Haing S. Ngor, o médico que ganhou um Oscar de atuação, e foi brutalmente assassinado


Em 1985 o médico obstetra Haig S. Ngor tornou-se o segundo ator não profissional da história a ganhar um Oscar, pela sua atuação no filme Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields, 1984). Antes dele, apenas Harold Russell, um veterano ferido na Segunda Guerra Mundial, havia sido agraciado com o prêmio por Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Best Years of Your Lifes, 1946).

Nascido no Camboja, ele também tornou-se o segundo artista oriental a ganhar um Oscar, muitos anos depois de Miyoshi Umeki ter vencido o Oscar por Sayonara (1956).


Haing S. Ngor em Os Gritos do Silêncio

Haing Somnang Ngor nasceu no Camboja, em 22 de março de 1940. Ele era um homem muito culto, e formou-se como cirurgião e ginecologista, e praticava a medicina em seu país natal até 1975. quando o Khmer Vermelho de Pol Pot tomou o controle do país.

Ele foi obrigado a esconder a sua educação, habilidades médicas e até o fato de usar óculos, devido a intensa hostilidade do novo regime com intelectuais e profissionais especializados. Mesmo assim, acabou preso em um campo de concentração, junto com sua esposa.

Mesmo sendo um obstetra, sua esposa morreu no campo de concentração durante o parto, pois ele não pode dar o atendimento médico que ela necessitava. Enquanto esteve preso, para não morrer de fome, ele comeu insetos e larvas que achava na mata.

Em 1979, quando o regime foi deposto, ele voltou a exercer a medicina, trabalhando como médico em um campo de refugiados na Tailândia. No ano seguinte, em 1980, ele pegou sua sobrinha e partiu para os Estados Unidos, onde fixou residência, mas não pode mais trabalhar como médico, devido a problemas de validação de diploma.

Em 1983 o diretor Roland Joffé contratou Ngor como consultor para o filme Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields, 1984). Baseado em uma história real, o filme mostrava um jornalista estrangeiro preso em um campo de concentração no Camboja, durante o governo de Pol Pot.

Mas sem conseguir um ator para interpretar o fotojornalista Dith Prari, ele convidou Haing Ngor para o papel. Sem nenhuma experiência como ator, ele inicialmente recusou o papel. Mas depois lembrou-se que havia prometido a sua esposa que faria de tudo para divulgar os horrores sofridos pelo seu povo, e acabou aceitando o desafio.


Haing S. Ngor e Sam Waterson em Os Gritos do Silêncio

O filme foi aclamado pela crítica, e recebeu muitas indicações ao Oscar (inclusive de Melhor Filme), e deu a Ngor um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Sua atuação visceral lhe rendeu muitos prêmios, incluindo dois Baftas e um Globo de Ouro.

Em entrevista, o ator declarou "Eu queria mostrar ao mundo o quão profunda é a fome no Camboja, quantas pessoas morreram. Meu coração está satisfeito!".


Haing S. Ngor e seu Globo de Ouro

Ele conseguiu construir uma carreira de ator, e apareceu em alguns filmes e séries de televisão. Entre seus filmes estão No Amor e Na Guerra (In Love and War, 1987), e Os Condores do Oriente (Dung Fong Tuk Ying, 1987), uma versão de Os Doze Condenados, feita em Hong Kong.

Sua filmografia também inclui Triângulo de Ferro (The Iron Triangle, 1989), Histórias do Vietnã (Vietnam War Story: The Last Days, 1989), Vietnã, Texas (Vietnam, Texas, 1990) e Ambição Sinistra (Ambition, 1991).

Na série China Beach, em 1989, ele voltou a interpretar um prisioneiro de guerra no Camboja. Ele também participou de um episódio de Miami Vice.

Após Os Gritos do Silêncio, seus filmes mais importantes foram Entre o Céu e a Terra (Heaven & Earth, 1993), de Oliver Stone, e Minha Vida (My Life, 1993), onde ele interpretou o Mr. Ho, um curandeiro espiritual que fornece orientação ao personagem de Bob Jones (Michael Keaton) e sua esposa Gail (Nicole Kidman), depois que Bob é diagnostica com câncer terminal.


Haing S. Ngor e Michael Keaton em Minha Vida

No cinema, ele ainda atuou no filme Dragões de Sangue 2 (Vanish Son II, 1994), e em dois filmes sequencias da obra, bem como na série de televisão derivada, feita em 1995.

Mas sua carreira foi interrompida em 25 de fevereiro de 1996, quando o ator foi morto a tiros na porta de sua casa, em Los Angeles, por três membros de uma gangue. Inicialmente, acreditou-se que o ator tivesse sido morto por simpatizantes do Khmer Vermelho, por denunciar as atrocidades da guerra.

Mas depois os rapazes confessaram que mataram Haing S. Ngor para roubar. Ele prontamente havia entregado seu relógio Rolex, mas recusou-se a entregar um medalhão de ouro que carregava no pescoço. Os ladrões então atiraram contra o ator, e roubaram o medalhão de seu pescoço, deixando para trás sua carteira, que continha quase três mil dólares.

A joia, que nunca foi recuperada, abria, e dentro estava a única foto que ele possuía de sua esposa, morta nos campos de concentração do Camboja. Haing S. Ngor nunca mais voltou a se casar.

Sua sobrinha, que ele resgatou do Camboja, atualmente preside a fundação criada pelo tio, assassinado com apenas 55 anos de idade.

O filme Hit Me (1996), seu último trabalho no cinema, foi lançado postumamente um ano após a sua morte.







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