É Fake! Chaplin participou de um concurso de sósias e ficou em terceiro lugar



Você já deve ter visto nas redes sociais uma postagem que diz que o gênio Charles Chaplin participou de um concurso de sósias, e perdeu, ficando em terceiro lugar.

Fazendo uma busca rápida pelo Facebook, é possível ver que a informação já foi compartilhada milhares de vezes, e sempre obtém muita repercussão. Mas esta é mais uma das fake news que circularam na internet. E o pior, esta lenda urbana já tem mais de 100 anos de idade.

Compartilhamentos do suposto concurso de sósias que Chaplin perdeu (no Facebook)


Existem muitas versões do boato, mas a maioria delas diz que o ator e diretor teria participado de um concurso na França, em 1975 (!), e usam a foto que estampa a capa desta matéria, como sendo a foto do tal concurso.

Claramente é possível ver que a foto não é de 1975. O boato surgiu a primeira vez em 1920. E a foto em questão foi feita posteriormente a circulação da informação falsa, em 05 de novembro de 1921.

Ela foi tirada em frente ao cinema Liberty, em Washington. Ela retrata sim um concurso de sósias de Chaplin, promovido pelo cinema como forma de divulgação do filme Os Clássicos Vádios (The Idle Class, 1921), estrelado por Carlitos, que não participou do evento.

A foto foi tirada pelo fotógrafo J.W. Sandison.

A história tem várias versões, o que já demonstra ser um boato mal contado, uma espécie de telefone sem fio, onde cada interlocutor conta um fato diferente. Uns dizem que o ator ficou em  20° lugar, 27° lugar ou em 2° lugar.

O próprio Chaplin desmentiu a história, em uma entrevista em 1966. 

Como Surgiu o Boato?




Em 10 de Agosto de 1920 o The Straits Times, um jornal de Singapura, publicou a seguinte nota:




Na tradução, a nota do jornal diz: Lord Desborough, presidindo um jantar do clube Anglo-Saxão, contou uma história que terá uma vida duradoura. Vem de Miss Mary Pickford, que disse a Lady Desborough, ‘Certo dia, Charlie Chaplin estava numa feira nos Estados Unidos, onde a principal atração era uma competição para ver quem poderia imitar melhor a caminhar de Charlie Chaplin. O verdadeiro Charlie Chaplin achou que poderia ter uma chance, então ele se inscreveu, sem seu famoso bigode e suas botas. Foi um tremendo fracasso, e ficou na vigésima colocação”.

O mesmo texto saiu em outros jornais pelo mundo todo, sem mudar uma vírgula. Já um jornal Australiano, em 1921, comentou a notícia de forma diferente:

Uma competição de imitadores de Charlie Chaplin foi realizada na Califórnia recentemente. Havia cerca de 40 competidores e, Charlie Chaplin, de brincadeira, entrou no concurso com um nome falso. Ele se fez passar por seu conhecido personagem. Mas ele não venceu; ele ficou em 27º lugar na competição".

Um ano depois da primeira nota, Chaplin já tinha caído 7 posições no ranking do concurso. Aliás, nunca vi um concurso dar a classificação de todos os candidatos, pois normalmente apenas os primeiros classificados são anunciados pelos jurados.

A fundação Charles Chaplin recentemente até se manifestou sobre o assunto, dizendo: "Esta anedota contada por Lord Desborough, seja quem ele for, foi amplamente divulgada na imprensa britânica na época. Não há outras referências a tal competição em nenhum outro álbum de recortes de imprensa, então posso apenas assumir que essa é a fonte daquele boato, mito urbano, seja o que for."

No livro Tramp: The Life of Charlie Chaplin, publicado em 1996 é mencionado que Chaplin teria participado do concurso em 1915. Nos diz o livro (já traduzido): As casas de Vaudeville ainda exibiam filmes em 1915, e muitas estavam reverberando a moda de Charles Chaplin ao promover concursos de imitadores. Entre os primeiros vencedores estava Bob Hope, que levou o primeiro prêmio num concurso realizado em Cleveland. O próprio Charlie não teve tanta sorte. Quando ele entrou num concurso promovido por um teatro em São Francisco, ele não conseguiu nem chegar às finais. ‘Eu me senti tentado a dar aulas  sobre o caminhar de Chaplin’, disse ele a um repórter, ‘por pena e também pelo desejo de ver a coisa feita corretamente."

O livro cita que a informação foi tirada do jornal Chicago Tribune, de 15 de julho de 1915. Porém, outros biógrafos do artista, que foram atrás de tal publicação, não acharam a referida nota nos jornais arquivados. Bob Hope, citado na suposta matéria, de 1915, realmente participou de concursos imitado Chaplin, quando tinha 12 anos de idade. Mas ele só começaria a ganhar fama em 1934, e dificilmente seria creditado em uma matéria de 1915, até porque na época ainda usava seu nome de batismo, Leslie Hope (ele adotou o nome Bob somente em 1929).

Repare ainda que nenhuma nota divulgada na imprensa da dados com os quais trabalham o jornalismo. Em qual teatro ocorreu o concurso? Em que data ele foi realizado? Qual o nome do concurso? Onde ficava este tal clube Anglo-Saxão? Em que data tal jantar foi realizado?

E sobre a foto, compartilhada muitas vezes, algumas até circulando o suposto Chaplin no concurso, se dermos um zoom na imagem, vemos claramente que os participantes eram crianças.



A história até transmite uma mensagem bonita, edificante, que diz para nunca levar a opinião dos outros e confiar no seu talento. Mas é falsa.




É mais uma daquelas histórias da internet, amplamente compartilhada. No meio cinematográfico, constantemente alguém posta fotos de Sarita Montiel (e as vezes de Maria Felix), como sendo a jovem Angelines Fernandes (a "Bruxa do 71" do Chaves) ou mostram o vídeo (trecho do filme O Grande Caruso) de um menino cantando com Mário Lanza, alegando ser o jovem Luciano Pavaroti (outra fake news cinematográfica).







Curta nossa página no Facebook
Se inscreva no nosso canal do Youtube
Siga também nosso Instagram


2 comentários:

  1. Sendo falsa ou não .nos mostra uma reflexão de realidade, vc só será importante para alguém até o dia que estiver prestando algum serviço.

    ResponderExcluir
  2. No final fica bem explicado se for pra depender da opinião alheia nunca seremos capazes de tal fato.

    ResponderExcluir

Se inscreva no nosso canal no Youtube

Postagem em destaque

A viagem de Clark Gable ao Brasil