A turbulenta vida de Louise Brooks, a estrela que odiava Hollywood


Com seus cabelos negros, lisos e curtos, Louise Brooks inspirou a moda e tornou-se um ícone imagético da história do cinema. A estrela de A Caixa de Pandora (1929) tornou-se o símbolo das flappers da década de 1920. O pesquisador francês Henri Langlois disse certa vez: "Não existe Garbo, não existe Dietrich! Existe apenas Louise Brooks!".

Conheça mais sobre a  vida tumultuada e a breve e importantíssima carreira desta pioneira do cinema.


Mary Louise Brooks nasceu no Kansas em 14 de novembro de 1906. O pai de Brooks era um advogado que dizia ser muito ocupado com seu trabalho, e portanto não tinha tempo para a criação dos filhos, que ficava a cargo exclusivamente da mãe, uma pianista talentosa, que acreditava que "seus filhos podiam cuidar de si mesmos". Brooks cresceu uma criança livre, independente, e aos quatro anos de idade já era bailarina.

Mas esta criação livre não era tão benéfica assim para a menina, que foi estuprada por um vizinho aos nove anos de idade. Ao contar para a mãe a violência sofrida, ouviu da genitora que "ela devia ter provocado" o seu agressor. O abuso sexual marcou Louise Brooks para sempre, e se refletiu em sua sexualidade e até mesmo em sua carreira.

Aos quinze anos de idade ela saiu de casa, e passou a trabalhar como dançarina em uma companhia de dança moderna, sendo colega da jovem Martha Graham. Em 1923 ela já era uma destacada artista, se apresentando por todo o país. Ruth St. Dennis, a fundadora da companhia, enciumada com o sucesso da garota, a demitiu no ano seguinte, dizendo que Brooks queria "uma vida entregue em uma bandeja de prata".

A atriz Barbara Bennett (irmã de Joan e Constance Bennett) conseguiu um novo emprego para Louise, que passou a dançar no coro do espetáculo Scandals (1925), de George White. O sucesso da produção, encenada no Ziegfeld Follies chamou a atenção de Walter Wanger, da Paramount, que lhe ofereceu um contrato de cinco anos. Charles Chaplin também estava interessado na garota, mas não conseguiu contratá-la a tempo. 

Louise Brooks estreou no cinema em um pequeno papel no cinema no filme O Mendigo Elegante (The Street of Forgotten Men, 1925). Hollywood queria fazer de Louise uma boneca das telas, uma estrela de comédias leves e filmes românticos, mas ela era uma mulher a frente de seu tempo, dona de uma personalidade forte e uma determinação sem igual. Em uma época em que a maioria dos artistas contratados em submissos e explorados pelos estúdios, Louise Brooks não se deixou domar.

Louise atuou sim em obras leves, como A Vênus Americana (The American Venus, 1926), Entre a Loura e a Morena (Just Another Blonde, 1926) e Uma Noiva em Cada Porto (A Girl in Every Port, 1928), mas a medida que sua carreira e fama iam crescendo, pode se impor diante dos estúdios.


Naquele tempo Mary Pickford e seus longos e cacheados cabelos ditavam o padrão de beleza das estrelas, e Louise Brooks ousou cortar ela mesma suas madeixas, adotando o corte de cabelo curtíssimo, depois imitado por Coleen Moore.

O visual logo se virou moda, e virou símbolo da mulher moderna daquela época. Porém, em 1920 a atriz Mary Thurman já havia adotado tal visual.

Mary Thurman

Em 1928 Louise Brooks estrelou Mendigos da Vida (Beggars of Life, 1928), um drama sobre uma garota que é abusada sexualmente pelo pai adotivo, e o mata em um momento de desespero. Ela foge vestida de homem, e acaba morando em meio a sem-tetos, tornando-se a única mulher em uma selva de homens brutais e violentos.

Louise Brooks em Mendigos da Vida

Brook também havia acabado de filmar O Drama de Uma Noite (The Vanary Murder Case, 1929) quando pediu demissão da Paramount. O estúdio havia prometido a atriz um aumento de salário, que nunca foi dado, e então ela se recusou a continuar o contrato.

Nesta época Louise descobriu que o diretor alemão G. W. Pabst havia pedido a atriz emprestada para a Paramount, que negou ceder a estrela, e nem a comunicou a respeito do convite. A atriz entrou em contato com o cineasta, e partiu para à Europa para estrelar o filme mais famoso de sua carreira, A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora, 1929). Louise interpretava Lulu, uma mulher sedutora que destrói todos os homens que se aproximam dela, e ela usou sua vida tumultuada para inspirar sua personagem. O filme também tem uma das primeiras retratações do lesbianismo na história do cinema.


Enquanto estava na Alemanha, a Paramount tentou desesperadamente recontrata-la, por O Drama de Uma Noite havia sido filmado sem som, e eles queriam transformar o filme em uma produção sonora, e era preciso que Louise dublasse suas falas. O estúdio ofereceu uma fortuna para a atriz, que recusou todos os convites. Os produtores deram um ultimato, ou ela aceitava, ou nunca mais trabalharia em Hollywood.

Louise respondeu com um telegrama, dizendo apenas "Quem quer trabalhar em Hollywood?". Margaret Livinsgston foi chamada as pressas para dublar Louise, e a Paramount cumpriu o que prometeu, espalhou para toda Hollywood que a voz de Louise Brooks era horrível, e ela não tinha condições de trabalhar no cinema falado. Esta mentira teve um efeito fulminante na carreira da atriz, fazendo cessar os convites para o cinema, e deixando-a em pouco tempo no ostracismo.

Com Pabst Louise ainda fez Diário de Uma Garota Perdida (Tagebuch einer Verlorenen, 1929) e Miss Europa (Prix de Beauté, 1930). Em Diário de Uma Garota Perdida ela novamente interpretava uma jovem inocente que é estuprada, e acaba engravidando do próprio pai. Para "se corrigir", a menina é enviada para um convento, mas foge e acaba nas ruas, como prostituta.


Todos os três filmes que a atriz fez com Pabst tinham um forte conteúdo adulto e sexual, e foram considerados muito chocantes para o público da época, e acabaram sofrendo forte censura.

De volta aos Estados Unidos, Louise fez três filmes em Hollywood: It Pays to Advertise (1931), God's Gift to Women (1931) e Windy Riley Goes Hollywood (1931), este último, um curta-metragem. Porém, os filmes não receberam nenhuma publicidade, e a imprensa puniu a atriz praticamente não falando das obras, para que ela caísse em total esquecimento junto ao público.

Louise Brooks em God's Gift to Women

William Wellman, seu amigo e diretor de Mendigos da Vida, a convidou para estrelar Inimigo Público (The Public Enemy, 1931) ao lado de James Cagney. Mas Louise recusou. Ela preferiu ir para Nova York para encontrar o namorado George Preston Marshall

Wellman perguntou a Brooks porque não aceitava o papel, que poderia levantar sua carreira, e ela simplesmente respondeu "eu odeio Hollywood". Jean Harlow foi escalada as pressas, e acabou se tornando uma grande estrela após o sucesso do filme.

A ousadia custou caro para sua carreira. Em 1932 a atriz declarou falência, e começou a dançar em casas noturnas para pagar as contas. Em 1936 ela retornou ao cinema em um western barato estrelado e produzido por Buck Jones, O Rancho das Feitiçarias (Empty Saddles, 1936). Com os cabelos crescidos, poucos reconheceram no filme a estrela de outrora.

Buck Jones e Louise Brooks

A Columbia lhe ofereceu um emprego como corista, fazendo figuração em Prelúdio de Amor (When You're in Love, 1937), e a Paramount cortou todas as suas cenas no filme O Amor é Como Um Jogo (King of Gamblers, 1937).

Após atuar no barato Bandidos Encobertos (Overland Stage Raiders, 1938) na Republic, Louise Brooks abandonou o cinema. A atriz dizia que só aceitou o papel neste western, no qual contracenou com o jovem John Wayne, porque recebeu 300 dólares de salário, e precisava do dinheiro.

Bandidos Encobertos 

A atriz queria viver uma vida simples e normal, e retornou para sua cidade natal, mas foi rejeitada pelos moradores local. Anos mais tarde, em sua biografia, escreveu: " isso acabou por ser outro tipo de inferno, os cidadãos de Wichita me ressentiram por ter sido um sucesso ou me desprezaram por ser um fracasso. E eu não estava exatamente encantada com eles. Devo confessar uma maldição vitalícia: meu próprio fracasso como criatura social".

Em 1943 ela mudou-se para Nova York, onde montou um estúdio de dança. Também fez alguns trabalhos ocasionais como rádio atriz na CBS. Sem dinheiro, também trabalhava como vendedora em uma loja de roupas, e chegou a se prostituir, já completamente anônima.

Louise Brooks em 1942

Alcoólatra desde os quatorze anos de idade, Louise Brooks conseguiu deixar o vício em 1948. Nesta época começou a escrever sobre cinema, e defender a importância do cinema mudo, cujos filmes, renegados pela crítica, estavam se perdendo (a maioria de seus filmes se perderam com o tempo), e começou a ser relembrada por historiadores e pesquisadores da sétima arte. 

Até então, os escritores se interessavam apenas por sua vida pessoal cheia de escândalos (muitos deles inventados pela imprensa para vender jornais). Livre e sexualmente liberal, Brooks nunca escondeu seus relacionamentos, incluindo algumas mulheres como as atrizes Pipi Lederer (sobrinha de Marion Davis) e Peggy Fears. Também nunca teve problema com a nudez, posando nua diversas vezes para promover sua carreira.

A atriz foi casada por duas vezes, a primeira com o diretor Eddie Sutherland (entre 1926 e 1928). Sutherland declarou, após o divórcio, que o estilo promiscuo da atriz o deixou sexualmente impotente. Depois ela se casou com um milionário Deering Davis, em 1933, mas cinco meses depois ela saiu de casa, deixando apenas um bilhete. Mas o casal só se divorciou oficialmente em 1938.

Louise Brooks também teve um relacionamento com o fundador da CBS William S. Paley, que lhe ajudou financeiramente até o final da vida. Em sua biografia ela escreveu que esta pequena pensão foi o que a impediu de se suicidar em diversas ocasiões. A atriz nunca teve filhos.

Em 1982 publicou sua biografia, Lulu em Hollywood, onde falou abertamente sobre sua vida (inclusive narrando uma noite de amor com Greta Garbo). O livro, considerado pela critica como muito bem escrito, tornou-se Best Seller. Na obra, ela traça um grande legado sobre sua carreira e os primeiros anos de Hollywood, mas em entrevistas disse "todos só falarão que no livro eu disse ser lésbica".


Com a saúde debilitada, sofrendo de artrite deformante e enfisema, Louise Brookes faleceu em 08 de agosto de 1985, aos 78 anos de idade. Ela foi encontrada morta em seu modesto apartamento em Nova York.

Uma curiosidade, Louise Brooks foi a inspiração para a criação da personagem Valentina, de Guido Crepax.


Leia também:  Buck Jones e a Tragédia da Cocoanut Groove

Leia também:  Theda Bara, a primeira Vamp do cinema

0 comentários:

Publicar um comentário

Se inscreva no nosso canal no Youtube

Postagem em destaque

A viagem de Clark Gable ao Brasil