Canada Lee, o ator destruído pelo Macarthismo


Na década de 1950 Hollywood estremeceu diante da política do Macarthismo, uma prática iniciada pelo senador Joseph Macarthy, que perseguia pessoas consideradas subversivas ou traidores da América. Muitos artistas foram banidos da indústria do cinema na época, sob a acusação de serem comunistas, quando muitos apenas reivindicavam melhores condições de trabalho ou tinham opiniões públicas contra desigualdades sociais, ou simplesmente se posicionavam contra o racismo, então legalizado nos Estados Unidos.

Muitos atores e profissionais de Hollywood foram colocados na chamada "lista negra", que os impedia de trabalhar, e até Charles Chaplin foi banido na época. Outras pessoas do mundo do cinema eram convidados a delatarem os colegas, para não sofrer represálias.

Canada Lee não só foi banido, como também teve sua vida indiretamente ceifada por esta política nefasta, que perdurou até 1957.



Leonard Lionel Cornelius Canegata nasceu em Nova York, em 03 de março de 1907. Filho de um imigrante caribenho, ele foi criado no bairro da Harlem e aprendeu a tocar violino ainda criança, iniciando a sua carreira artística como músico, aos 11 anos de idade.

Aos 14 anos ele fugiu de casa, e começou a trabalhar como jockey de corridas, até que um amigo sugeriu que ele tentasse uma carreira no boxe. Em sua primeira luta, sua ficha dizia Canegata, Leonard, mas o locutor leu seu nome errado, anunciando o lutador "Canada Lee", que acabou tornando-se seu nome artístico.

Nos ringues, venceu 90 das 100 lutas que disputou, e conquistou um título nacional amador.



Uma lesão no olho causada pelo boxe fez com que ele perdesse completamente a visão do olho direito, o que encerrou sua carreira de atleta profissional.

Canada Lee se tornou ator por acaso, quando foi candidatar-se a um emprego de operário e acabou vendo um teste para atores em andamento. Ele fez a audição por curiosidade, e acabou contratado para o elenco de uma produção amadora que se apresentava em bairros carentes de Nova York.

No ano seguinte, em 1934, ele conseguiu um papel substituindo Rex Ingram, na Broadway. E sua consagração nos palcos viria com a produção de Macbeth (1936), dirigida por Orson Welles. Canada Lee recebeu muitas críticas favoráveis pela sua interpretação. Ele e Orson Welles acabariam fazendo muitos trabalhos juntos no teatro, embora o diretor nunca tenha o escalado para um de seus filmes.


Orson Welles e Canada Lee

Em 1939 ele estreou no cinema, interpretando um lutador de boxe em Keep Punching (1939), um filme produzido para o público negro, e que era exibido apenas nos bairros onde moravam os membros da comunidade segregada do país. O ator Dooley Wilson, o pianista Sam de Casablanca, também estava no elenco.

Lee não deu continuidade a carreira no cinema no momento, dedicando-se ao palcos. Em 1941 ele estrelou Native Son, também dirigida por Welles, que foi seu maior sucesso teatral. E em 1944 fez história ao estrelar ao lado de Hilda Simms a peça Anna Lucasta, a primeira produção da Broadway composta com atores negros nos papéis principais.


Canada Lee e Hilda Simms em Anna Lucasta

Em 1943 ele também foi aclamado por seu trabalho em South Pacific, uma peça dirigida por Lee Strasberg (o fundador do Actor's Studio). A peça foi bastante criticada por ter escalado um elenco completo de atores negros, mas Canada foi muito elogiado pelo seu desempenho.

Tanto que no ano seguinte, ele foi convidado por Alfred Hitchcock para viver o mordomo Joe Spencer, um dos 9 sobreviventes de um naufrágio, em um bote a deriva, em Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, 1944). Canada Lee foi o primeiro ator escalado para o elenco, por exigência do diretor.

O papel foi criticado por ser estereotipado, mas ao mesmo tempo era um dos personagens que mais demonstravam humanidade. Ele também sugeriu ao diretor retirar termos e expressões que considerava ofensivas, e foi atendido.

Dono de uma bela voz, ele aparecia cantando no filme, e tinha também uma bem sucedida carreira no rádio.


Canada Lee em Um Barco e Nove Destinos


Lee teve uma curta carreira no cinema, porque sempre recusou papéis que considerava ofensivo para a sua raça (escravos, nativos, empregados ou personagens caricatos). Mas chegou a precisar pintar o rosto de branco para fazer um importante papel no teatro.

Canada Lee era submetido a longas horas de maquiagem, que usava uma pomada para queimaduras para embranquecer sua pele.


Canada Lee em The Duchess of Mali (1946)

No cinema, interpretou outro lutador de boxe em Corpo e Alma (Body and Soul, 1947) e atuou no drama Fronteiras Perdidas (Lost Boundaries, 1949), uma obra baseada na vida real do médico Scott Mason Carter, um homem negro de pele clara, que teve que fingir que era branco para poder trabalhar no sul dos Estados Unidos.

O ator Mel Ferrer interpretava o papel principal, usando maquiagem (black face).


Mel Ferrer e Canada Lee em Fronteiras Perdidas

Canada Lee havia feito muito dinheiro no teatro e no rádio, e constantemente usava suas peças para condenar o racismo e a segregação racial dos Estados Unidos. Ele também foi uma das primeiras pessoas públicas a criticar o Apartheid, na África do Sul (instaurado em 1948).

Humanitário, o ator construiu o primeiro centro de saúde comunitário para pessoas carentes dos Estados Unidos, e usava seu dinheiro e influência para construir hospitais tanto nos Estados Unidos quanto em aldeias pobres da África.

Mas seu posicionamento social incomodava, ao ponto de em 1949 a famosa revista Variety pedir a demissão do ator de um programa de rádio, por ele ser "muito controverso".

No mesmo ano, ele foi uma das primeiras pessoas perseguidas pelo senador Joseph Macharthy. O FBI propôs "limpar o nome" de Lee, caso ele denunciasse o colega e amigo Paul Roberson, mas ele se negou. Lee acabou entrando para a "lista negra" de pessoas que não poderiam mais trabalhar em Hollywood, ao lado de Roberson e tantos outros.

Sua colega de palco, Hilda Simms, também foi incluída na lista, encerrando a sua promissora carreira cinematográfica.

Entre as acusações de subversão contra o ator, constava o romance interracial com a editora Carrese Crosby, com quem ele havia namorado em 1934.


Paul Roberson e Canada Lee


Sem poder trabalhar nos Estados Unidos, ele conseguiu um importante papel em Os Deserdados (Cry, Beloved Country, 1951), um filme inglês que ele fez ao lado de Sidney Poitier. Canada Lee vivia um reverendo sul africano, e o filme tinha uma forte mensagem contra o racismo. 

Mas ainda muito abalado com tudo que havia sofrido nos Estados Unidos, o ator sofreu o primeiro ataque cardíaco durante as filmagens.


Sidney Poitier e Canada Lee em Os Deserdados

O filme foi aclamado pela crítica internacional. Ele venceu o Festival de Berlin, foi indicado ao Bafta e concorreu ao prêmio de Melhor Filme no Festival de Cannes. Mesmo banido de Hollywood, Canada Lee ainda incomodava aos americanos.

Os grandes estúdios impediram que ele continuasse filmando na Inglaterra, e ele foi para à Itália, onde iria protagonizar uma versão cinematográfica de Otelo, o grande sonho de sua vida, mas ao chegar no país a embaixada confiscou seu passaporte, para "análise", impedindo assim que ele atuasse. O mesmo aconteceu quando ele foi escalado para um filme argentino, que também removeu o ator do elenco.

Canada Lee estava artisticamente destruído. O ator não resistiu a pressão, e sofreu outro ataque cardíaco, que o deixou em coma. Dez dias depois, em 09 de maio de 1952, Canada Lee faleceu, aos 45 anos de idade.

Seu filho, Carl Lee, também foi ator.


Ron O'Neal e Carl Lee em Superfly (1972)




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