Little Esther Jones, a estrela negra que inspirou Betty Boop

A cantora e atriz Little Esther Jones foi uma sensação dos espetáculos de vaudeville no começo do século XX. A estrela mirim conquistou fama internacional, fazendo turnês por diversos países, como França e Brasil, e chegou a dividir os palcos com Carlos Gardel.

Seu modo de cantar, e suas improvisações vocais, deram origem ao estilo de canto de Betty Boop. Baby Esther, como também era chamada, foi a precursora do "doo-doo-doo to boop-boop-a-doop". Infelizmente, seu pioneirismo não é muito reconhecido, e sua biografia ainda tem enormes lacunas, sendo desconhecida nos dias de hoje sua data de nascimento ou falecimento.

Trecho de Gravação de Little Esther Jones

Seu nome verdadeiro era Esther Lee Jones. Agenciada pelos pais, ela começou a cantar ainda muito pequena, nos palcos de Chicago. A pequena cantora, dançarina e acrobata logo chamou a atenção das casas noturnas frequentadas pelos negros no Harlem, ainda na década de 20. Em sua atuação, Baby Esther dançava, fazia caretas, revirava os olhos e - o que era mais famoso - interpolava frases sem sentido como "Boo-Boo-Boo", "Wha-Da-Da", "Doo-Doo-Doo", "Boo-Did-Do-Doo" e "Lo-Di-De-Do".

Em 1929 ela foi contratada pela Fox para participar do curta metragem Fox Follies de 1929 (Fox Movitone Follies, 1929), que tinha números musicais e algumas cenas filmadas em cores. No filme Little Esther aparecia dançando um ritmo musical criado por ela, o Breakway

O sucesso do filme, exibido antes dos filmes principais, levou a menina para a Europa, estreando na França ainda em 1929, nos palcos do Molin Rouge. O menina fez um enorme sucesso, e teve como espectadora a lendária Mistinguett.  O show da criança prodígio rivalizou com o espetáculo que Josephine Baker apresentava em outra casa notura em Paris.

Na Europa, ela ainda iria se apresentar para os reis da Espanha e Suécia, durante sua bem sucedida temporada.

Em 1930 Max Fleischer criou a personagem Betty Boop, estrela dos desenhos animados. Helen Kane, uma cantora de vaudeville (e que havia atuado em alguns filmes), processou os estúdios, dizendo que Betty era inspirada nela e no seu estilo de cantar. Segundo Kane, o improviso "boop boop a be do" era uma criação dela, usada sem autorização pelo cartunista.

Helen Kane cantando

    

Durante o processo, Lou Bolton, antigo empresário de Baby Esther depôs dizendo que Kane havia visto um show da menina no teatro, em 1928, e confirmou que na verdade ela havia inventado este scat musical imitado por Kane. Little Esther Jones, que estava ainda em Paris, não compareceu ao julgamento, e Helen Kane acabou perdendo o processo.

O filme que ela participou, feito em 1929, foi usado como prova. Mas infelizmente, com o desfecho do processo, o juiz ordenou a destruição de todas as cópias, por serem documentos de um caso legal encerrado.

Little Esther Jones no Brasil

Em 1931 a menina faria uma bem sucedida turnê pela América do Sul. No Brasil, ela chegou em junho daquele ano, e foi uma das primeiras atrações internacionais a se apresentarem nos palcos brasileiros. Recebida por Getúlio Vargas, ela era anunciada aqui como a "rival de Josephine Baker".

Little Esther Jones foi contratada pelo Cinema Eldorado, do Rio de Janeiro, para se apresentar antes das sessões cinematográficas. Ela veio ao Brasil acompanhada pelo conjunto Gordon Sttreton Jazz, do qual fazia parte o brasileiro Ascendino Lisboa, que estava fazendo carreira no exterior.

Não se sabe exatamente a idade que a menina tinha na época, alguns jornais afirmam que ela tinha 11 anos, outros 13. Provavelmente sue agente mentia sua idade para fazer com que ela parecesse mais nova em algumas ocasiões, e em outras aumentava devido as leis de trabalho infantil.

Aliás, o dono de uma casa de espetáculos que rivalizava com o Eldorado denunciou o show para o juizado de menores, que não permitia a apresentação de menores de 18 anos em espetáculos artísticos. Isto atrasou a estréia da menina nos palcos por uma semana, e sem dinheiro, ela chegou a anunciar uma venda de seus figurinos para pagar as contas e as despesas do processo.

Por fim, Baby Esther foi autorizada a se apresentar, desde que deixasse a o teatro antes das 22 horas da noite. Seu show por aqui, foi um grande sucesso.



Duque, que havia levado o ritmo do Maxixe para o mundo, foi um dos seus espectadores. Encantado com o talento da menina, compôs para ela o samba Eu Também Quero Sambar. Cantando em português, Little Esther incorporou a música ao show, apresentando-se trajada de baiana (muitos anos antes de Carmen Miranda).


O sucesso da menina era tanto, que a revista Eu Sou do Samba, estrelada por Aracy Cortes, anunciou a presença de Little Esther. Na verdade, era uma imitadora brasileira, a menina Risoleta Costa, que a imitava em cena, inclusive com os mesmos figurinos. Novamente Little Esther voltou aos tribunais brasileiros, para impedir que a revista utilizasse seu nome. Risoleta então passou a ser chamada de Little Esther Brasileira, e também precisou autorização do juizado de menores para se apresentar.

Risoleta Costa

Após deixar o Brasil, ela viajou para à Argentina, Chile e Uruguai. No retorno aos Estados Unidos, em outubro de 1931, ela passou pelo Brasil novamente, à bordo de um navio. Ela firmou um novo contrato, desta vez para cantar nos teatros Modelo e Madureira. Em novembro, ela deixou o país definitivamente.

Ao atingir a adolescência, Esther Jones deixou de encantar o público, sendo substituída por outras atrizes mirins. Em 1934 ela ainda era vista se apresentando no lendário Cotton Club, do Harlem, mas já como corista. Porém, com o tempo, desapareceu completamente, ficando esquecida no tempo.

Não existem registros da morte de Little Esther Jones, nem de sua "sósia" brasileira Risoleta. Existem alguns erros na internet a seu respeito. Muitas vezes ela é confundida com outra artista mirim, Little Esther Phillips, que nasceu em 1935. Há também uma imagem que viralizou na internet, creditada erroneamente como sendo Little Esther Jones, quando na verdade esta é uma foto da modelo ucraniana Oyla, fazendo um cosplay de Betty Boop.

Oyla personificando Betty Boop, creditada erroneamente como sendo Little Esther Jones

Leia também:  Os 90 anos de Betty Boop

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