A impressionante história e o triste fim do ator Lou Tellegen, "O Homem Mais Bonito do Mundo"


Hoje esquecido, Lou Tellegen foi um grande astro nos primeiros dias de Hollywood. Holandês, de descendência grega, ele chegou a ser considerado "o homem mais bonito do mundo". Elevado ao estrelado pela lendária Sarah Bernhardt, sua vida cheia de histórias e aventuras, mas com um final trágico, parece um enredo de alguns dos dramas que estrelou ao longo de sua carreira.

Foto mais antiga conhecida do ator Lou Tellegen, nos anos de 1910

Isidor Louis Bernard Edmond van Dommelen nasceu na Holanda, em 26 de novembro de 1881. Filho ilegítimo do tenente Isidoro Louis Bernard Edmond Tellegen, um famoso e condecorado militar holandês.

Lou Tellegen era um aventureiro, e muito jovem, resolveu viajar pela Europa, e teve diversas profissões antes de se tornar ator. Ele lutou boxe em competições amadoras por dinheiro, dirigiu um táxi em Bruxelas, foi trapezista em um circo em Berlim e em Moscou, ficou um mês na cadeia após ser preso distribuindo panfletos sobre métodos contraceptivos. 

Depois viajou para o Brasil, em busca de tesouros nos garimpos da floresta Amazônica, e retornou para à Europa após conseguir emprego abastecendo o carvão em um navio cargueiro francês. Na França, foi novamente preso, após se envolver com uma rica mulher casada.

Na prisão, escreveu uma carta para o amigo ator Édouard de Max, pedindo que ele pagasse sua fiança. Sem dinheiro, Max conseguiu para ele trabalhos no teatro francês, pois Tellegen já havia atuado nos palcos holandeses.

Eleonora Duse, uma lendária estrela do teatro italiano acabou o contratando para sua companhia, onde ele era figurante. Para complementar a renda, o ator começou a posar nu para diversos artistas, e foi o modelo da escultura Eternal Spring, de Auguste Rodin.

Eternal Spring

No ateliê de Rodin, Tellegen foi apresentado para a francesa Sarah Bernhardt, a atriz mais famosa do mundo na época. Sarah era 37 anos mais velha que o ator, e caiu de amores pelo belo rapaz. Ela o contratou para sua companhia, promovendo ele a protagonista masculino de suas peças.

Ela também levou Lou Tellegen para morar na sua casa, e escandalizou a sociedade ao anunciar que iria se casar com o jovem ator (embora isto nunca tenha acontecido). Ela tinha 66 anos de idade, e ele 27. Bernhard não fez de Tellegen apenas um homem famoso, mas garantiu para ele contratos que o deixaram rico.

Em 1910 ela o levou junto em sua turnê pelos Estados Unidos, e em 1912 Tellegen estreou no cinema no papel de Armand Duval, contracenando com Sarah Bernhard no filme La Dame Aux Camélias (1912). O ator faria os principais papéis masculinos nos filmes seguintes da esrela: Les Amours de la Reine Élizabeth (1912) e Adrienne Lecouveur (1913).

Lou Tellegen e Sarah Bernhardt em Les Amours de la Reine Élizabeth

No final do ano de 1913 o ator foi convidado para estrelar a peça O Retrato de Dorian Grey, em Londres. Ele então abandonou Bernhard, e partiu para à Inglaterra, almejando novos rumos em sua carreira.


Ao fim da temporada, foi convidado por Samuel Goldwyn para ir para Hollywood, onde estreou no filme The Explorer (1915). A crítica o considerou um ator limitado, mas as fãs se encantaram com a beleza do rapaz, que logo foi promovido a astro. No ano seguinte, o ator estrelou o drama The Victory of Conscience (1916).

Leo Tellegen e Cleo Ridgely em The Victory of Conscience

Em 1916 a fama do ator aumentou ainda mais quando ele se casou com a estrela do cinema mudo Geraldine Farrar. O casal passou a estampar diversas revistas destinadas aos fãs do cinema, pelo mundo inteiro. Ele já havia sido casado antes com Jeanne De Brouckère, uma condessa holandesa, que o ajudou no começo de carreira. Jeanne era escultora, e havia conhecido Tellegen quando ele era modelo artístico.

Leo Tellegen e Geraldine Farrar

Com Farrar, ele fez três filmes, incluindo Chama do Deserto (Flame of the Desert, 1919), que tinha no elenco o ator Syn de Conde, o primeiro brasileiro a trabalhar em Hollywood. (Leia mais sobre Syn de Conde aqui).

Geraldine Farrar, Lou Tellegen em Chama do Deserto,
o brasileiro Syn de Conde está ao fundo da foto



Ainda casado, publicou sua autobiografia, chamada "Mulheres Foram Gentis", onde contava suas aventuras e seu estilo "bon vivant" que fez com que ele fosse ajudado por mulheres poderosas. A revista Vanity Fair fez uma crítica, dizendo que o livro deveria se chamar "mulheres foram gentis com um idiota". E embora muito de sua biografia encontrada por ai seja atribuída a suas memórias, alguns autores acreditam que Tellegen tenha inventando muitas de suas aventuras.

O casamento com Geraldine Farrar acabou em 1923, após a atriz o acusá-lo de diversos adultérios. Mas sua carreira não foi abalada. Lou Tellegen seguiu estrelando filmes mudos como Pecado Redentor (The Redeeming Sin, 1925), Noites Parisienses (Parisian Nights, 1925), O Que a Esposa Não Deve Fazer (After Business Hours, 1925) e Tesouro de Prata (The Silver Treasure, 1926), a maioria deles feitos no estúdio Vitagraph.

Alla Nazimova e Leo Tellegen em Pecado Redentor

Helena D'Algy, estrela portuguesa no cinema mudo de Hollywood, e Leo Tellegen

No final de 1923 o ator se casou novamente com a atriz Nina Romano, com quem ficou junto até 1928. 

Em 1927 Lou Tellegen atuou em seu último papel importante no filme Lições em Amor (Married Alive, 1927), ainda mudo. No mesmo ano, o sistema de som chegou em Hollywood, que logo começou a fazer filmes falados. Com um forte sotaque holandês, Tellegen não passou no teste para atuar em produções sonoras, e sua carreira acabou vertiginosamente.

No ano seguinte, decadente, sem trabalho e cheio de dívidas, o ator decretou falência. Com quase 50 anos de idade, ele já não era mais o galã queridinho de Hollywood, que pouco fez para tentar salvar sua carreira. 

Tellegen começou a fazer testes para atuar no teatro, em cidades distantes de Nova York ou Los Angeles, para não ser reconhecido como uma estrela de outrora em busca de emprego. E sua situação piorou na noite de natal de 1929. O ator adormeceu enquanto fumava, em um quarto de hotel. O cigarro queimou seu bigode, e seu rosto ficou desfigurado. Nos meses seguintes, ele se submeteu a diversas cirurgias plásticas para tentar recuperar seu antigo rosto.

Tellegen inclusive tentou ser estrela de cinema na Grécia, onde produziu, dirigiu e estrelou o filme To Oneiron Tou Glyptou (1930), que não fez grandes alterações em sua carreira. Na época, ele estava casado com a aspirante a atriz Eve Casanova (de quem se separou em 1932).

Eve Casanova e Lou Tellegen


Após fazer diversas operações no rosto, Tellegen conseguiu um novo papel em Hollywood, em Enemies of the Law (1931), uma produção de baixo orçamento, em um estúdio desconhecido. Ele só retornaria ao cinema em Caravane (1934), estrelado por Anabella e Charles Boyer.

O filme foi lançado em 26 de outubro de 1934. Ao assistir a sessão, Leo Tellegen percebeu que seu pequeno papel havia ficado ainda menor na ilha de edição, que cortou quase todas as suas cenas. Ele nem mesmo foi creditado na produção, que o reduziu a uma figuração.

Leo Tellegen em seu último filme


No dia 29 de outubro Lou Tellegen saiu do cinema deprimido, e foi para a casa de sua admiradora Edna Cudahy, uma viúva rica de meia idade, que havia lhe dado abrigo após o ator ser despejado. Ele se trancou no banheiro e espalhou suas fotos e recortes de jornais que retratavam o auge de sua carreira pelo local. Se vestiu elegantemente, fez a barba e passou pó de arroz no rosto.

Em seguida pegou uma antiga tesoura de ouro, que usava para recortar as notas que saiam sobre ele na imprensa na época da fama, e esfaqueou o coração até a morte, diante de um enorme espelho.

Lou Tellegen tinha 52 anos de idade. 



E embora sua vida nunca tenha sido levada para as telas de cinema, o ator foi vivido brevemente por Michael York no especial Parade of Stars (1983), feito para a televisão.

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