Judy Holliday, a estrela vencedora do Oscar, perseguida pelo Macarthismo


Com uma carreira tão curta quanto a sua breve vida, Judy Holliday fez um enorme sucesso ao estrelar a comédia Nascida Ontem (Born Yesterday, 1950), que fez dela uma das poucas comediantes vencedora de um Oscar de Melhor Atriz por um papel cômico.

Porém, seu meteórico estrelato foi abruptamente interrompido quando ela foi acusada de "atividades anti-americanas", que a impediu de trabalhar por se negar depor contra amigos e colegas no comitê comandando por Joseph Macarthy, um senador que perseguia "a ameaça do comunismo", em um movimento histérico que prejudicou muitas pessoas, e destruiu muitas carreiras (e até vidas) em Hollywood.


Judy Holliday em Nascida Ontem

Judith Tuvim nasceu em Nova York, em 21 de junho de 1921. Prematura, sua mãe entrou em trabalho de parto enquanto assistia um espetáculo da Broadway, fazendo com que a atriz quase "nascesse dentro de um teatro".

Aos quatro anos de idade ela começou a estudar balé, e passou a atuar em teatros amadores enquanto ainda estava no ensino médio. E seu primeiro trabalho artístico foi como assistente de operador de mesa de luz no Mercury Theatre, de Orson Welles, onde posteriormente ela passou a atuar.

Em 1938 ela ingressou no grupo The Revuers, que contava também com nomes como Betty Comden e Adolph Green, e com Leonard Bernstein, como pianista, em algumas apresentações. Os The Reveuers chegaram a gravar um disco, em 1940.



Em 1938 ela estreou no cinema, fazendo figuração em Johnson é Demais (Too Much Johnson, 1938), uma comédia independente dirigida pelo jovem Orson Welles.

Judy voltaria ao cinema somente em 1944, como membro dos Revuers, acompanhando um número musical de Carmen Miranda em Serenata Boêmia (Greencwich Village, 1944), mas a cena foi cortada na ilha de edição.

Ainda em 1944, Judy faria figuração em outro filme de Carmen Miranda, Alegria, Rapazes (Something for the Boys, 1944). No mesmo ano, os Revuers foi extinto.


Judy Garland e Carmen Miranda em Alegria, Rapazes


Ainda em 1944, Judy Holliday conseguiu seu primeiro papel importante no cinema, atuando em Encontros nos Céus (Winged Victory, 1944), que não tinha Carmen Miranda no elenco, mas tinha o militar Sacha Brastoff imitando a estrela brasileira.

Foi neste filme que ela adotou os cabelos platinados, que se tornariam uma marca de sua carreira. E embora ela normalmente fizesse papéis de "loiras burras", era uma pessoa muito inteligente, com um QI de 172 pontos. Judy, uma atriz ainda em busca da fama, e com uma forte veia cômica, disputava muitos papéis com Lucille Ball, iniciando uma rivalidade entre elas, como vista no filme Apresentando os Ricardos (Being the Ricardos, 2021).


Judy Holliday e Jo Carroll Denninson em Encontros no Céu


Em 1945 Judy estreou na Broadway, e foi eleita a atriz revelação daquele ano. No ano seguinte, foi a Billie Dawn em Born Yesterday, de Garson Kanin. O escritor havia criado o papel para Jean Arthur, mas ele acabou desistindo da peça. O sucesso da produção fez de Judy Holliday uma estrela.

A Columbia comprou os direitos para adaptar o filme para o cinema, Harry Cohn, diretor do estúdio, não queria nenhuma atriz desconhecida em Hollywood como protagonista. Kanin então escreveu o roteiro de A Costela de Adão (Adam's Rib, 1949), e chamou seus grandes amigos Katharine Hepburn e Spencer Tracy para estrelar, dando um papel de coadjuvante de destaque para Holliday.

Hepburn, Tracy e Kanin então começaram uma grande campanha junto a Cohn para ele que ele aceitasse Judy como a estrela de Nascida Ontem (Born Yesterday, 1950).


Judy Holliday e Katharine Hepburn em A Costela de Adão



Judy Holliday no trailer de Nascida Ontem



Judy Holliday ganhou o Oscar pelo desempenho, derrotando inclusive Gloria Swanson por Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), além de derrotar também Eleanor Parker, Bette Davis e Anne Baxter (as duas últimas, concorrendo pelo mesmo filme, A Malvada).

E em 1951, foi duplamente indicada ao Globo de Ouro,  como Melhor Atriz Coadjuvante por A Costela de Adão e como Melhor Atriz por Nascida Ontem, onde foi agraciada a vencedora da noite.



Gloria Swanson na festa pós Oscar, ao lado de Judy Holliday


Mas apesar do enorme sucesso feito pela atriz, sua carreira foi abruptamente abalada. Os Estados Unidos estavam em meio de uma onda conservadora que gerou uma histeria coletiva que temia "o comunismo". Liderada pelo senador Joseph Macarthy, diversos artistas e profissionais de cinema foram chamados para depor, e eram obrigados a delatarem amigos e colegas que praticavam "atividades anti-americanas".

Uma devassa foi feita em Hollywood, e muitos artistas foram impedidos de trabalhar, inclusive Charles Chaplin, que deixou o país em profunda melancolia. O ator Canada Lee foi outro banido da indústria cinematográfica, condenado por ter construído um hospital gratuito em um bairro carente de Nova York. 

A primeira relação de nomes subversivos, chamada de "lista negra", incluía nomes como os de seus amigos Leonard Bernestein, Ruth Gordon e Garson Kanin. Betty foi chamada para depor contra ele, e se recusou, e também acabou incluída na infame "lista negra".

Como consequência, os papéis desapareceram por completo.




Alguns anos depois, o senador Mcarthy foi envolvido e condenado por vários escândalos de corrupção, e logo sua cruzada contra a "ameaça comunista" caiu em descredito. Muitos atores não conseguiram se recuperar do estrago causados em sua carreira, mas Judy Holliday conseguiu retornar ao cinema, mas o hiato forçado reduziu em muito suas chances de estrelato.


Garson Kanin e sua esposa Ruth Gordon (que era roteirista e atriz), e haviam sido banidos de Hollywood, escreveram o roteiro de Da Mesma Carne (The Marrying King, 1952) para marcar o retorno de Judy Holliday ao cinema.

 Judy Holliday recebeu uma indicação ao Bafta por este papel.


Aldo Ray e Judy Holliday em Da Mesma Carne



Foi Kanin quem também fez o roteiro de seu filme seguinte, Demônio de Mulher (It Should Happen to You, 1954), que ela estrelou ao lado de Jack Lemmon, com quem ela também contracenou em Abaixo o Divórcio (Phffft, 1954).



Judy Holliday e Jack Lemmon em Abaixo o Divórcio


Seu retorno a Hollywood pouco fez pela sua carreira após o banimento. Judy ficou dois anos sem receber um novo convite, até que estrelou O Cadillac de Ouro (The Solid Gold Cadillac, 1956), que lhe rendeu uma nova indicação ao Globo de Ouro.



Cartaz de O Cadillac de Ouro



Sem muitos convites para o cinema, ela retornou à Broadway, em Bells Are Ringing, escrita por seus amigos Betty Comden e Adolph Green. A peça lhe rendeu um Tony de Melhor Atriz. Quatro anos depois, a atriz estrelou a versão cinematográfica da peça, contracenando com Dean Martin em Essa Loira Vale Um Milhão (Bells Are Ringing, 1960), seu último trabalho no cinema.



Judy Holliday e Dean Martin em Essa Loira Vale Um Milhão



Judy Holliday nunca mais trabalharia no cinema, e em 1960 descobriu um câncer na garganta, precisando remover o tumor. Ela chegou a ensaiar uma nova peça, dirigida por Alan J. Pakula, mas seu estado de saúde acabou piorando, e ela deixou o elenco.

A atriz descobriu posteriormente um novo câncer, agora de mama, e sua saúde começou a se deteriorar. Em 07 de junho de 1965 Judy Holliday faleceu, com apenas 43 anos de idade. Na época, ela morava no famoso edifício Dakota, onde John Lennon morava quando foi assassinado.


Judy Holliay, em 1964


Holliday foi casada com o clarinetista David Oppenheim (entre 1948 e 1958), e ele era o pai de seu único filho Jonnathan Oppenheim, que se tornou editor de cinema anos mais tarde.

Na época em que morreu, ela namorava o músico de jazz Gerry Mulligan.


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