O homem que inventou o Rock Hudson: os meninos bonitos e os negócios sujos de Henry Willson


Por trás do encanto e do glamour de Hollywood, há muitas histórias de bastidores que não são bonitas quanto o enredo dos filmes mostrados nas telas. A vida dos grandes astros era vigiada por agentes publicitários, que muitas vezes não mediam esforços para promover suas descobertas ao estrelado, muitas vezes usando artifícios muito duvidosos.

Um dos nomes sujos dos bastidores que Hollywood tentou esconder é o agente de talentos Henry Wilson, o empresário de diversos atores bonitos, que teve um importante papel na promoção de muitos galãs, em especial na década de 50, chamados de beefcackes (bolo de de carne, na tradução).

Entre seus clientes, nomes como Tab Hunter, Robert Wagner, Jeffrey Hunter, Chad Evertt, Nick Adams, Guy Madison, Troy Donahue, Mike Connors, Rory Calhoun, John Saxon, Ty Hardin, John Derek, Yale Summers, Clint Walker, Race Gentry, Doug McClure e os gêmeos Dirk e Dack Rambo.

Alguns dos clientes de Henry Wilson

Mas sem dúvida, o mais famoso de seus clientes foi o astro Rock Hudson.


Henry Leroy Wilson nasceu em 31 de julho de 1911, uma família influente no show business, seu pai era presidente da Columbia Phonopgraph Company. Wilson cresceu em meio a grandes artistas que eram amigos de sua família.

Wilson queria ser sapateador, mas seu pai, achando que aquilo não era profissão para homens, o colocou em um colégio militar. Mais tarde, quando estava na Universidade, começou escrever fofocas de Hollywood para a revista Variety.

Em 1933, durante um cruzeiro naval, ele fez amizade com Dixie Lee, esposa de Bing Crosby. Eles ficaram muito amigos durante a viagem, e Lee conseguiu para ele um emprego na revista Photoplay, e lhe deu a exclusividade em publicar sobre o nascimento do seu filho, Gary Crosby. Wilson também escrevia para outras revistas de cinema, e começou a também a trabalhar em uma agência de talentos pertencentes a Zeppo Marx, o irmão Marx menos engraçado. Nesta agência, gerenciou a carreira de atores como Jon Hall, Marge Champion e William T. Orr, um ator coadjuvante que deixou de atuar após se casar com a filha do poderoso Jack Warner. Como o sogro, Orr tornou-se um importante produtor.

Henry Wilson morava em uma mansão em Beverly Hills, comprada por seu pai, e resolveu montar sua própria agência. O agente tinha uma predileção por rapazes bonitos, e costumava procurar por novas estrelas em bares gays da Sunset Strip, em Los Angeles. Seu primeiro cliente foi o jovem Junior Durkin, de apenas 17 anos, antigo astro mirim que batalhava um lugar ao sol em Hollywood desde os 15 anos, quando havia ficado órfão.

Wilson não só passou a agenciar Junior Durkin, como também o levou para morar em sua casa, fazendo dele seu amante. Mas ele não teve tempo de promover o garoto a estrela, pois Durkin faleceria dois anos depois, com apenas 19 anos de idade. (conheça mais sobre Junior Durkin aqui).

Junior Durkin

Dizem que Wilson era apaixonado por Durkin, e nunca superou a morte dele. Após a morte do jovem ator, ele começou a explorar e usar seus contratados de forma abusiva. Conhecido nos bastidores de Hollywood como "o fada padrinho", ele abordava os rapazes que lhe chamavam a atenção dizendo "você é mais bonito que qualquer outro ator" e "você já é uma estrela, agora cabe a mim avisar a Hollywood". Seu cartão de visitas dizia literalmente "Se estiver interessando em entrar no cinema, eu posso ajudá-lo. Henry Wilson, agente". Assim, Wilson conseguiu uma diversa quantidade de clientes, de jogadores de futebol americano, universitários, jogadores de beisebol e marinheiros de licença, em Los Angeles.

O assédio a militares de folga na cidade, durante a Segunda Guerra era tanta, que as forças armadas norte-americanas construiu bares específicos para os soldados. Muitos rapazes que prestavam o serviço militar, antes disto, frequentavam bares gays da cidade em busca de serem descobertos por Henry Wilson, ou outro produtor disposto a transformá-los em astros famosos.

A jornalista Suzanne Finstad, uma das biógrafas do agente, destacou que nem todos os seus clientes eram homossexuais, mas "um grande número deles era bissexual, ou "cooperou" com Wilson para obter vantagens". Ann Doran, uma de suas poucas clientes mulheres, relembrou "se um jovem bonito tinha Henry Wilson como agente, era quase assumido que ele era gay, como se estivesse escrito em sua testa."

Wilson teve poucas clientes do sexo feminino, entre elas Rhonda Flemming, que ele viu andando na rua, e a jovem Judy Turner, que ele rebatizou de Lana Turner. Wilson foi um dos agentes de casting de ...E o Vento Levou (...Gone With the Wind, 1939), e tentou emplacar Lana como Scarlet O'Hara. Ele foi responsável por conseguir um papel para George Reeves, o futuro Superman, neste mesmo filme.

Entre suas clientes também figuraram Joan Fontaine e Natalie Wood.

Lana Turner fazendo teste para ...E O Vento Levou

Wilson, o fabricante de estrelas, também ficou famoso por criar nomes artísticos de seus clientes. Ray Cramton tornou-se Chad Everett, Arthur Kelm virou Tab Hunter, Orison Whipple Hungerford Jr. foi rebatizado com Ty Hardin. Outros de seus clientes renomeados incluem Guy Madison (Robert Moseley), Troy Donahue (Merle Johnson, que segundo o agente, era nome de creme dental), Rory Calhoun (Francis McCown), John Saxon (Carmine Orrico), Carl Bolder (EC Craver), Trax Colton (Louis A. Morelli), Craig Stevens (Gail Shikles Jr.) e Dack e Dirk Rambo (Norman Jay e Orman Rambo). James Westmoreland foi um dos únicos que se recusou a mudar de nome, e Rip Torn, curiosamente, chamava-se assim mesmo (na tradução seu nome é algo como Rasgar Rasgado).

Na linha de cima, da direita para esquerda: George Reeves, James Westmoreland, Craig Stevens.
Na linha de baixo, da direita para a esquerda: Rip Torn, Carl Bolder e Trax Colton.

Mas o maior nome inventado por Henry Wilson foi Rock Hudson, criado para rebatizar Roy Scherer, um desengonçado caminhoneiro descoberto pelo agente. Hudson foi seu cliente mais proeminente, tonando-se um dos maiores astros da história de Hollywood. Wilson fez de tudo para promover o ator, inclusive destruir carreiras de outros clientes.

Em 1955 a revista Confidential, especializada em fofocas de Hollywood, escreveu uma matéria revelando que Hudson era gay. A revista usava métodos nada tracionais para conseguir as notícias, e chegou a pagar a aspirante a atriz Francesca de Scaffa para dormir com celebridades, e relatar o encontro em suas páginas. (já contamos o escândalo de Francesca de Scaffa aqui).

Sabendo que a revista chegaria as bancas, e que isto destruiria a imagem do seu maior galã, Wilson fez um acordo com a revista, entregando escândalos de seus outros clientes. Como pagamento, ele entregou a ficha criminal de Rory Calhum, que havia sido preso por roubo na juventude, e fotos de Tab Hunter participando de uma festa de pijamas, só para rapazes. Anos mais tarde, Confidential seria também o nome do documentário estrelado por Tab Hunter, contanto sua vida e como era difícil ser gay na velha Hollywood.

As fotos de Tab Hunter haviam sido tiradas pelo próprio Wilson, que promovia festas para rapazes em suas propriedades. Elas tinham como convidados produtores, distribuidores de cinema e empresários dispostos a financiar seus projetos cinematográficos. Muitos de seus meninos eram oferecidos como "moeda de troca", e o agente fotografava tudo, para poder chantagear algum dos meninos mais problemáticos.

Hunter, que era um grande astro, havia despedido o empresário, e assinado contrato com outro agente.


Wilson ainda para abafar os rumores, obrigou Rock Hudson a se casar com sua secretária, Phyllis Gates, para manter sua imagem de homem viril.

Rock Hudson, Phyllis Gates e Henry Wilson

Ser cliente de Wilson não era exatamente uma fábrica de sonhos como prometido. Foi ele mesmo quem criou o termo Beefcake, ao se referir na imprensa a Guy Madison, um de seus clientes mais rebeldes. Para Wilson, Madison não passava de um pedaço de carne.

Guy Madison e Henry Wilson

Os meninos bonitos, fortes, e um tanto ingênuos e com ares de bom moço de Wilson começaram a perder destaque no final da década de 50, após o surgimento de novos astros mais rebeldes, como James Dean, Paul Newman e Marlon Brando, todos lançados por William T. Orr, seu antigo cliente.

Troy Donahue, que também foi obrigado a se casar, após entrar em decadência, chegou a morar nas ruas de Nova York. Trax Colton, um dos poucos clientes de Wilson ainda vivos, abandonou Hollywood desiludido, após atuar em apenas dois filmes. Ele passou a trabalhar como vendedor de carros até se aposentar.

Ty Hardin, sem emplacar, tornou-se um auto-proclamado "lutador pela liberdade" na década de 1970. Ele liderou um grupo radical de direita chamado "The Arizona Patriots", um grupo anti-semita, anti-imigrante, contra os negros e contra funcionários públicos e o governo em geral, que defendia o uso de armas. Ele também abriu uma escola que ensinava a sonegar impostos como meio de protesto fiscal. 

Natalie Wood e Nick Adams, que contracenaram em Juventude Transviada (Rebeld Without Cause, 1955) também tiveram finais tristes. Os gêmeos Dirk e Dack Rambo, seus últimos agenciados, tiveram destinos semelhantes aos clientes favoritos de Wilson: Junior Durkin e Rock Hudson.

Dirk morreu em um acidente de carro em 1967, com apenas 25 anos. Dack continuou na carreira, mas morreu vítima da AIDS (tal como Hudson), em 1994, aos 52 anos de idade.


Dirk e Dack Rambo

Wilson o fabricante de ídolos das matinês, apesar usufruir dos serviços de seus clientes, era uma  das figuras mais homofóbicas de Hollywood, em sua vida pública. Apesar de nunca ter se casado, também teve relacionamentos falsos com algumas de suas clientes, e por anos foi noivo de Margaret Truman, filha do presidente norte-americano Henry Truman.

Na década de 60, ele perdeu seu poder na indústria cinematográfica, passando a ser uma pessoa mal vista nos bastidores, principalmente quando veio a público as artimanhas por ele utilizadas. Viciado em drogas, alcoólatra e abusando de remédios para emagrecer, começou a desenvolver sintomas de paranoia.


Henry Wilson e Natalie Wood

Na miséria, em 1974 ele mudou-se para a Montion Picture & Television, uma casa de repouso dedicada a velhas glórias de Hollywood desamparadas. Ele faleceu lá, vítima de cirrose hepática, em 02 de novembro de 1978, aos 67 anos de idade. Esquecido e sem dinheiro, foi enterrado em uma vala comum, sem identificação.

Em 2005 o jornalista Robert Hofler publicou o livro " O homem que inventou o Rock Hudson: os meninos bonitos e os negócios sujos de Henry Willson".




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