Itália Almirante-Manzini, a estrela italiana que foi censurada e massacrada pelo Brasil, o país onde morreu


Antes da Primeira Guerra Mundial, o cinema europeu era tão forte (ou mais) que o norte-americano, que passou a dominar o mercado após a devastação da Europa, ocorrida durante o conflito.

Então, nos primeiros anos do século XX, era comum que estrelas europeias gozassem de grande prestígio junto ao público internacional, incluindo o Brasil. As nossas salas de exibição de projeção sempre tinham espaço para filmes vindos da Europa, e seus artistas tornavam-se astros aclamados pelas publicações cinematográficas brasileiras.

A Itália produziu diversas estrelas durante os tempos do cinema mudo, como Lyda Borelli, Pina Menichelli e Francesca Bertini. E Itália Almirante-Manzini também tinha seu lugar de destaque no panteão das grandes divas italianas.






Vinda de uma família tradicional de artistas teatrais, cuja fama remota os princípios do século XIX, Itália Almirante nasceu na cidade de Taranto, Itália, em 03 de junho de 1890. Ela era filha dos atores Michele e Urania Dell'Este, e sobrinha do cineasta Mario Almirante, além de ser prima de Luigi, Ernesto, Giacomo e Luigi Almirante, todos atores do cinema italiano. Ela também era prima do político Giorgio Almirante.

O sobrenome Manzini ela passou a adotar após se casar com o jornalista Amerigo Manzini, que se tornou ator, e atuou em diversos filmes ao lado da esposa.




 
Itália Almirante-Manzini começou a atuar ainda na infância, e logo construiu seu nome nos palcos italianos, e posteriormente, internacionais. Em 1909, antes ainda de sua estreia no cinema, veio fazer uma turnê no Brasil, na companhia de Lyda Borelli.

Nesta época, era comum que companhias estrangeiras viessem ao país, para se apresentar para a elite brasileira nos palcos dos principais teatros nacionais. Uma tradição que resistia desde os tempos do império.

A atriz estreou no cinema em Gerusalemme Liberta (1911), e logo se tornaria uma das estrelas do cinema italiano pré guerra. Ela fez dezenas de filmes em pouco mais de 15 anos de carreira, e ficou mundialmente famosa ao interpretar Sophonisba em Cabiria (Idem, 1914), uma super produção de orçamento milionário, mais de 1 milhão de dólares (algo impensável para a época) feita em longa metragem (outro feito raro nos primórdios do cinema).

Ambicioso, o filme fez um enorme sucesso mundial, e tornou-se uma referência obrigatória para os pesquisadores da história do cinema.


Itália Almirante-Manzini em Cabiria



Itália Almirante-Manzini era uma estrela das telas, e atuou diversos filmes, muitos deles protagonizado pelo herói Maciste, um ícone do cinema italiano. Entre 1917 e 1918, quase que a totalidade de seus filmes foram exibidos no Brasil.






Considerada a rival de Francesca Bertini, ela era chamada pela nossa imprensa de "A Vênus Italiana", dona de uma "beleza diabólica", e tantos outros elogios que enalteciam sua beleza e talento.

Em 1926 ela voltou ao Brasil, para fazer uma série de apresentações nos teatros cariocas. Sua visita a Cidade Maravilhosa recebeu uma grande cobertura por parte da imprensa, que anunciava as sessões lotadas.

Itália-Almirante Manzini estava indo em uma turnê para à Argentina, e Paschoal Segretto, um grande empresário das artes, aproveitou que seu navio pararia por aqui para contratar a estrela italiana.








Com o final da Primeira Guerra Mundial, o cinema norte-americano havia predominado o mercado, pondo fim ao culto as grandes estrelas da Europa na época. Muitas delas, como Georgina Marchiani e Letizia Quaranta (a Cabiria), chegaram a morar no Brasil, fugindo da guerra e em busca de possibilidades de trabalho, chegando inclusive a atuar no nosso cinema.


Mas logo toda a bajulação em torno da estrela em terras brasileiras mudou de narrativa. Itália havia decidido fazer um filme com cenas rodadas por todos os países estrangeiros onde sua turnê passaria, e La Bellezza del Mondo (1927) era dirigido por seu primo Mario Almirante.

Enquanto estava filmando em São Paulo, em uma praça no bairro da Consolação, um morador da região, o Coronel Alberto Lima Vieira, viu a equipe gravando uma das cenas. Nela, um ator branco dançava com artistas negros, pois a trama falava da escravidão, que havia acabado por aqui três décadas antes.

O coronel foi até a delegacia e registrou junto a Aquiles Guimarães, chefe da Delegacia de Ordem Política e Social uma queixa que dizia ter visto "brancos pulando junto do batuque dos negros". O cinegrafista Antonio Cafuraro foi preso, e as latas com todos os rolos de filmes foram apreendidos.

Os censores assistiram as filmagens, e ficaram indignados com a obra, de trama histórica, que retratava a escravidão. Foi considerado que o filme, que seria exibido na Itália, seria uma ofensa ao Brasil, e que o tema era proibido e deveria ser esquecido. Itália Almirante-Manzini foi acusada de querer "promover crioulos a estrelas de cinema".

As filmagens no Brasil foram destruídas, perdendo muitas cenas de um jovem ator de sua companhia, que estreava no cinema, Vittorio de Sica. Um ano mais tarde, o filme foi lançado na Itália, sem abordar o Brasil.



Fotos das filmagens brasileiras de La Bellezza del Mondo, usadas como provas contra Itália Almirante-Manzini


Logo a nossa imprensa, que sempre a enaltecera, passou a atacar a atriz. Diziam agora que sua turnê havia sido um fracasso estrelado por uma "vedete decadente". E agora diziam que ela era feia, medíocre e velha (aos 36 anos de idade). E que havia vindo ao país para difamar o Brasil.


Charge falando sobre a beleza da atriz, publica na época




Os jornais também destacavam que como a escravidão havia acabado há alguns anos, as cenas filmadas eram inadmissíveis. O jornal carioca A Gazeta, em 27 de julho de 1927, escreveu: "A memória do cativeiro não pode mais deprimir a geração atual do nosso país. Correspondendo às necessidades de uma época, e mais do que às necessidades, à moral de um tempo que vai muito distanciado de nós, essa prática repulsiva, trazida às jovens terras da América pelos europeus, prestou o inestimável serviço de estimular o altruísmo da alma genuinamente nacional."

Pouco tempo depois, algo similar aconteceu com o cineasta Vitorio Capellaro, que dirigia uma adaptação de O Guarani (1926), baseado na obra de José de Alencar. Querendo mais realismo, o diretor gravou algumas cenas em uma tribo indígena em Itanhaém. Essas imagens também foram confiscadas e destruídas, sob a acusação de serem "ofensivas aos nossos brios".

A atriz então retornou à Itália, onde atuaria em apenas mais um filme, L'Ultimo dei Bergerac (1934), a única produção falada de sua carreira.

Porém, em 1936 ela e sua irmã Rafaella, que também havia sido atriz, voltaram ao Brasil, fazendo uma peça, onde contracenavam com os atores César e Yolanda Fronzi (os pais de Renata Fronzi). O espetáculo não foi muito bem sucedido, e sem dinheiro para retornar à Itália, ela e Rafaella acabaram fixando residência em São Paulo, onde montaram uma "casa de modas" na Rua Barão de Itapetininga.

Em 15 de setembro de 1941, a atriz italiana faleceu em São Paulo, aos 51 anos de idade. A imprensa brasileira nada noticiou, e um ano após a sua morte, a revista de cinema Cinearte fez uma homenagem anunciando seu falecimento no ano anterior. Foi um dos poucos registros nacionais em nossa imprensa sobre seu passamento.




Ao longo dos anos, um boato surgiu dizendo que a atriz morreu  devido a picada de um inseto venenoso, amplamente replicada pela internet. Na verdade, conforme consta nas informações do cemitério paulista onde ela foi enterrada, Itália Almirante-Manzini morreu de caquexia e carcinoma no seio.








Um comentário:

  1. A matéria é muito interessante, rica e bem documentada; parabéns pela pesquisa! Porém, os inúmeros erros ortográficos, tipográficos e gramaticais (além de erros provocados por pura distração: "...a escravidão 'fora decretada' anos antes...") prejudicam muito a fluidez da leitura, além de não contribuírem em nada para a preservação do idioma. Seria demais pedir que os textos fossem submetidos a uma revisão antes de serem publicados?

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