A trágica vida de Florence Lawrence: a atriz que inventou a seta e a luz de freio dos carros


Nos primeiros anos do cinema os atores não tinham seus nomes nos créditos dos filmes, e atuavam em centenas de produções em poucos meses. Com mais de 300 filmes em sua carreira, Florence Lawrence foi uma das primeiras estrelas do cinema, nos tempos dos filmes mudos. Sua vida renderia um bom filme em Hollywood.

Florence utilizou-se mirabolantes estratégias publicitárias para atingir a fama, mas teve um triste e decadente fim. Além disto, a pioneira estrela das telas também era dona uma mente muito criativa. Ela foi uma das primeiras mulheres que possuiu um automóvel próprio, e inventou os sistemas que deram origem ao sinal de sete a a luz de freio, tal como conhecemos hoje.

Florence Lawrence

Florence Annie Bridgwood nasceu no Canadá, em 02 de janeiro de 1886. Ela era filha de Charlotte A. Bridgwood, uma atriz de Vaudeville conhecida como Lotta Lawrence. Florence começou a atuar nos palcos ainda criança, ao lado da mãe, e era chamada de "Baby Florence, the Kid Wonder".



Em 1906 a atriz se mudou para Nova York com a mãe. Elas buscavam emprego nos filmes, que começavam a fazer sucesso comercialmente. No mesmo ano, por saber cavalgar, conseguiu um papel em Daniel Boone (1907), dirigido por Thomas Edison, porém o filme só foi lançado no ano seguinte.

O primeiro filme de Florence a chegar nos cinemas foi The Automobile Thieves (1907), feito na Vitagraph Studios. Em menos de dois anos, ela já havia estrelado 38 filmes na estudio, mas naquele tempo os artistas de cinema não tinham seus nomes mencionados nos créditos, e o público praticamente não sabia nada sobre suas vidas privadas. Porém a atriz começou a ficar popular e famosa, e passou a ser chamada de "The Vitagraph Girl" (A Garota da Vitagraph).

Florence Lawrence

Na Vitagraph Florence conheceu o ator Harry Solter, que lhe contou que o estúdio da Biograph estava procurando uma atriz bonita que soubesse cavalgar, para estrelar The Girl and the Outlaw (1908), dirigido por D. W. Griffith. Florence procurou o estúdio, que lhe ofertou cindo dólares a mais por semana de salário, e ela assinou o contrato. Na Biograph, Lawrence atuou em outros 60 filmes dirigido por Griffith, todos feitos em 1908.

O público escrevia cartas perguntando quem era a "Biograph Girl", e assim ela passou a ser creditada em seus filmes. Os estúdios não usavam o nome dos artistas estrategicamente, para que eles não ficassem famosos a ponto de reivindicarem melhores salários. Ainda em 1908, Florence Lawrence e Harry Solter se casaram.

Na Biograph ela estrelou diversos filmes da série Mrs. Jones, que aumentaram ainda mais sua popularidade. Ela também fez muito sucesso nas bilheterias nos dramas The Ingrate (1909) e Ressurrection (1909). Mas buscando melhores condições de trabalho, Lawrence e Solter enviaram uma carta para a Essanay Studios, oferecendo seus serviços como atores. A Essanay não os contratou, e os denúnciou para seus patrões, que os demitiram de imedianto.

O casal então foi contratado por Carl Laemmle, dono da Independent Moving Pictures Company of America, mais conhecida como Estúdios IMP (que mais tarde viria a ser os Estúdios Universal). Marcada pela carreira na Biograph, Laemmle promoveu um grande golpe publicitário para criar uma marca para a sua nova estrela.

Foi divulgado que Florence Lawrence havia morrido, atropelada por um carro. Após uma grande comoção, a atriz reapareceu, desta vez chamada de "A Garota IMP".



Logo a atriz estava estrelando The Broken Oath (1910), dirigido por seu marido. Mas a mentira não pegou bem com o público, que não gostou de ser enganado. Laemme então inventou outra mentira de sucesso, dizendo que quem inventou o boato foi a atriz Florence Vidor, a nova "Garota Vitagraph".

A publicidade em torno de toda essa confusão revelou o nome da Florence Lawrence junto ao público, e ela passou a ser primeira estrela de cinema a ter seu nome nos créditos. 

Gozando de grande fama, Florence também levou sua antiga amiga canadense para Mary Pickford para a IMP, anos mais tarde Mary se tornaria a atriz mais popular do cinema, sendo chamada de "A Namoradinha da América".


A atriz entretanto ficou apenas onze meses no estúdio, onde fez 50 filmes. Mas ela voltaria a trabalhar com Carl Laemme, quando em 1912 fundou com ele a Victor Films, da qual seu marido também fazia parte. Ganhando 500 dólares por semana, numa época em que uma estrela ganhava cerva de 75 dólares, Florence Lawrence ficou rica, e seu patrimônio aumentou ainda mais quando o seu estúdio foi vendido para a Universal, que também se fundiu a IMP.



Em 1912, após Solter brigar feio com sua mãe, Florence Lawrence deixou o ator. Ele foi para à Europa, mas lhe escrevia diariamente, e dizia inclusive que queria se matar. Florence o aceitou de volta, e anunciou sua aposentadoria, que de fato, não aconteceu. Mas o casamento com Harry Solter acabou em 1913.

Florence continuou filmando, desta vez como contratada da Universal. Mas em 1914, quando filmava Pawns of Destiny, a atriz sofreu um grave acidente. Ela sofreu diversas queimaduras, e quebrou uma perna. O estúdio se recusou a pagar suas despesas médicas, e a atriz precisou ficar afastada do cinema por dois anos, até se recuperar. Mas durante as filmagens de seu novo filme, em 1916, o seu estado de saúde piorou, e ela ficou impossibilitada de andar por anos, se recuperando apenas em 1921.

Ao retornar as telas, a indústria do cinema já havia mudado muito, e Florence Lawrence já não era mais a estrela de outrora. Haviam surgido novos nomes, e o público já havia a esquecido. Acostumada a fazer mais de cinquenta filmes por ano, a atriz fez apenas outros nove nos dez anos seguintes. Os personagens também haviam diminuído, e o estrelato já era algo distante em sua carreira. A partir de 1924, ela nunca mais seria creditada em um filme.

Desde 1920, ela também passou a se dedicar a fabricação de cosméticos, junto com seu segundo marido.

Florence Lawrence, a Inventora


Em 1914, quando estava se recuperando do acidente nos sets, a atriz inventou um acessório que revolucionaria as leis mundiais de trânsito. Ela adorava dirigir, e foi uma das primeiras mulheres a possuir um automóvel, algo ainda muito raro e caro na época.


Vendo que os acidentes com veículos começavam a se tornar um problema, ela desenvolveu o braço sinalizador automático, uma placa de indicava a direção em que o carro iria virar (se para a direita ou esquerda). A engenhoca foi o embrião da luz de seta, hoje um item obrigatório.

Ela também criou um outro sistema de segurança, uma placa escrita STOP (pare) que aparecia na traseira do carro, quando este freava. Este sistema hoje foi substituído pela luz de freio.


Em 1917 a mãe da atriz obteve a patente de outro invento automotivo, o limpador elétrico de para-brisas. As duas montaram uma fábrica que produzia e comercializava os acessórios, que não fizeram sucesso na época. A empresa fechou após a Quebra da Bolsa de Valores em 1929, quando Lawrence perdeu toda a sua fortuna.

Sua mãe também faleceu no final de 1929.



Em 1933 Florence Lawrence se casou pela terceira vez. Henry Bolton, seu novo marido, era violento e abusivo e batia muito na atriz, que pediu o divórcio cinco meses depois do matrimônio.

Lawrence ainda atuava, mas desde a chegada do cinema falado, havia se tornado uma mera figurante nos corredores da MGM. Ela teve todas as suas cenas cortadas do filme A Noite Tudo Encobre (Night Must Fall, 1937), seu último trabalho no cinema. Falida, deprimida, e sofrendo com dores crônicas pela mielofibrose, uma rara doença da medula, a atriz fez seu ato final.

Aos 52 anos de idade, ela tomou um forte inseticida para matar formigas. A atriz foi socorrida e levada para o hospital, mas morreu poucas horas depois, em 28 de dezembro de 1938. 

Em seu bilhete de despedida escreveu "estou cansada!"

Morando em um quarto de pensão, ela foi enterrada em uma vala comum, sem identificação.


Em 1991 o ator Roddy McDowall não mediu esforços para encontrar seus restos mortais, e a levou para o Hollywood Forever Cemitery, onde hoje ela repousa com uma lápide que diz "A Garota Biograph, a primeira estrela do cinema".

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