Lupita Tovar, uma Pioneira que Viveu 106 Anos

Lupita Tovar foi uma atriz mexicana dos tempos do cinema mudo. Ela nasceu em 26 de julho de 1910, em Matías Romero, Oxaca. Guadalupe Natalia Tovar é uma atriz hoje pouco lembrada, mas de grande importância para a história do cinema, em especial para o público latino.

Filha mais velha de nove irmãos, a pequena Gadalupe (Lupita, no diminutivo espanhol) cresceu em uma família muito pobre, durante a Revolução Mexicana. Tinha apenas 7 anos quando mudou-se com a família para a Cidade do México, onde seu pai arrumou um emprego na construção de estradas de ferro.

Em 1926 a Fox Film Corporation (o estúdio não havia se fundido com o Twentieth Century Pictures) promoveu um concurso para revelar astros latinos em diversos países do mundo. Com muita publicidade foram iniciadas as buscas por novos atores no México, Brasil, Espanha, Itália, Chile e Argentina. Homens e mulheres que sonhavam com um contrato em Hollywood se inscreveram em peso para fazerem os testes, realizados por nomes importantes da indústria cinematográfica norte-americana.

O responsável pelos testes no Brasil foi o cinegrafista Paul Ivano, que havia sido diretor de fotografia de filmes como Salomé (Idem, 1922), com Alla Nazimova e Ben Hur (Ben-Hur: A Tale of the Christ, 1925), com Ramon Novarro. No México foi Robert Flaherty, diretor do documentário Nanook do Norte (Nanookof the North, 1922), quem realizou os testes.

Lupita Tovar

Ao término do concurso foram escolhidos os brasileiros
Lia Torá e Olympio Guilherme como representantes do Brasil, e Lupita Tovar foi a vencedora mexicana. Não houve um vencedor masculino no México, e ninguém foi escolhido no Chile ou Argentina.


Na verdade, o concurso era uma grande fraude publicitária, cujo maior intuito era promover o nome do estúdio nos países onde ele fora realizado. Todos os vencedores, apesar de contratados, ficaram relegados a pequenos papéis e figurações não creditadas. Olympio Guilherme chegou a mendigar pelas ruas de Nova York, com vergonha de contar para sua família a sua real situação. Pior sorte teve Antonio Cumellas, o vencedor espanhol, que teve o contrato rescindido  e sem trabalho, foi deportado para seu país, retornando em meio à guerra civil espanhola, que lhe tirou a vida em 1933 (com apenas 24 anos).

Leia mais sobre Antonio Cumellas aqui.

Antonio Cumellas

Lupita ficou morando com a avó, uma imigrante irlandesa que morava em Los Angeles, à espera dos papéis que nunca vinham. Lia Torá, a vencedora brasileira, era uma mulher de posses, casada com o Visconde Morais, e não aguentando mais a espera pela grande chance e envergonhada com uma carreira considerada uma piada em seu país, escreveu junto com o marido o roteiro de Mulher Enigma (The Veiled Woman, 1929), e ofereceu-o para Fox, que o recusou.

Julio de Morais, o marido de Lia, então perguntou quanto custava produzir um filme e disse que pagava todas as despesas, desde que sua esposa fosse a protagonista. Sem ter nada a perder, o estúdio aceitou a proposta.

Conheça mais sobre Lia Torá, a primeira brasileira em Hollywood


Foi em Mulher Enigma que Lupita Tovar teve sua primeira oportunidade, sendo o primeiro filme em que ela foi creditada (embora tivesse feito figurações em outros filmes). Também foi o primeiro filme norte-americano em que atuou o húngaro Bela Lugosi (que anos mais tarde se tornaria o Drácula mais famoso do cinema).

Mas Mulher Enigma foi um fracasso de bilheterias. O filme ainda era mudo, no auge da transição do cinema falado, e ninguém mais queria ver filmes silenciosos. Além disto, Lia e Julio nada entendiam de distribuição, e assinaram um contrato que lhes obrigava a pagar todas as despesas, mas não obrigava o estúdio a distribuí-lo ou fazer publicidade do mesmo. Apenas no Brasil, por causa da atriz patrícia, que o filme teve alguma repercussão, ganhando até uma valsa homônima de J. Harrison e Olegário Mariano, gravada por Francisco Alves. Infelizmente, o descaso com o filme fez com que ele hoje se encontra perdido.

Lupita em Mulher Enigma

Lupita continuou a fazer pequenos papéis sem grande destaque, até que foi chamada para estrelar a versão espanhola de Drácula (Dracula, 1931). Com a chegada do cinema falado, Hollywood não conseguia vender seus filmes falados em inglês para diversos países do mundo. Sem ainda ter descoberto o processo de dublagem ou legendagem, a solução que encontrou para não perder mercado foi produzir o mesmo filme, com atores diferentes, falando diversos idiomas. Assim, foram feitas versões em russo, espanhol, chinês, polonês e até inglês britânico para agradar os ingleses que se recusavam a ver filmes com sotaque americano. Também foram feitos, poucos, filmes falados em português.

Geralmente as versões eram produções menores, baratas, com atores desconhecidos, e não agradavam muito ao público, que queria ver as estrelas que já conheciam, e não atores desconhecidos e de pouco estrelato. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, esta prática foi abandonada.

O Drácula mexicano, porém, é uma produção que se sobressaiu. O produtor Paul Kohner convenceu Carl Laemmle, o dono do estúdio, a deixar a equipe da versão latina usar os mesmos cenários e equipamentos da produção original. Assim, Bela Lugosi durante o dia vestia a capa de Drácula, e a noite, a mesma era usada pelo espanhol Carlos VilarríasLupita interpretava o papel originalmente feito por substituía Helen Chandler, a mocinha da obra. Além disto, o diretor da versão latina George Melford era um diretor muito mais talentoso que Tod Browing, que dirigiu a versão oficial. Muitos críticos hoje afirmam que o Drácula latino é uma versão melhor do que o original.

Carlos Vilarrías e Lupita na versão espanhola de Drácula

Em 1932 Lupita casou-se com o diretor Paul Kohner, que havia lhe dado a oportunidade de protagonizar Drácula. Ficaram casados até 1988, quando ele faleceu.

Paul Kohner e Lupita

Foi em 1932 também que ela estrelou Santa (Idem, 1932) o primeiro filme falado realizado no México. Baseado em um livro muito famoso, contava a história de uma menina inocente que é seduzida e abandonada por um soldado. Expulsa de casa pela desonra, acaba se prostituindo pelas ruas da cidade. O filme fez tanto sucesso na época, que Lupita passou a estampar um selo emitido pelo governo mexicano.


A atriz passou a se revezar entre produções mexicanas e americanas. Sendo estrela em seu país, mas ainda pouco aproveitada em filmes americanos. Cansada de esperar o grande papel que nunca vinha, Lupita Tovar abandonou a carreira na década de 40, passando a se dedicar aos filhos e a família.

Lupita Tovar e Buster Keaton

Seus filhos também seguiram carreira no cinema. Susan Kohner, a filha mais velha, concorreu ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Imitação da Vida (Imitation of Life, 1959). Por este mesmo filme, levou o Globo de Ouro na mesma categoria (ela havia ganho o Globo de Ouro de atriz revelação no ano anterior). Já Pancho Kohner Jr. foi produtor de filmes como Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown (Death Wish 4: The Crackdow, 1987), protagonizado por Charles Bronson. Seus netos Chris e Paul Weitz são diretores de filmes como American PieA Primeira Vez é Inesquecível (American Pie, 1999) e Um Grande Garoto (About a Boy, 2002).

Susan Kohner

Juanita Moore e Susan Kohner em Imitação da Vida

Em 2006 a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas promoveu uma festa chamada “Uma Saudação a Lupita Tovar” e lhe conferiu um diploma por seu conjunto de obra (ato bastante criticado por alguns, que acharam que a atriz seria merecedora de um Oscar especial e não apenas um diploma). Em 2011 seu filho escreveu o livro Lupita Tovar - The Sweetheart Of  México.

 Lupita sendo homenageada em 2006

Pancho, Lupita e Susan em 2006


Lupita Tovar, foi uma das últimas atrizes da era do cinema mudo que viveu entre nós. Ela faleceu em 12 de novembro de 2016. Ela vivia na casa de seu filho Pancho em Los Angeles, onde  chegou a comemorar seus 106 anos de vida.

Lupita autografando cartaz do filme
Fanfarronadas (The Invader, 1936), aos 105 anos.


Veja também: Lia Torá, a Primeira Brasileira em Hollywood




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