Atriz Marsha Hunt completa 103 anos de idade

Marsha Hunt estreou no cinema em 1935, já como protagonista. Uma das últimas estrelas (não mirim) da década de 1930 ainda entre nós, sua carreira foi abalada ao ser incluída na Lista Negra promovida na era do Macarthismo, uma perseguição aos artistas considerados subversivos nos Estados Unidos, que destruiu a trajetória de inúmeros profissionais do meio cinematográfico.

Mas a proibição de trabalhar no cinema, entretanto, não afastou a atriz das inúmeras causas humanitárias que ela defendeu ao longo de sua vida.

Marsha Hunt

Marcia Virginia Hunt nasceu em Chicago, em 17 de outubro de 1917. Marsha Hunt começou a atuar em peças escolares e em produções da igreja local. Após sua família se mudar para Nova York, ela começou a trabalhar como modelo, e com o dinheiro se inscreveu em uma escola de atuação.

Na segunda metade da década de 1930, ela já era uma das modelos mais bem pagas dos Estados Unidos. Quando ela tinha dezessete anos de idade o comediante Zeppo Marx viu uma foto de Marsha em um jornal, e a indicou para um papel no filme Cumpra-Se a Lei (The Virginia Judge, 1935).

Inicialmente ela ficou relutante em ingressar em Hollywood, mas a Paramount lhe fez uma tentadora oferta, que incluía um contrato de sete anos, além de fazer sua estreia no principal papel feminino da produção.

Marsha Hunt em Cumpra-Se a Lei

Entre 1935 e 1938 ela fez doze filmes na Paramount, geralmente interpretando mocinhas ingênuas. Marsha protagonizou filmes como O Dedo Acusador (The Accusing Finger, 1936), Mistério na Universidade (Murder Goes to Collge, 1937), e fez par romântico com o jovem John Wayne em Trunfos na Mesa (Born to the West, 1937).

Marsha Hunt e John Wayne em Trunfos na Mesa

Em 1938 ela foi dispensada da Paramount, e acabou trabalhando como freelancer em estúdios menores, como a Republic e a Monogram. Em 1939 a MGM a contratou por obra, para ser coadjuvante de Lana Turner em Estas Grã-Finas de Hoje (These Glamour Girls, 1939). Ainda sem contrato com o estúdio, ela ainda trabalhou em Orgulho (Pride and Prejudice, 1940) e Dona de Seu Destino (Cheers for Miss Bishop, 1941).

Marsha Hunt e Lana Turner em Estas Grã-Finas de Hoje

Contente com o desempenho da atriz, a MGM lhe ofereceu um contrato de seis anos. O estúdio chegou a testá-la para o papel de Melanie Hamilton em ...E O Vento Levou (...Gone With the Wind, 1939), mas Olivia de Havilland acabou sendo a atriz escolhida.

Na MGM a atriz fez vinte e um filmes, normalmente como coadjuvante. Ela atuou em obras como Flores do Pó (Blossoms in the Dust, 1941), Entre Dois Caminhos (The Penalty, 1941), Lourinha do Panamá (Panama Hattie, 1942), O Piloto Nº 5 (Pilot #5, 1943) e O Vale da Decisão (The Valley of Decision, 1945). Emprestada para a Columbia, foi protagonista de Ninguém Escapará ao Castigo (None Shall Escape, 1944), considerado o primeiro filme a denunciar o holocausto judeu. Marsha interpretava uma judia, que era noiva de um oficial nazista, antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Marsha Hunt em Ninguém Escapará ao Castigo

Em 1946 ela atuou em Uma Carta para Eva (A Letter for Evie, 1946), seu primeiro papel de protagonista na MGM. No filme, ela contracenava com o ator Norman Lloyd, que anos mais tarde seria um nome muito importante em sua carreira.


Mas a atriz não gozaria por muito tempo as glórias da fama. Em 1945 ela havia ingressado no conselho do Screen Actors Guild, o sindicato dos atores de Hollywood, recém inaugurado. Logo ela passou a ser uma pessoa mal vista nos bastidores da indústria.

Os Estados Unidos começavam a entrar em uma onda de histeria contra atividades "não americanas", e todo engajamento social e político era considerado subversivo, comunista. Marsha e o marido, o roteirista Robert Presnell Jr., começaram a ser perseguidos pelo Comitê de Atividades Não Americanas, que culminaria com a criação do Macarthismo, anos depois.

Com o marido e mais diversos astros do cinema, ela organizou um especial no rádio para protestar contra a perseguição e tratamento com os artistas, ainda em 1945. Em 1946, após estrelar Uma Carta Para Eva, Marsha, o marido e mais trinta atores, diretores e roteiristas (como John Huston, Humphrey Bogart, Lauren Bacall e Danny Kaye) foram para Washington protestar.



Três dias depois, a atriz foi intimada a depor, e denunciar os seus colegas, caso quisesse continuar trabalhando. Citando a primeira emenda da Constituição Norte Americana (que fala da liberdade de expressão), ela se recusou a depor contra seus companheiros (inclusive em seu depoimento, ela defendeu o roteirista Dalton Trumbo) e como consequência, foi demitida da MGM imediatamente.

Deprimida, Marsha Hunt ficou com a saúde debilitada, e adoeceu durante as filmagens de Carnegie Hall (1947), o primeiro filme que fez após ser dispensada da MGM. Durante a produção, ela descobriu também que estava grávida, e acabou dando à luz a uma menina prematura, em 01 de julho de 1947. Porém, a menina acabou falecendo no dia seguinte. Marsha nunca mais conseguiu engravidar, mas acabou adotando duas crianças posteriormente.

Ela atuou em poucos filmes até 1949, sempre em estúdios menores. Mas em 1950 o senador Charles McCarthy criou a lista negra de Hollywood, e o nome da atriz foi um dos primeiros a ser incluído. Sem trabalhos no cinema, ela eventualmente conseguiu alguns papéis esporádicos na televisão. Mas em 1955 ela retornou às telas, estrelando A Word to the Wives... (1955), dirigido por Norman Lloyd, que insistiu que queria a amiga no papel. Foi uma ousadia enorme, que poderia ter acabado com a carreira de Lloyd.

Em represália, o filme praticamente não recebeu nenhum tipo de publicidade.

Após a chance oferecida pelo amigo Lloyd, ela conseguiu alguns papéis no cinema em filmes como Espera Angustiosa (Bombers B-52, 1957) e Voltou Dentre os Mortos (Back from the Dead, 1957).

Karl Malden, Marsha Hunt e Natalie Wood em Espera Angustiosa

Em 1960, após atuar em Os Destruidores (The Plunderers, 1960), ela anunciou sua aposentadoria, o que de fato nunca ocorreu. Ela pretendia usar seu tempo para defender causas humanitárias que acreditava.

Desde 1955, após fazer uma viagem com o marido, Marsha Hunt havia virado uma voz denunciando a fome a desigualdade social no Terceiro Mundo, e iniciou diversos programas de combate a fome. Ela montou um abrigo para moradores de rua, e desde 1960 também denunciava as condições de vida dos refugiados pelo mundo.

Marsha fez uma campanha para arrecadar fundos entre seus colegas, e com o dinheiro criou uma creche para crianças carentes em San Francisco, e também construiu criou uma fundação para doentes mentais. Além disto, se uniu nos protestos civis pela igualdade racial, e desde os anos 60 também alertava os perigos da poluição global e defendia o direito da união homossexual nos Estados Unidos.

Marsha Hunt protestando pela "Liberdade dos Famintos"

Após anos longe das telas do cinema Dalton Trumbo a convidou para atuar no filme Johnny Vai à Guerra (Johnny Got His Gun, 1971), um filme que denunciava os horrores da guerra, escrito e dirigido pelo dramaturgo que ela defendera em 1946.


Desde então, fez algumas aparições ocasionais em séries de televisão, como em Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation), que ela participou em 1988.


Setenta e três anos após sua estreia no cinema, Marsha Hunt se aposentou após atuar em Meurtres à L'Empire State Building (2008).

Em 2013, entretanto, ela estreou o video clipe de uma música escrita por ela 40 anos antes, que falava sobre o amor e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A música foi gravada por Bill A. Jones, da série Glee, e se tornou um sucesso na internet.


Em 2015, Marsha foi tema do documentário Sweet Adversity, que falava sobre sua carreira e lutas sociais. E em 2018 a atriz foi homenageada pelo canal de filmes clássicos TCM, que convidou Norman Lloyd (aos 103 anos de idade) para prestigiar a centenária amiga que ele fez questão de defender durante a perseguição política que ela sofreu.

O emocionante reencontro de Norman Lloyd e Marsha Hunt, em 2018

Marsha Hunt comemorando o seu aniversário de 103 anos, em outubro de 2020





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