Libertad Lamarque, a rainha do tango


Junto com as cantoras Mercedes Simone e Tita Merello, Libertad Lamarque foi uma pioneira entre as mulheres cantoras de tango na Argentina. Em 1935, a cantora e atriz foi eleita a "Rainha do Tango" em seu país.

Estrela do primeiro filme sonoro argentino, Lamarque também brilhou no cinema mexicano, embora as novas gerações a conheçam por seus papéis em telenovelas, como a Vovó Piedade Bracho, no sucesso A Usurpadora.

Conheça mais sobre a vida da estrela, rival de Evita Perón, cuja trajetória renderia um belo filme.


Libertad Lamarque nasceu em Rosario, província de Santa Fé, em 24 de novembro de 1908. Seu pai, Gaudêncio Lamarque foi um importante revolucionário anarquista, e a artista nasceu enquanto seu pai estava na prisão, ela recebeu o nome Libertad (liberdade) em protesto pela situação de seu progenitor. A pequena Libertad foi amamentada por sua irmã mais velha, pois sua mãe precisava trabalhar para sustentar os sete filhos, na ausência do marido.

Aos sete anos de idade Libertad iniciou sua vida artística, apresentando-se em praças e teatros do interior, em espetáculos beneficentes, cuja renda era doada para pagar a fiança de outros presos políticos do país. Seus shows em casas de espetáculo fechadas eram apresentadas com portas abertas, para que o público que não tivesse dinheiro para os ingressos também pudessem usufruir do entretenimento cultural, de forma democrática.

Em 1923, aos 15 anos de idade, ela já era conhecida no país, e enviou uma carta para o diretor do Teatro Nacional de Buenos Aires se oferecendo como atriz para a companhia, exigindo um salário de 500 pesos mensais. O diretor gostou da ousadia da garota, mas lhe contratou por 300 pesos iniciais, em 1924. Inicialmente contratada como corista, logo tornou-se estrela dos palcos, atuando em mais de 15 peças até 1930. Em 1926 ela assinou um contrato com a RCA Victor, tornando-se uma das primeiras mulheres a gravar discos de tango.

Libertad chegou a trabalhar com Carlos Gardel no teatro, e após a morte do cantor (em 1935), ela assumiu o posto de interprete de tango mais popular do país.

Carlos Gardel jantando com Libertad Lamarque (a segunda, a direita, usando uma boina branca)

Seu irmão Pedro também chegou a ser contratado pelo mesmo teatro, mas não deu continuidade a carreira. Já Amélia Lamarque, sua irmã mais velha, também viria a trabalhar no cinema, e Morenita Rey, a filha de Amélia, além de atuar no cinema, foi uma estrela do tango na Venezuela. Infelizmente, Morenita morreu em 1966, aos 38 anos, após sofrer um derrame cerebral.

Elsa O'Connor, Hugo del Carril e Amélia Lamarque

Disco de Morenita Rey

Em 1930 a atriz estreou no cinema, atuando em Adiós Argentina (1930), um filme ainda mudo. No ano seguinte, por meio de votação popular, foi eleita "A Rainha do Tango", em um concurso promovido pelo Teatro Cólon, e no mesmo ano ganhou o título "Miss Rádio", em um pleito feito pela Revista Sintonia. Em 1932 sua primeira turnê internacional, cantando no Paraguai, além de se apresentar em todas as províncias argentinas.

De volta a Buenos Aires, estrelou ¡Tango! (1933), ao lado de Tita Merello e Mercedes SimoneO filme foi a primeira produção sonora da Argentina, e fez um enorme sucesso.


Libertad Lamarque e Alberto Gómez em ¡Tango!

Mas sua consagração no cinema veio com o sucesso cinematográfico de El Alma de Bandoneón (1935), lançado alguns meses antes da morte de Gardel. Após as filmagens, ela iniciou outra turnê, que abrangeu a Argentina, Peru e Chile. Ainda em 1935, começou a cantar composições de Alfredo Malerba, com quem se casaria anos mais tarde.



Em 1935 Lamarque já era uma estrela, e poderia estar milionária. Mas seu primeiro marido, Emilio Romero, com quem se casara em 1926, era viciado em jogo, e gastava toda sua fortuna. Alcoólatra e  também violento, ele espancava a artista constantemente. Deprimida, Libertad Lamarque tentou o suicídio, jogando-se da janela de um hotel. Porém, ela caiu sobre o toldo da fachada e sobreviveu.



Mas quando estava internada no hospital, seu marido fugiu com a filha do casal para o Uruguai. A atriz entrou numa luta judicial, e com apoio da polícia argentina, conseguiu resgatar a menina meses depois. Ela deixou Romero em 1935, e tentou se divorciar dele, mas isto era proibido na Argentina da época. Lamarque travou uma grande campanha pelo divórcio no país, mas em 1945 Emilio Romero faleceu, deixando a livre para se casar novamente, com Alfredo Malerba, com quem ela ficou casada por mais de 40 anos.



Em 1936, de volta à Argentina, Libertad escreveu o roteiro de seu próximo filme, Ajuda-me a Viver (Ayúdame a Vivir, 1936), cujo título foi inspirando em uma canção de Malerba. Ela precisou escrever o filme pois os roteiristas argentinos se recusavam a escrever para o cinema falado, acreditando que os filmes seriam um fracasso. Novamente, o filme fez grande sucesso, sendo o primeiro trabalho de Libertad exibido também no Brasil, onde seus discos já faziam sucesso. O filme também fez enorme sucesso em Cuba, onde o título tornou-se uma expressão popular no país.




Seus filmes seguintes, os melodramas Beijos Comprados (Besos Brujos, 1937) e Amor Maternal (La Ley que Olvidaron, 1938), também fizeram muito sucesso internacional. Mas Madressilva (Madreselva 1938) tornaria-se seu filme mais bem sucedido na Argentina.


No elenco ainda Hugo Del Carril e sua irmã Amélia. O título da obra era também o nome de uma de suas canções mais famosas ao longo de sua carreira. Por seu trabalho em seu filme seguinte, Porta Fechada (Puerta Cerrada, 1939), ela foi indicada ao principal prêmio cinematográfico da Croácia, e foi premiada em um Festival de Cinema da Iugoslávia.

Porta Fechada também foi aclamado no Festival de Veneza daquele ano, e foi uma das maiores bilheterias internacionais na França.


Libertad Lamarque em Madressilva

Após o sucesso de Porta Fechada, Libertad Lamarque recebeu um convite da Paramount para atuar em Hollywood. Mas ela recusou o contrato, com medo de não ser aproveitada nos Estados Unidos e ficar relegada a pequenos papéis de latinas. Além disto, o início da Segunda Guerra Mundial assustou a artista, que não estava disposta a entrar em um navio rumo aos EUA, alvo de bombardeios durante o conflito.

Apesar de recusar trabalhar em Hollywood, em 1939 ela fez sua primeira turnê brasileira. Convidada por Oduvaldo Vianna, que ela conhecera quando este estava trabalhando na Argentina, Libertad foi contratada para cantar no importante Casino da Urca, além de assinar um contrato de temporada na Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

Os shows brasileiros de Libertad Lamarque fizeram um grande sucesso com o público, que disputava os ingressos para poder ver a estrela portenha.


O sucesso da viagem ao Brasil inspirou seu próximo filme, Romance no Rio (Caminito de Gloria, 1939), que mostrava a artista se apresentando no Rio de Janeiro (mas com cenas gravadas em estúdios argentinos). No filme ela aparecia cantando a marchinha de carnaval brasileira A Jardineira (de Benedito Lacerda e Humberto Porto), que Libertad havia conhecido no Brasil, interpretada por sua colega da Urca, Carmen Miranda.

Em Romance no Rio, além de cantar em português, Libertad aparecia vestida de baiana, em homenagem a Carmen. Sendo a primeira artista a imitar o sucesso da pequena notável no cinema. (Nos Estados Unidos, a primeira imitadora de Carmen foi a comediante Imogene Coca).

Libertad Lamarque - Jardineira

O filme não fez sucesso como as produções anteriores, mas o diretor Luis César Amadori o refilmaria  a obra anos mais tarde, na Espanha, tendo Sarita Montiel como protagonista. A nova versão chamou-se Meu Último Tango (Mi Último Tango, 1960).

Mas o filme seguinte de Libertad Lamarque, Como é Triste Recordar (La Casa del recuerdo, 1940), foi uma das maiores bilheterias da história do cinema argentino.

Em 1944 a artista retornou ao Brasil, desta vez como atração do Casino Atlântico, onde chegou a dividir o palco com Bob Nelson, o Cowboy Brasileiro. Novamente, ela também foi contratada para cantar na Rádio Tupi.


Libertad continuou cantando e sendo uma estrela do cinema em seu país, até que teve um desentendimento com uma jovem atriz durante as filmagens de A Cavalgada do Circo (La Cabalgata del Circo, 1945).

Irritada com os contantes atrasos e problemas criados pela atriz Eva Duarte nos bastidores das filmagens, Libertad perdeu a paciência e desferiu um tapa na cara da atriz. Porém, Eva era noiva de Juan Domingos Perón, e logo se casaria com ele, passando a ser conhecida como Evita Perón. Com a chegada de Perón ao poder, em 1946, Evita passou a perseguir a rival.

Ela proibiu as rádios de contratarem ou executarem as músicas de Libertad em seus programas, e pediu aos exibidores cinematográficos que boicotassem seus filmes. Juan Perón também exigiu que Don Miguel, o dono do estúdio San Miguel Filmes demitisse Libertad Lamarque, além de exigir que ele destruísse os filmes feitos por sua esposa. Don Miguel destruiu alguns, e escondido, preservou A Cavalgada do Circo, que sobreviveu aos dias de hoje.

Trecho de A Cavalgada do Circo

Colocada em uma lista negra em seu país, Libertad Lamarque precisou exilar-se no México para poder continuar trabalhando. Ela já era muito popular no país, e estreou nos filmes mexicanos em Gran Casino (1946), primeiro filme de Luis Buñel feito no México.

Apesar do diretor famoso, e da presença do astro Jorge Negrete, o filme não foi muito bem sucedido.


No elenco de Gran Casino ainda estava a rumbeira Meche Barba, com quem ela trabalharia novamente, anos mais tarde, em A Usurpadora (La Usurpadora, 1998).

Meche Barba

Apesar do fracasso inicial no cinema mexicano, Libertad Lamarque tornou-se uma estrela no país, tendo feito quase cinquenta filmes por lá. Como atriz, foi indicada três vezes ao prêmio Ariel, o mais importante do cinema mexicano. Embora nunca tenha vencido a competição, ela recebeu um Ariel  de Ouro Especial em 2000, pelo conjunto de sua obra.

Na década de 90, em uma entrevista, chegou a afirmar que se não fosse a rivalidade com Evita, nunca teria conquistado os louros que colheu na sua carreira após o exílio. No México, a atriz foi apelidada de "A Noiva da América".

Libertad continuava recebendo convites para Hollywood, mas recusou a todos, por não ter o papel principal na produção. Mas aceitou fazer shows no país, que fizeram muito sucesso. A atriz também foi convidada pela Broadway, mas também não aceitou. 

Também fez inúmeras turnês pela América Latina, cantando em Cuba, Porto Rico, Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Panamá, Republica Dominicana, Venezuela, etc.

Em agosto de 1955 ela retornou ao Brasil, contratada pela Boate Oasis, de São Paulo. Entre os sucessos apresentados no show, estava o samba canção Ninguém Me Ama (de Antônio Maria), que havia feito muito sucesso por aqui na voz de Nora Ney. Libertad havia cantando a mesma música, em português, no filme A Infame (La Infame, 1954), feito no ano anterior.

Na mesma época, também se apresentou na TV Tupi, e escalada por Alváro de Moya, participou do teleteatro Eu Pecador, baseado na biografia do Frei José Mojica, exibido pelas Organizações Victor Costa.

Mojica também estava no Brasil na época, e participou do programa. Por aqui, a dupla de astros latinos  foi surpreendida com a notícia da morte de Carmen Miranda, nos Estados Unidos, e acabaram celebrando a missa em homenagem a Carmen feita em São Paulo.

No elenco de Eu Pecador também estava o jovem Pedro Geraldo, um rapaz muito parecido com o jovem Mojica, descoberto por Moya. Quatro anos mais tarde, quando o livro de Mojica foi levado as telas do cinema mexicano, ele exigiu Pedro Geraldo e Libertad Lamarque nos papéis que haviam feitos no programa brasileiro. O filme Eu Pecador (Yo Pecador, 1959), fez um grande sucesso internacional.


Em 1961 a artista foi contratada para atuar na Espanha, onde protagonizou Sublime Recordação (Bello Recuerdo, 1961), ao lado do astro mirim Joselito, o menino cantor.

Joselito e Libertad Lamarque

Na década de 60, embora continuasse atuando no cinema, também começou a trabalhar na televisão. Com mais de 50 anos de idade, ela ainda recusava papéis onde não fosse a protagonista. Lamarque retornou à Argentina nesta época, anos após a morte de Evita Perón (ocorrida em 1952)

No país, ela filmou Creo em Ti (1960) e estrelou o musical Hello, Dolly! (1967), que era produzido pelo brasileiro Victor Berbara, o mesmo que havia produzido a versão brasileira estrelada por Bibi Ferreira, no ano anterior.


Recusando-se a  aceitar papéis de coadjuvantes, Libertad foi diminuindo sua participação no cinema.

Em 1970 ela estreou em uma telenovela, atuando em Esmeralda (1970), feita na Venezuela. Libertad fazia o papel da bondosa irmã Piedade, na história da menina cega trocada no nascimento, que já foi refilmada em alguns países, inclusive no Brasil.

Sua segunda novela, Mamá (1975), também foi feita na Venezuela.


Com dificuldades em achar papéis adequados para a sua idade no cinema, ela se aposentou da tela grande após atuar na comédia La Mamá de la Novia (1978). As telenovelas marcaram um novo rumo na carreira da artista, que também já não gravava mais discos há algum tempo.

Sua primeira novela mexicana Soledad (1980-1981), foi feita pela Televisa, e fez um enorme sucesso. Apesar do sucesso, e de ter feito Amada (1983), ela ficou muitos anos afastada das novelas, retornando apenas como a Vovó Piedade em A Usurpadora (La Usurpadora, 1998).

A novela, de enorme sucesso, foi reprisada algumas vezes no Brasil, e por aqui, Libertad Lamarque foi dublada pela atriz Selma Lopes.

Gabriela Spanic e Libertad Lamarque em A Usurpadora

Em 1982 ela retornou à Argentina, para fazer uma série de shows beneficentes em benefício do país, em guerra com a Inglaterra, pelo domínio das Ilhas Malvinas. No mesmo ano ela estrelou a revista Libertad Lamarque, Uma Mulher de Sorte?.

Na década de 90, recebeu diversos prêmios e homenagens pela sua trajetória artística. Ela foi homenageada em eventos cinematográficos na Argentina, Venezuela, França e Chile. Em Nova York, foi homenageada ao lado de María Felix, por sua carreira no cinema mexicano e em 1989, foi agraciada por sua obra no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, na Espanha. Na ocasião, o prêmio foi entregue pela atriz Bette Davis. Ainda em 89, também gravou seu último disco.

Libertad Lamarque e Bette Davis

Seu último trabalho como foi na novela Carinha de Anjo (Carita de Ángel, 2000), onde tinha um papel importante. Mas quando gravava as cenas finais da novela, a artista sentiu fortes dores nas costas e foi internada para exames. Ela estava com pneumonia, e nunca mais sairia do hospital.


Libertad não conseguiu chegar ao final da novela, falecendo em 12 de dezembro de 2000, aos 92 anos de idade. Em 85 anos de carreira, ela atuou em 65 filmes e seis novelas, além de ter uma extensa discografia.


Sua única filha Mirtha Lamarque (1928-2014), também investiu na carreira de cantora, chegando a gravar discos com a mãe, mas posteriormente abandonou a carreira.



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