Debra Winger, a atriz que preferiu desaparecer antes de ser descartada por Hollywood


Na década década de 1980 Debra Winger era a atriz mais bem paga de Hollywood. Três vezes indicadas ao Oscar, Debra não gostava do estrelato, e tinha uma fama de difícil. Ela não gostava de dar entrevistas, e quando dava, criticava as produções que devia promover. Sua sinceridade era tanta, que Shirley McLaine agradeceu seu Oscar alfinetando a atriz, e Bette Davis, em 1986, declarou "Eu me vejo muito em Debra Winger".

Em 1995, no auge da fama, ela se cansou e disse adeus a Hollywood, e seu "sumiço" chegou a ser tema do documentário Searching for Debra Winger (2002), dirigido por Rosanna Arquette.



Debra Lynn Winger nasceu em Nova York, em 16 de maio de 1955. Nascida em uma família judia, ela passou sua adolescência em um kibutz em Israel, e ao voltar aos Estados Unidos, sofreu um grave acidente de carro.

Ela sofreu uma hemorragia cerebral, e ficou parcialmente paralisada e cega, por dez meses. Enquanto estava internada no hospital, ela jurou a si mesma que caso se recuperasse, iria ser atriz de cinema.

Ela se recuperou, mas foi desestimulada por seu pai, que lhe disse "você não é bonita para ser uma estrela", e Debra então respondeu "então eu serei uma atriz". O veterano diretor George Cuckor, em um dos primeiros testes feito pela atriz lhe disse "Você não tem voz, nem classe", e a recusou para um papel.

Sua estreia foi na série Mulher Maravilha (Wonder Woman), em 1976. Debra seria Drusilla, a irmã de Lynda Carter na série. Ela passou um bom tempo lendo os quadrinhos e estudando a personagem, mas ao chegar no estúdio o diretor basicamente só queria que ela girasse em torno de si mesma. 

Decepcionada com o que ela havia imaginado que era uma carreira de atriz, e com medo de ficar estigmatizada pelo papel na TV, Debra usou o dinheiro que ganhou para pagar a multa processual para romper seu contrato, já que a personagem deveria aparecer em mais episódios do que apenas os 3 em que ela atuou.


Lynda Carter e Debra Winger em Mulher Maravilha

Em 1976 ela também havia feito sua estreia no cinema, no filme Slumber Party' 57 (1976). Sua carreira foi engatinhando aos poucos, atuando em filmes como Um Amor Muito Especial (Special Olympics, 1978) e Até que Enfim é Sexta-Feira (Thank God It's Friday, 1978), e participações em séries como Police Woman.


Debra Winger em  Até que Enfim é Sexta-Feira

Em 1980 Debra fez teste para o filme Cowboy do Asfalto (Urban Cowboy, 1980). O diretor James Bridges queria a atriz no papel, e teve que lutar contra a resistência do dono do estúdio, que não queria a desconhecida "que tinha cara de judia demais". O produtor Robert Evans, também era contra Winger no papel, que exigira uma certa sensualidade. Segundo Evans, ele "nunca transaria com Debra", e por isto ela não era a escolha certa.

Mas a vontade de Bridges prevaleceu, e Debra Winger fez um enorme sucesso ao lado de John Travolta em Cowboy do Asfalto (Urban Cowboy, 1980). Inclusive a cena da atriz montada no touro mecânico, logo entrou pro rol das cenas mais sensuais da história do cinema.



Debra Winger e John Travolta em Cowboy do Asfalto

Debra recebeu uma indicação ao Bafta pelo papel, e recebeu duas indicações ao Globo de Ouro (de melhor atriz revelação e melhor atriz coadjuvante). A atriz tornou-se um sucesso imediato, e logo passou a ser requisitada para eventos e entrevistas, algo que ela percebeu que não gostava.

Ela ficou dois anos afastada antes de retornar ao cinema, em Esquecendo o Passado (Cannery Row, 1982). De brincadeira e irreconhecível, fez figuração em E.T.: O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982), como uma enfermeira zumbi carregando um poodle, durante o Halloween. Debra não foi creditada, e demorou muitos anos para que fosse revelada a identidade da enfermeira zumbi,


Debra Winger em E.T.: O Extraterrestre

Ao lado de Richard Gere, Debra estrelou o romântico A Força do Destino (An Officer and a Gentleman, 1982), uma das maiores bilheterias da época. O filme fez um enorme sucesso, e emocionou multidões.

A atriz foi indicada ao Oscar por este trabalho, mas detestava fazer qualquer evento para promover o filme. Ela havia se desentendido com o diretor Taylor Hackford, que a obrigava a tomar comprimidos para emagrecer durante as filmagens.

Nas poucas entrevistas que deu sobre o filme, ela criticou o final, cujo o público tinha adorado. Debra declarou que ficava incomodada em ver uma mulher ter que ser salva da sua vida difícil por um "príncipe encantado" uniformizado.



Richard Gere e Debra Winger em A Força do Destino

No ano seguinte, ela foi novamente indicada ao Oscar por interpretar a filha da veterana Shirley McLaine em Laços de Ternura (Terms of Endearment, 1983). O belo filme também fez muito sucesso, mas as filmagens foram conturbadas. Debra e Shirley, apesar da química apresentada nas telas, brigavam o tempo todo. Segundo Shirley escreveu em sua biografia, durante uma discussão mais ferrenha, Debra Winger virou de costas, levantou a saia e peidou em direção a McLaine.

McLaine também foi indicada ao Oscar pelo filme, e acabou vencendo o prêmio, que Debra não levou. Shirley elogiou o "turbulento brilhantismo" da colega, que não gostou do discurso da atriz. Shirley mandou flores e um pedido de desculpas no dia seguinte, dizendo que turbulento era no sentido de brilhante. Debra Winger respondeu "se você precisar se desculpar e explicar algo, melhor não falar".


Debra Winger e Shirley McLaine em Laços de Ternura


Após as filmagens de Laços de Ternura, Debra se internou em uma clínica de desintoxicação. Apesar do seu comportamento e da sua fama de "difícil", não faltavam papéis para Debra, pois ela atraia grandes quantias nas bilheterias.

Ela atuou em Amor Perigoso (Mike's Murder, 1983) e ao lado de Robert Redford estrelou outro sucesso: Perigosamente Juntos (Legal Eagles, 1983).

Ela também detestou o filme, e falou mal dele aos jornalistas, enquanto fazia eventos de promoção. Ela disse que lhe foi apresentado um projeto totalmente diferente, e sentia vergonha de uma produção que só queria arrancar o dinheiro do bolso do público. Ela também afirmou que, embora fosse a atriz mais bem paga de Hollywood naquele momento (o que era verdade), seu salário era muito menor que o de Robert Redford, sendo uma das primeiras estrelas a se manifestar sobre a diferença salarial discrepante entre homens e mulheres na indústria do cinema.


Robert Redford e Debra Winger em Perigosamente Juntos

Após o filme, ela demitiu sua agência, a mais poderosa de Hollywood, e recusou papéis que promoveram a carreira de muitas atrizes, como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), Atração Fatal (Fatal Attraction, 1987), Ghost - Do Outro Lado da Vida (Ghost, 1990) e Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle, 1993). Ela chegou a iniciar as filmagens de Uma Equipe Muito Especial (A League of Their Own, 1992), mas abandonou o projeto porque se recusava a contracenar com Madonna.

Debra também estava escalada para viver Peggy Sue em Peggy Sue Seu Passado a Espera (peg Sue Got Married, 1986), mas se machucou durante as filmagens, e precisou ser substituta por Kathleen Turner. Debra ficou vários meses sem atuar, até recuperar a lesão na coluna.

Nos anos seguintes ela fez O Mistério da Viúva Negra (Black Widow, 1987), Paixão Eterna (Made in heaven, 1987), Atraiçoados (Betrayed, 1988), O Crime Que o Mundo Esqueceu (Everbody Wins, 1990) e O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, 1990), onde novamente voltou a falar mal do diretor (Bernardo Bertolucci) e de seu colega de elenco (John Malkovich) para a imprensa.


Debra Winger e John Malkovich em O Céu Que Nos Protege


Debra ainda faria Fé Demais Não Cheira Bem (Leap of Faith, 1992), O Fogo da Paixão (Wilder Napalm, 1993), Uma Mulher Perigosa (A Dangerous Woman, 1993), e Terra das Sombras (Shadowlands, 1993), que lhe rendeu sua terceira indicação ao Oscar.


Debra Winger e Anthony Hopkins em Terra das Sombras

E apesar de ser considerada uma profissional difícil de se trabalhar, ainda em 1993, quando Debra rodava Divine Rapture, na Irlanda, os produtores desapareceram, deixando a equipe e o elenco para trás, sem receber os salários. Johnny Deep fez suas malas e voltou correndo para casa, e Marlon Brando havia sido esperto suficiente para cobrar seu salário adiantado.

Debra ficou na Irlanda, e pagou os funcionários com o dinheiro do seu bolso, assumindo o prejuízo para si. Ela então resolveu viajar de carro pelo país, junto com seu marido, o ator Arliss Howard, e um dia, diante de uma paisagem parou e exclamou: "chega, estou farta!".

Ao voltar aos Estados Unidos, ela mudou de telefone, parou de ler roteiros, e se recolheu em uma fazenda, onde passou a cuidar de seus filhos (ela já tinha um filho de seu primeiro casamento com o ator Timothy Hutton).

Debra ainda faria Esqueça Paris (Forgot Paris, 1995), e ao completar 40 anos de idade, decidiu deixar o cinema, afinal, segundo ela mesmo, seu prazo de validade havia espirado. Divine Rapture foi lançado, como curta-metragem, após ela se afastar da mídia.




Em 2002 Rosana Arquette reuniu algumas atrizes que haviam passado dos 40 na casa de Daryl Hannah, como sua irmã Patricia, Laura Dern, Teri Garr, Melanie Griffith, Lauren Holly e Kelly Lynch, para debater sobre a pressão sofrida pelas atrizes de Hollywood, que não tem o direito de envelhecer, e são colocadas na aposentadoria involuntária por não serem mais as beldades que eram quando tinham 20 anos.

Debra Winger também foi uma das convidadas, e na conversa, sempre sincera, fez declarações como "Michelle Pffeifer e eu começamos na mesma época, temos a mesma idade, mas hoje ela parece a minha irmã mais nova". A conversa virou um documentário aclamado pela crítica, quee foi batizado de Searching for Debra Winger (2002), algo como "procurando por Debra Winger", na tradução para o português.




O documentário gerou repercussão, e fez a atriz aparecer dando algumas entrevista. Agora ela defendia o direito das mulheres envelhecerem, e ainda assim conseguirem bons papéis. Ela se demonstrou contra a pressão dos estúdios que querem obrigar uma mulher de quase 70 anos parecer ter 30, e sempre polêmica, declarou que tinha pena do Nicole Kidman estava fazendo com seu rosto.

No período que deixou Hollywood, Debra atuou no teatro comunitário local, e deu aulas de interpretação na Universidade de Harvard. E em 2001, ela voltou ao cinema, no filme Big Bad Love (2001), dirigido por seu marido Arliss Howard, o filme não só marcou o seu retorno, mas também a sua estreia na produção.


Arliss Howard e Debra Winger em Big Bad Love

Ela eventualmente voltou a Hollywood, mas agora nas suas condições. Debra Winger atuou em filmes como O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, 2008), Lola Contra o Mundo (Lola Versus, 2012) e na série O Rancho (The Ranch, 2016-2020).

Seu último trabalho foi na série Mr. Corman (2021).

Debra Winger em O Rancho

Em uma rara entrevista, ela declarou que vai para o trabalho de bicicleta, e adora não ser mais reconhecida pelo público, podendo andar nas ruas livremente. Ela também declarou que nunca foi tão feliz em sua vida.


Debra Winger atualmente


Debra Winger em família


Debra Winger e Timothy Hutton, com quem ela foi casada


Veja também: As Mais Belas Atrizes dos Anos 80, Antes e Depois




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2 comentários:

  1. Quer dizer, abandonou mas não abandonou. Aproveitou bem o auge e diminuiu o ritmo. Mas até que enfim achei alguém que pensa como eu a respeito do que Nicole Kidman está fazendo com o seu rosto...

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  2. O marido dela é o Recruta Cowboy de Nascidos Para Matar

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