Relembrando a talentosa Ruth Gordon



Aos 72 anos de idade, e com uma carreira com mais de cinco décadas, que incluíam três indicações ao Oscar (como melhor roteirista), Ruth Gordon atingiu o estrelato em Hollywood após interpretar Minnie Castevet, a vizinha satanista de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968).

Ruth ganhou um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo desempenho, e agradeceu ao prêmio dizendo ironicamente "Não consigo dizer como isto é encorajador para minha carreira". A plateia não conteve os risos, e Ruth finalizou "E obrigada a todos que votaram em mim, e a todos que não votaram: por favor, com licença".

Mas apesar de tardio, é inegável que o premio deu um novo rumo para sua carreira, e permitiu a veterana atriz protagonizar filmes como o sensível Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971).

Ruth Gordon e seu Oscar

Ruth Gordon Jones nasceu em Quincy, Massachusetts, em 30 de outubro de 1896. O primeiro trabalho artístico de Ruth Gordon ocorreu quando ela tinha quatro anos de idade, e foi escolhida para estampar o rótulo da Mellin's Food for Infants and Invalids, um tônico vendido pela empresa no qual seu pai trabalhava. O produto era uma espécie de fortificante, similar ao nosso Biotônico Fontoura.

Ruth Gordon, aos quatro anos de idade

Fã de teatro, a menina resolveu escrever cartas para as estrelas dos palcos que ela admirava, pedindo uma foto autografada. A atriz Hazel Dawn não só a respondeu, como também incentivou a menina se tornar atriz.

Apoiando a decisão da filha, em 1914 a família de Ruth Gordon se mudou para Nova York, para que ela pudesse estudar atuação. No ano seguinte ela estrearia no cinema, fazendo pequenos papéis nos filmes The Whirl of Life (1915), Madame Butterfly (1915) e Camille (1915). No mesmo ano, fez sua estreia na Broadway, como Nibs, um dos garotos perdidos na peça Peter Pan.

Nos anos seguintes, Ruth se tornou uma estrela da Broadway.



A jovem Ruth Gordon

Em 1918 ela estrelou a peça Booth Tarlington's Seventeen, na qual contracenava com o ator Gregory Kelly. Eles fizeram diversas peças juntas, e se casaram em 1921.

Meses antes, em dezembro de 1920, a atriz precisou se submeter a um tratamento para endireitar suas pernas arqueadas. Ruth teve as pernas quebras, para que os ossos calcificassem de forma correta. Ela ficou meses internada durante a recuperação. 

Gregory Kelly morreu em 1927, com apenas 36 anos de idade. Dois anos depois, a atriz daria à luz ao seu único filho, Jones Harris, filho do empresário teatral Jed Harris, com quem ela nunca se casou, mas viveu por anos em uma relação estável.

Consagrada nos palcos, Ruth Gordon foi contratada pela MGM em 1932, mas nunca foi aproveitada pelo estúdio, não sendo escalada para nenhum filme. Seu contrato foi encerrado após um ano, sem nunca ter filmado.

A atriz só retornaria ao cinema em 1940, quando participou de O Libertador (Abe Lincoln in Illinois, 1940). Ela atuaria em outros quatro filmes até 1943, sempre em papéis de coadjuvantes. Neste período, seu trabalho mais importante no cinema foi em Duas Vezes Meu (Two-Faced Woman, 1941), o último filme de Greta Garbo.

Greta Garbo e Ruth Gordon em Duas Vezes Meu

Com poucos trabalhos em Hollywood, ela dedicou-se a Broadway. Em 1942 ela havia se casado com o roteirista Garson Kanin, e ele a incentivou a escrever suas próprias peças. No cinema, Irene Dunne protagonizou Passaram-se os Anos (Over 21, 1945), primeira adaptação cinematográfica de um texto escrito por Ruth Gordon.

Gordon foi indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 1947, pelo filme Fatalidade (A Double Life, 1947), co-escrito com o marido. Junto de Garson Kanin ela ainda seria indicada novamente pelos roteiros de A Costela de Adão (Adam's Rib, 1949) e A Mulher Absoluta (Pat and Mike, 1952), ambos estrelados pela dupla Katharine Hepburn e Spencer Tracy, que eram amigos do casal.

Spencer Tracy, Ruth Gordon, Garson Kanin e Katharine Hepburn

Outro filme importante com roteiro de Ruth Gordon foi Papai Não Quer (The Actress, 1953), estrelado por Spencer Tracy e Jean Simmons. Simons interpretava a própria Ruth Gordon, que havia escrito uma peça autobiográfica, mostrando como uma garota convenceu o pai a deixá-la ir para Nova York, para se tornar atriz.

Gordon só voltaria a atuar no cinema em À Procura do Destino (Inside Daisy Clover, 1965), ao lado de Natalie Wood. Por este filme, recebeu sua primeira indicação ao Oscar, na categoria de melhor atriz coadjuvante. Ruth não ganhou o Oscar, mas levou o Globo de Ouro, na mesma categoria.

Ruth Gordon e Natalie Wood em À Procura do Destino

Natalie Wood e Ruth Gordon se tornaram grandes amigas, e a veterana atriz foi convidada para ser a madrinha de Natasha Gregson Wagner, a primeira filha de Natalie, nascida em 1970.

Ruth ainda faria Enganando Papai (Lord Love a Duck, 1966), antes de brilhar como a vizinha intrometida e satanista em O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968), que lhe deu seu Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante e seu segundo Globo de Ouro.


Mia Farrow e Ruth Gordon em O Bebê de Rosemary

A atriz voltou ao gênero do terror em A Mansão dos Desaparecidos (What Ever Happened to Aunt Alice, 1969), um filme de terror psicológico no estilo O Que Terá Acontecido com Baby Jane (What Ever Happened to Baby Jane, 1962) e Com a Maldade na Alma (Hush Hush Sweet Charlote, 1964), também estrelado por grandes atrizes já veteranas, no caso Ruth e Geraldine Page.

Ruth Gordon e Geraldine Page em A Mansão dos Desaparecidos

Após atuar em Como Livrar-me da Mamãe (Where's Poppa?, 1970), Ruth Gordon comoveu o público com a doce e idealista Maude, no tocante e sensível Ensina-me a Viver (Harold and Maude, 1971). Ao lado de Bud Cort, ela interpretava uma mulher de terceira idade, que ensina um jovem a aproveitar a vida e descobrir o amor. 

Bud Cort e Ruth Gordon em Ensina-me a Viver

A atriz trabalhou muito nas décadas de 1970 a 1980, participando de diversos filmes e séries de televisão. Na TV, foi indicada ao Emmy por uma participação em Rhoda, e foi agraciada com tal prêmio por sua atuação na série Taxi.

No cinema, ela ainda atuou em filmes como Doido Para Brigar... Louco Para Amar (Every Wich Way But Loose, 1978), Flores e Espinhos (Boardwalk, 1979), Cuidado com Meu Guarda-Costas (My Bodyguard, 1980) e Agente Zero-Zero Nada (The Trouble with Spies, 1987), lançado após a sua morte.

Ruth Gordon em Cuidado com Meu Guarda-Costas

Em 28 de agosto de 1985 a atriz estava com o marido em sua casa de veraneio. Ela caminhou na praia com Garson Kanin pela manhã, conversaram muito e durante o dia trabalharam em uma nova peça que estavam escrevendo. Antes de ir dormir, Ruth Gordon sofreu um derrame, que a matou aos 88 anos de idade.

Glenn Close, com quem ela havia acabado de atuar em Maxie (1985), declarou na época "Ruth Gordon tinha um grande dom para viver o momento, e isto a manteve eterna".

Glenn Close e Ruth Gordon em Maxie

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