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Beatrice Wood, a artista que inspirou a Rose de Titanic (e Jules e Jim também)



Em 1997 Titanic bateu recordes de bilheteria, e recebeu diversos prémios, e fez do filme um clássico cultuado por diversos cinéfilos. A história do trágico naufrágio, ocorrido em 1912 já havia sido levada às telas do cinema em diversas ocasiões, mas a história de amor de Rose e Jack deu uma nova narrativa a história.

Porém, o trágico casal (que podia ter dividido uma porta flutuante), não existiu na vida real. Mas até hoje muitos fãs acreditam que a personagem seja real

Rose foi interpretada por Kate Winslet e Gloria Stuart, e embora seja uma personagem fictícia, teve como inspiração a artista plástica Beatrice Wood, que na época do lançamento do filme, tinha 104 anos de idade, a mesma idade que Rose tinha quando a equipe de buscas chegou aos destroços do navio, na trama do filme.


Beatrice Wood

Beatrice Wood, porém, não estava a bordo do Titanic, embora fosse contemporânea a tragédia. O diretor James Cameron, entretanto, se inspirou em sua personalidade e história de vida para compor as caraterísticas de sua Rose, uma mulher moderna e a frente de seu tempo, e que não se importava em enfrentar sua mãe e a sociedade para fazer valer suas decisões.

Cameron havia lido a biografia da artista, I Shock Myself (Eu Me Choco, em tradução literal), escrita em 1985, e achou que Wood era a personificação de sua ousada Rose. Beatrice foi atriz teatral, escritora e editora, mas destacou-se nas artes principalmente por suas obras como ceramista.

No filme, Rose também trabalha com cerâmica, mesmo com a idade avançada, assim como fazia a artista.



Gloria Stuart, como Rose, trabalhando com cerâmica

Beatrice Wood em seu ateliê


Beatrice Wood nasceu em São Francisco, Califórnia, em 03 de março de 1893. Ela era de uma família muito rica, e foi criada para ser uma moça da sociedade e arrumar um bom casamento, mas não era o que ela queria para a sua vida.

Na juventude, seus pais fizeram com que ela noivasse, e lhe arrumaram um casamento arranjado, porém, ela se rebelou, enfrentou a mãe, e fugiu para Paris. Beatrice queria ser pintora, e não uma esposa.

Na França, sob o pseudônimo de Senhorita Patrícia, ela ingressou na Companhia de Teatro Nacional, e atou em mais de 60 peças. E embora não tenha seguido a carreira de atriz, foi no teatro que ela foi apresentada a vida boêmia dos artistas parisienses.







Beatrice conheceu o artista Marcel Duchamp, e começou um relacionamento com ele. Em 1914, com o advento da Primeira Guerra Mundial, ela retornou aos Estados Unidos, acompanhada de Duchamp e do escritor Henri-Pierre Roché.

Em Nova York, eles fundaram a revista The Blind Man, que é considerada o marco inicial do Dadaísmo nos Estados Unidos, fazendo com que Beatrice seja chamada de "A Mãe do Dadaísmo).


Marcel Duchamp, Henri-Pierre Roché e Beatrice Wood


O ano era 1916, e Beatrice escandalizou a sociedade novaiorquina ao manter publicamente um relacionamento publico com os dois artistas. Anos mais tarde, Rochpe publicou o romance Jules e Jim, inspirado no triangulo amoroso vivido pelos três.

O livro acabou sendo adaptado para às telas de cinema, com o nome de Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois (Jules et Jim, 1962), e dirigido por Jean Truffaut, e se tornou um clássico do cinema.


Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre em Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois


Como pintora dadaísta, ela também escandalizou Nova York com a obra Un Peu d'Eau dans du Savon, exposta em 1917. Um desenho que retratava uma mulher nua em uma banheira, com um sabote em forma de concha cobrindo sua virilha.





Em 1918 ela se mudou para o Canadá. Sua mãe, descontente com as atitudes da filha, contratou um detetive particular para rastrear a filha, e prestou queixa na polícia. Para não ser enviada novamente para os Estados Unidos, ela se casou um amigo, Paul Renson, um ator dos tempos do teatro.

Um ano após a queixa expirar, eles se separaram, encerrando o casamento de fachada.

Na década de 1930 ela voltou para os Estados Unidos, e casou-se com o ator inglês Reginald Pole, por quem estava apaixonada. Mas o casamento foi um fracasso, e durou pouco tempo. E em 1933, aos 40 anos de idade, ela deu um novo rumo a sua carreira, iniciando seus trabalhos como ceramista.

Wood trabalhou com cerâmica até o final da vida, e passou a ser uma referência artística do gênero. Em 1985, Wood escreveu seu livro de memória, seguindo um antigo conselho da amiga de longa data, Anaïs Nin. A escritora francesa dizia que a trajetória de Wood era rica demais para não ser contada.



Beatrice Wood e Anaïs Nin


Quando James Cameron leu o livro de Beatrice Wood, ele concordou que sua trajetória era mesmo riquíssima, e usou-a de base para criar a personalidade de sua Rose.

Com Gloria Stuart, ele foi jantar na casa da artista algumas vezes, para ouvir suas histórias. Beatrice presenteou o diretor com uma escultura do trágico navio.


Gloria Stuart, Beatrice Wood e James Cameron


Cameron convidou a artista para ser a convidada de honra na estreia mundial do filme, mas Beatrice, então com 104 anos de idade, não pode comparecer, devido a problemas de saúde.

O diretor voltou a sua casa com uma cópia do filme, que ela se recusou a assistir, dizendo que sabia que teria um final muito triste.

No ano seguinte, em 12 de março de 1998, Beatrice Wood faleceu, com 105 anos de idade.

Em 1993, no seu aniversário de 100 anos, ela foi tema do documentário Beatrice Wood: Mama of Dada (1993), dirigido pelo cineasta Tom Neff.









Beatrice Wood nunca esteve à bordo do Titanic, mas entre suas sobreviventes estava a atriz cinematográfica Dorothy Gibson, que foi a estrelada da primeira adaptação da tragédia para o cinema, ainda em 1912 (meses depois do naufrágio).

No Brasil, na década de 1970, uma antiga atriz de nome Eva Charbo ficou famosa ao declarar ser uma sobrevivente da tragédia, porém sua história não é verdadeira, conforme explicamos no vídeo abaixo.



Veja Também: A História de Eva Charbo, a atriz brasileira que dizia ser sobrevivente do Titanic





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