roteiro de Três Solteirões e Um Bebê (Three Man and a Baby, 1987), porém no filme de Baby Sandy eram 4 "pais".



Em 1940 a Paramount achou que seria interessante mostrar ao público como estava Baby LeRoy, na época com 8 anos de idade. Ele foi rebatizado de Lonnie Leroy, e foi escalado para ser o astro de Cachorro Vira-Lata (The Biscuit Eater, 1940).

Mas durante a gravação da primeira cena, LeRoy precisava segurar uma corda para atravessar um lago. Era inverno, e ele caiu na água durante as filmagens. Ele caiu no lago duas vezes tentando gravar a cena, e acabou contraindo um forte resfriado, e perdeu a voz. O médico pediu que ele ficasse uma semana de repouso, e o diretor Stuart Heisler então mandou chamar Billy Lee para assumir o filme, e assim não atrasar a produção. Baby LeRoy foi mandado para casa, com a promessa de que iria estrelar um outro filme, assim que se recuperasse. Mas isto nunca aconteceu. 

Cachorro Vira-Lata tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de Billy Lee (que também foi dispensando mais tarde, quando completou 12 anos de idade).


Cartaz de Cachorro Vira-Lata 


Longe de Hollywood, o ex ator mirm ingressou na marinha mercante, e nunca mais voltou a atuar. Em 1957 ele apareceu em um programa de televisão, e voltou a ser notícia brevemente, matando a curiosidade dos antigos fãs que queriam saber como estaria o Bebê LeRoy.


"Baby LeRoy" no colo de Maurice Chevalier (com quem fez seu primeiro filme), em 1957

Baby LeRoy morreu anonimamente em 28 de julho de 2001, aos 69 anos de idade.


W. C. Fields parou de fazer humor maltratando crianças em 1941, após o trágico acidente onde Christopher Quinn, o primeiro filho do ator Anthony Quinn, morreu afogado em sua propriedade, com apenas 2 anos de idade.

Por um descuido dos pais, o menino brincava sozinho no jardim, e acabou caindo em um pequeno lago da mansão do ator. Fields, que já estava em decadência, faria poucos filmes depois disto, e morreu cinco anos depois, aos 66 anos de idade.

















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