Miyoshi Umeki, a única asiática vencedora de um Oscar de melhor atriz


Nos últimos anos, uma sadia e necessária discussão tem levando em consideração a representatividade na escolha dos vencedores do Oscar, e aos poucos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas vem tentando equilibrar o jogo. Cada vez mais artistas negros, latinos e cineastas mulheres, vem conquistando seu espaço entre os agraciados, embora a balança ainda seja bastante desigual.

Nos 90 anos da premiação, até o ano de 2019, apenas uma artista oriental foi agraciada na categoria de atuação, a japonesa Miyoshi Umeki, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1957, por Sayonara (Idem, 1957). Antes dela, apenas Merle Oberon, nascida na Índia, mas com carreira consolidada na Inglaterra, havia sido indicada ao prêmio, em 1935.


Nascida em Otaru, no Japão, em 08 de maio de 1929, Miyoshi Umeki foi uma cantora e atriz japonesa. Após a Segunda Guerra Mundial, ela começou a cantar em boates no Japão, usando o nome de Nancy Umeki. Suas influências artísticas mesclavam o tradicional teatro Kabuki e a música pop norte-americana.

Em 1950, contratada pela RCA japonse, gravou seu primeiro disco, e tornou-se uma popular cantora em seu país. Suas gravações tinham influência do jazz, e ela cantava tanto em japonês como em inglês.

Miyoshi Umeki cantando

Em 1951 ela estreou no cinema japonês, atuando em Uchôten Jidai (1951). Ela ainda faria mais um filme em seu país, antes de viajar para os Estados Unidos, em uma turnê. Suas apresentações na televisão norte-americana a tornaram famosa no país.

Em 1956 ela apareceu em um curta metragem da Universal, que ainda tinha no elenco Dorothy Toy e Paul Wing, considerados os "Fred Astaire e Ginger Rogers Orientais". O diretor Joshua Logan gostou de seu desempenho, e a chamou para atuar em seu próximo filme, Sayonara (Idem, 1957).

Baseado no livro de James Michener, o filme mostrava o major Lloyd Gruver (interpretado por Marlon Brando), que era contra o casamento entre militares estadunidenses com mulheres japonesas, mas que se vê diante de um dilema ao se apaixonar pela bela Hana-Ogi (papel de Miiko Taka). Miyoshi interpretava uma outra mulher oriental, amiga da protagonista.

Marlon Brando e Miiko Taka em Sayonara

Marlon Brando, Miiko Taka, Miyoshi Umeki e Red Buttons em Sayonara

Por seu trabalho, Miyoshi Umeki foi indicada ao Oscar de Melhor atriz Coadjuvante, e acabou agraciada com o prêmio. Usando um tradicional quimono, ela recebeu o prêmio das mãos de Anthony Quinn.

Assista Miyoshi Umeki recebendo seu Oscar,
com legendas em português

Mas apesar de receber um dos prêmios mais importantes do cinema, novos convites não surgiram. Não haviam muitos papéis para orientais em Hollywood, e muitos deles, quando existiam, eram ocupados por atores caracterizados, com pesadas (e caricatas) maquiagens, a chamada "yellowface". Mesmo em Sayonara, Ricardo Montalban aparecia interpretando um japonês.

Ricardo Montalban em Sayonara

Marlon Brando, seu colega de Sayonara, também havia atuado, pintado de japonês, no ano anterior, em Casa de Chá do Luar de Agosto (The Teahouse of the August Moon, 1956). A prática, hoje condenável, era muito usada na indústria do cinema.

Exemplos de Yellowface em Hollywood: Mary Pickford, Mickey Rooney. Katharine Hepburn, Jennifer Jones e Marlon Brando

Sem trabalho no cinema, Miyoshi Umeki foi para a Broadway, atuar em Flower Drum Song, que lhe valeu um prêmio Tony. Ela repetiu o papel em Flor de Lotus (Flower Drum Song, 1961), que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro. Era seu segundo filme norte-americano, quatro anos depois de ganhar um Oscar. E apesar de ter muitos atores de origem oriental, como Nancy Kwan e James Shigeta (que era havaiano), o filme também utilizou-se da yellowface, pintando o rosto da atriz negra Juanita Hall, que apesar de ser um grande nome da Broadway, teve uma carreira muito curta no cinema.

Benson Fong e Juanita Hall, em Flor de Lotus

Miyoshi Umeki e James Shigeta em Flor de Lotus

Ela só seria convidada para atuar em mais três filmes: Uma Certa Casa de Chá em Kyoto (Cry for Happy, 1961), O Tenente Boa Vida (The Horizontal Lieutenant, 1962) e Uma Garota Chamada Tamiko (A Girl Named Tamiko, 1962).

Ela ainda atuaria esporadicamente em algumas séries de televisão, e teve um personagem fixo na série The Courtship of Eddie's Father (1969-1972), estrelada pelo futuro astro da série Hulk, Bill Bixby. Como em todos os papéis em que atuou, Miyoshi Umeki interpretava a empregada oriental.

Miyoshi Umeki e Bill Bixby

Decepcionada com os rumos de sua carreira, ela abandonou a vida artística quando a série foi cancelada, em 1972. A atriz faleceu em 28 de agosto de 2007, aos 78 anos de idade, sem nunca mais ser chamada para atuar ou receber qualquer tipo de homenagem.


Os orientais no Oscar

Se desconsiderarmos as categorias técnicas, como figurino, maquiagem, fotografia, e etc, e levarmos em conta apenas as chamadas premiações principais (melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e atuações de coadjuvantes), a lista de indicados também é pequena.

Merle Oberon é considerada a unica oriental indicada na categoria Melhor Atriz, pelo filme O Anjo das Trevas (The Dark Angel, 1935). Nascida na Índia, onde viveu até os 17 anos, Merle tinha descendência polinésia, mas desenvolveu toda a sua carreira na Inglaterra. Se considerarmos que Olivia de Haviland nasceu no Japão, em 1916, podemos dizer que ela seria a segunda oriental a ser indicada ao Oscar, porém, filha de ingleses, a atriz não tem nada de origem oriental, a não ser a localização geográfica de seu nascimento.

Na categoria melhor ator, apenas o israelense Topol foi indicado, em 1972, por seu trabalho em O Violinista no Telhado (Fiddler on the Roof, 1971).

Topol e Merle Oberon, nos filmes que lhes rendeu uma indicação ao Oscar

As categorias de Coadjuvantes já possuem um maior número, embora modesto, de orientais indicados. Miyoshi Umeki e Sessue Hayakawa foram indicados em 1957, ela por Sayonara (que lhe rendeu o Oscar) e ele por A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai, 1957). Hayakawa, dos indicados na categoria coadjuvante, foi o artista com a carreira mais bem sucedida.


Abaixo a lista dos indicados nas categorias de coadjuvantes, e seus respectivos trabalhos.

Melhor Ator Coadjuvante:

Sessue Hayakawa, nascido no Japão, indicado por A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai, 1957);
Mako, nascido no Japão, foi indicado por O Canhoneiro do Yang-Tsé (The Sand Pebbles, 1966);
Haing S. Ngor, nascido no Cambodja, venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por Os Gritos do Silêncio (The Killing Fields, 1984);
Ken Watanabe, nascido no Japão, indicado por O Último Samurai (The Last Samurai, 2003).

Sessue Hayakawa, Mako, Haing S. Ngor e Ken Watanabe

Melhor Atriz Coadjuvante:

Miyoshi Umeki, nascida no Japão, venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Sayonara (Idem, 1957);
Shohreh Aghdashloo, nascida no Irã, foi indicada por Casa de Areia e Névoa (House of Sand and Fog, 2003);
Rinko Kikuchi, nascida no Japão, foi indicada por Babel (Idem, 2006).

Miyoshi Umeki, Shohreh Aghdashloo e Rinko Kikuchi

Se desconsiderarmos Olivia de Havilland, apenas nove atores orientais foram indicados ao Oscar por atuação, e somente dois, coadjuvantes, foram vencedores, Miyoshi Umeki e Haing S. Ngor. Tal como Umeki, Haing S. Ngor não teve grandes chances no cinema após a premiação, e em 25 de fevereiro de 1996, o ator foi assassinado durante um assalto, morrendo aos 55 anos de idade.

Haing S. Ngor

Na categoria melhor diretor, apenas três receberam indicação ao Oscar (não levando em consideração a premiação de Melhor Filme Estrangeiro). São eles, os japoneses Hiroshi Teshigahara (1964) e Akira Kurowawa (1985) e Ang Lee, nascido em Taiwan, indicado três vezes, e vencedor do prêmio em duas ocasiões (2005 e 2012).


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