A pioneira Musidora, atriz, escritora, diretora, feminista e musa dos surrealistas


A francesa Musidora, hoje um pouco esquecida, foi uma grande estrela do cinema francês nos princípios do século XX. Ousada e a frente do seu tempo, ela também foi cineasta, roteirista, jornalista e produtora cinematográfica. Profissões raras entre as mulheres daquela época.

Musidora foi musa de Louis Feuillade e de escritores surrealistas.


Musidora era o nome artístico de Jeanne Roques, nascida em Paris em 23 de fevereiro de 1889. Filha do compositor e escritor Jacques Roques (um dos teóricos do socialismo) e da pintora e sufragista Adèle Clémence-Porchez, Musidora cresceu em meio a intelectuais. Gostava de pintar, escrever, esculpir e era grande fã do teatro. Seu nome artístico foi retirado da peça Fortunio, de Théophile Gautier.

Em 1910 ela atuou na peça A loupiotte de Aristide Bruant e, dois anos mais tarde, no famoso cabaré Bataclan, onde participou da revista Ça grise, na que trabalhava a escritora feminista Colette. Em seguida começou a trabalhar no Foliés Bergerè, antes de Josephine Baker.

 Musidora

Musidora estreou no cinema em Le troisième larron (1909), mas ficaria famosa nas telas após ser convidada pelo diretor Louis Feuillade, que a assistiu em A Revue Galante, um espetáculo no Follies Bergerè. Feuillade a escalou para protagonizar Os Vampiros (Les Vampires, 1915), uma série de dez episódios. 

Musidora interpretou Irma Vep (anagrama de Vampire), uma cantora de cabaret da sociedade secreta Les Vampires, um grupo de delinquentes. Logo ela ganhou o status de Femme Fatale. Com um ar exótico e misterioso, ela era comparada a estrela de Hollywood Theda Bara.

Musidora em Os Vampiros

Ela voltou a trabalhar com Louis Feuillade em Judex (Idem, 1916), outro seriado que fez muito sucesso. Judex era um vingador misterioso que se vestia de preto e usava chapéu e uma capa, como Aristide Bruant, cantor francês da época. O personagem surgiu nos pulps (romances populares e baratos, uma espécie de história em quadrinhos do final do século XIX), e serviu de inspiração para os personagens O Sombra (The Shadow) e Batman.

 Musidora em Judex

A atriz estrelou muitos filmes na década de 1910. E em 1918 tornou-se uma das primeiras mulheres cineastas ao dirigir A Vagabunda (La vagabonda, 1918), rodado na Itália. O filme era baseado no romance de mesmo nome, da escritora francesa Gabrielle Collette. Musidora, além de dirigir e estrelar, também produziu e escreveu o roteiro do filme. Esta foi uma das primeiras adaptações de Collette para o cinema.

Em seguida ela dirigiu La flamme cachée (1918), no qual não atuou.

 Cartaz de A Vagabunda

Musidora ainda dirigiu Vicenta (1920), na França, e na Espanha realizou Pour don Carlos (1920), La tierra de los toros (1922) e Sol y Sombra (1922). Ela também estrelou, escreveu os roteiros e produziu todos os filmes, com exceção de La tierra de los toros, cujo roteiro não era dela.

Musidora, em polêmica fotografia, em 1923

No começo da década de 1920 Musidora passou a residir na Espanha, onde se casou com o rejoneador (toureiro à cavalo) Antonio Cañer. Após atuar em Berço de Deus (Le berceau de dieu, 1926), ela abandonou o cinema, passando a atuar exclusivamente no teatro (até 1952) e também como jornalista.

A artista também publicou duas novelas, Arabella et Arlequin, 1928, e Paroxysmes, 1934, compôs numerosas canções e escreveu um livro de poemas chamado Auréoles (1940). A partir de 1944, trabalhou na Cinémathèque française, onde lutou incansavelmente pela preservação dos filmes mudos franceses. 

André Breton, Louis Aragon e os demais membros do movimento surrealista eram grandes admiradores das séries de Louis Feuillade e, em particular de Les Vampires, razão pela qual elegeram Musidora como sua musa. Aragon e Breton escreveram, em 1929, uma obra de teatro que era uma homenagem à atriz, chamada Le Trésor dês Jésuites, na qual os nomes de todas as personagens eram eram anagramas de Musidora (Mad Souri, Doramusi, etc.).

Ela também serviu de inspiração para diversos pintores e artistas.

Musidora, quadro do espanhol Julio Romero de Torres




Musidora faleceu em Paris, em 07 de dezembro de 1957, aos 68 anos de idade.

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