Cida Tibiriçá, a Betty Boop Brasileira


Betty Boop surgiu nas telas em 1930, criada pelos Irmãos Fleischer, e ao longo dos anos tornou-se uma das maiores e mais famosas estrelas dos desenhos animados da história cinematográfica.

Apesar de seus desenhos não serem mais produzidos há muitos anos, ela ainda é um ícone da sétima arte, além de ser uma grande marca que fatura milhões todos os anos em licenciamentos e merchandising.

Originalmente, a sensual Betty Boop foi inspirada em algumas artistas, como a estrela do cinema mudo Clara Bow, e a cantora de vaudeville Helen Kane (e seu "corpo violão" era baseado nas curvas de Mae West).

Helen Kane

A voz de Betty Boop, nos desenhos, foi dublada por diversas artistas, mas a mais famosa foi a atriz Mae Questel, que trabalhou por muitos anos emprestando a sua voz para a personagem.

Questel, que também dublava a Olivia Palito e a Wendy em Gasparzinho, dublou Betty Boop entre 1930 a 1939. E em 1989, 50 anos após deixar a personagem, voltou a dublá-la no filme Uma Cilada Para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, 1988). No ano seguinte, interpretou a mãe de Woody Allen no filme Contos de Nova York (New York Stories, 1989), aposentando-se definitivamente no ano seguinte.

Mae Questel

Betty Boop logo chegou ao Brasil, onde também fez muito sucesso. Mas originalmente não chegou a ser dublada por aqui, já que os desenhos animados só começaram a receber dublagem no país a partir de 1939.

Por aqui, seus desenhos normalmente eram exibidos como completos das sessões de cinema da época.


No Brasil, a personagem também se tornou muito popular. Em 1935, o conjunto carioca Os Quatro Diabos gravou um fox-trote chamado Betty Boop e em 1939 o Teatro Recreio apresentou a revista Aleluia!, de Joracy Camargo. No espetáculo, diversos artistas encarnavam personagens queridos dos desenhos da época, Eva Todor entrava em cena vestida de Mickey Mouse, Oscarito encarnava o Marinheiro Popeye e a cantora Aracy Cortês dava vida a flapper Betty Boop.

 Os Quatro Diabos

Aracy Cortês como Betty Boop, em 1939

No rádio brasileiro, principal veículo de comunicação da época, também existiam as cantoras que imitavam a personagem, eram as "Betty Boop brasileiras".

Foram várias as artistas que se apresentaram nos microfones radiofônicos do país que cantavam com os trejeitos de Betty Boop. Entre elas a cantora paulista Cidinha Penteado (que também imitava Olivia Palito e o Pato Donald) e Lydia Campos, que dizia ser brasileira mas na verdade era argentina, e a uruguaia Rosita Castillo Verdaguer, que dizia ser argentina.

Cidinha Penteado, Lydia Campos e Rosita Castillo

Mas a mais famosa "Betty Boop Brasileira" foi sem dúvida a paulista Cida Tibiriçá.


Maria Aparecida Tibiriçá nasceu em um casarão no bairro da Liberdade, em São Paulo, no ano de 1919. Neta de Jorge Tibiriçá, ex governador do estado de São Paulo e filha única do cineasta Antônio Tibiriçá.


Começou a cantar no rádio aos 15 anos de idade, nascida na alta sociedade, Cida Tibiriçá ingressou na Rádio Record em 1934, e por falar inglês fluente, passou também a cantar neste idioma em suas apresentações. Mas também cantava sambas e marchas brasileiras.

As imitações de Betty Boop surgiram por acaso, na verdade, ela estava tentando imitar a voz da estrela mirim Shirley Temple. Curiosamente, a voz de Cida Tibiriçá era grossa, de contralto.


Em 1935 a artista migrou para a Rádio São Paulo. Neste mesmo ano, sua canção foi a mais executada no carnaval de São Paulo e a cantora foi eleita "Rainha do Broadcasting Paulista" em um concurso promovido pela Revista SOM. Ainda neste mesmo ano, estreou no cinema brasileiro cantando no musical sonoro Fazendo Fitas (1935).

Cida Tibiriçá gravou alguns discos pela Columbia, mas infelizmente nenhum deles registrou suas imitações de Betty Boop. Sua carreira musical se deu por intermédio do pai, o pioneiro do cinema paulista Antônio Tibiriçá (1898-1968).

Antônio Tibiriçá foi um diretor, roteirista, produtor e compositor dos primórdios do cinema produzido em São Paulo. Antônio estreou no cinema em 1920, como ator (e roteirista) no filme Jóia Maldida (1920). Nos anos seguinte, dirigia filmes polêmicos, com temáticas ousadas, apresentando em suas obras mulheres que perderam a honra, prostituição, cabarés e vícios em morfina e cocaína.

Antônio Tibiriçá em Jóia Maldita

Embora condenado pela crítica, seus filmes faziam muito sucesso com o público. Seu primeiro filme como diretor, Vício e Beleza (1926) mostrava um jovem estudante de medicina frequentador de cabarés e viciado em cocaína. Com mulheres semi nuas na tela, o filme fez um estrondoso sucesso não só no Brasil, como na Argentina e Uruguai. Por aqui, após as sessões lotarem, não era incomum  que os homens que não conseguiram ingressos acabassem trocando socos em busca de um lugarzinho na sala de exibição.

Cena de Vício e Beleza

Cida Tibiriçá passou ainda pelas rádios Cultura, Cosmos, Difusora, Cruzeiro do Sul e Tupi. Em 1936 a cantora obteve um grande sucesso nos microfones e cassinos cariocas, então capital federal. As imitações de Betty Boop sempre faziam parte de suas apresentações.

O compositor Lamartine Babo chegou a escrever um poema dedicado a cantora.



Em 1936 Cida Tibiriçá conheceu no Rio de Janeiro o cantor Edison Sant'Anna, com quem ela se casaria em 1938. Eles chegaram a dividir os palcos em algumas ocasiões.

Cida Tibiriçá e Edison Sant'Anna

Caricatura da época, mostrando Edison e Cida Tibiriçá

A cantora permaneceu no Rio de Janeiro até 1937, ano em que atuou em seu segundo e último filme, Samba da Vida (1937), feito nos estúdios da Cinédia. Apesar de ser uma curta participação, o filme tornou-se um raro registro de Cida Tibiriçá fazendo os trejeitos de Betty Boop.

Cida Tibiriçá em Samba da Vida (1937)

Em 1940, no auge da carreira, Cida Tibiriçá abandonou a vida artística, passando a trabalhar ao lado do marido, que também era também advogado e escrivão. No mesmo ano, ela deu a luz a seu filho Fernando Tibiriçá, que se tornou produtor musical e da noite paulistana.

Cida Tibiriçá trabalhou em um cartório como escrevente, função na qual se aposentou. Em 29 de outubro de 2012, ela faleceu em consequências de uma pneumonia, aos 93 anos, seu marido, Edison Sant'Anna, na época, estava com 96 anos de idade.

Cida Tibiriçá teve três filhos, seis netos e duas bisnetas.


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