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Rudolph Florentino, O Valentino do Brás


Durante a Primeira Guerra Mundial, a indústria cinematográfica europeia, que já estava muito avançada, teve sua produção praticamente interrompida devido ao violento conflito que assolava o continente. Com isto, o cinema norte-americano teve um enorme crescimento e projeção mundial, promovendo Hollywood à “Meca do Cinema”.

Muitos imigrantes deixavam o velho mundo arrasado pelo combate, em busca de uma vida melhor. E a América recebeu um grande número de imigrantes, de diversas nacionalidades, em busca do propagado “sonho americano” na “terra da liberdade”. E como até o final da década de vinte o cinema ainda era mudo, até um imigrante que nem falasse inglês tinha a oportunidade de se tornar um astro das telas cinematográficas.

E talvez o maior símbolo do imigrante europeu pobre, e com um inglês ruim, que alcançou o estrelato seja o italiano Rudolfo Alfonso Raffaello Pierre Filibert Guglielmidi Valentina D'Antonguolla, ou simplesmente Rudolph Valentino, como o mundo aprendeu a admirá-lo. Ou Rodolfo Valentino, como o chamávamos no Brasil.

Rudolph Valentino

Valentino foi a personificação do galã latino, o “latin lover” mistificado pelas telas e que arrastou milhares de mulheres às salas de cinema do mundo inteiro. Os suspiros gerados pelas fãs do ator (e principalmente, a bilheteria que ele proporcionava) fez com que todos os outros estúdios quisessem ter o seu próprio “Novo Valentino”.

Alguns atores conseguiram mesmo alcançar o status de astros latinos na época, como os mexicanos Ramon Novarro e José Mojica (que viraria padre anos mais tarde), outros nem tanto, como foi o caso de Paul Vincenti, que apesar de ser chamado por um tempo de “o novo Valentino”, desapareceu após uma carreira muito curta e de pouco sucesso. Em tempo, Vincenti nem era latino, mas húngaro de nascimento.


Paul Vincenti

O Brasil também teve os seus aspirantes a Valentinos, o primeiro deles foi Olympio Guilherme, um paulista de Bragança. Vencedor do “Concurso de Photogenia Varonil” promovido pela Fox em 1926, pleito que buscava revelar novos astros latinos (masculinos e femininos) e teve seleções no Brasil, Itália, Espanha, México, Argentina e Chile.

Poucos meses depois do início das inscrições, com a seleção ainda acontecendo, Valentino veio a falecer subitamente, em 23 de agosto de 1926, após uma crise de peritonite mal tratada, com apenas 31 anos de idade.O ator morreu no auge do sucesso e em seu enterro milhares de mulheres se amontoaram aos prantos para se despedir do ídolo. Algumas passavam mal, outras desmaiaram, outras chegaram literalmente a morrer de tristeza.

Tristeza também foi o que sentiu Olympio Guilherme quando descobriu que, embora contratado, o concurso não passava de uma fraude publicitária para promover o estúdio nos países onde ele ocorreu. Guilherme virou figurante, passou fome e humilhações e voltou ao Brasil desiludido do cinema e dos Estados Unidos. Mas durante sua estada, junto com Lia Torá (a vencedora feminina do Brasil), encabeçou a comunidade de brasileiros tentando a vida em Hollywood no período. E entre eles, tínhamos ao menos mais dois outros aspirantes a Valentino: Rudolph Galante e Rudolph Florentino.


Conheça Lia Torá, a primeira brasileira em Hollywood


Rudolph Gallante (1902-1971) era de Campinas e chegou à América dançando tango e maxixe, danças mundialmente populares na época. Chamou a atenção dançando em boates e cabarés em Los Angeles e atou atuou como extra e em pequenos papéis que necessitassem de um brasileiro ou latino em filmes como O Último Vôo (The Last Flight, 1931), Primavera em Otono (1933) e Voando Para o Rio (Flying Down to Rio, 1933). Galante chegou mesmo a trabalhar com verdadeiro Rudolph Valentino em Monsieur Beaucaire (1924), fazendo figuração. Também trabalhou com José Mojica, em La Cruz y La Espada (1934), e foi partner de Ann Miller, quando esta era ainda uma desconhecida, no começo de carreira.


Rudolph Galante

Seu “rival”, Rudolph Florentino, também era do estado de São Paulo, paulistano do bairro do Brás. Nascido em 08 de julho de 1903, e chamava-se na verdade Dominik Giordano. Assim como Valentino, Dominik era de família de imigrantes italianos, que migraram para o Brasil em busca de oportunidades de trabalho. Porém a saudade da terrinha bateu, e a família retornou à Itália quando o menino tinha apenas 04 anos de idade.


Rudolph Florentino

Adulto, mudou-se para os Estados Unidos, para tentar seu lugar ao sol na terra do cinema. L. S. Marinho, correspondente estrangeiro da Revista Cinearte em Los Angeles, nos apresenta o ator patrício, na edição da revista, de 12 de novembro de 1930: “Rodolpho Florentino (...) é um dos últimos do nosso ‘grupinho’ daqui. Fala pouco brasileiro, porque foi muito pequeno para a Itália. No entanto, não deixa de ser brasileiro, é lógico. Vi-o pela primeira vez, dansando numa fita qualquer da R.K.O. É um concorrente do Gallante. Dansa tangos e inventa dansas acrobaticas que nem sempre são desinteressantes. Dansa em ‘cabarets’ e theatros de variedades. Tem viajado todos os Estados Unidos, em ‘tournées’ e provavelmente deixará Hollywood para procurar melhores contractos... Felicidades.

Florentino, como era comum com os extras, quase nunca teve seu trabalho creditado, o que torna quase impossível levantar sua filmografia. Mas sabemos que ele trabalhou com Rudolph Valentino fazendo um pequeno papel naquele que foi o seu maior fracasso, o filme The Hooded Falcon (1924). Também foi seu dublê de danças em algumas cenas de O Filho do Sheik (The Son of The Sheik, 1926).



Rudolph Florentino

Sem muito sucesso como ator, como havia previsto Marinho, desistiu da carreira, mas nunca desistiu do mito. E apesar de ter trabalhado como garçom, soldador de bronze, mecânico de avião e professor de dança, nunca desvinculou-se de Valentino. Na verdade, tornou-se um de seus fãs mais obcecados.

Rudolph Florentino viveu à sombra do astro, e transformou seu apartamento (localizado em cima do antigo Apollo Theater, no 5546 ½ da Hollywood Boulevard) em um verdadeiro mausoléu dedicado à memória do falecido ator. Buscando viver como seu ídolo, transformou sua sala de estar em uma cena do filme O Sheik (The Sheik, 1921), com direito a uma tenda árabe e areia no chão. Nas paredes exibia muitas fotografias, e também possuía uma vasta coleção de relíquias originais, como o chapéu de gaúcho que o ator usou em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (The Four Horsemen of The Apocalypse. 1921). Dizia ter ganho do próprio, quando trabalhou como seu segurança em sua mansão, batizada de Falcon Lair (o covil do falcão, na tradução para o português).


Rudolph Florentino, em sua casa

Seu acervo e sua idolatria cresceu tanto, que ele transformou sua casa em um museu, o Valentino Memorial Shrine, e James Kirkwood, antigo ator do cinema mudo e amigo de Valentino, compareceu à inauguração. Muitos anos após a morte de Rudolph Valentino, o brasileiro manteve-se fiel à sua memória, dedicando seu tempo e sua vida em reviver o mito morto precocemente.

Em 1953 alguns vizinhos chamaram a polícia devido ao barulho que vinha do apartamento. Os policiais atônitos relataram terem sido recebidos por um homem com vestes árabes em um apartamento cheio de areia no chão, com um grupo de mulheres de meia idade vestidas de odaliscas dançando ao seu redor.

Em 13 de agosto de 1956 o The Milwaukee Jornal, entrevistou-o, relembrando os trinta anos da morte do ator. Ele declarou ao repórter que “quando eu trabalhei para o Valentino, me parecia tanto com ele que as pessoas me chamavam de ‘pequeno Rudy’, então mudei meu nome para seguir seus passos.” O obcecado fã ainda contou que possuía um grupo chamado “Sons of Italy”, que promovia a “Valentino Night” em um restaurante no Hollywood Bowl, e disse que pretendia fazer um filme sobre a vida do ator, e criticou o filme Rodolfo Valentino (Valentino, 1951) protagonizado pelo ator Anthony Dexter. Segundo Florentino, “apenas ele próprio tinha as qualificações, seus maravilhosos olhos e seu magnetismo”, e apresentou sua pupila, uma dançarina de dança do ventre a quem ele chamava de Theda Zara (uma referência explicita a antiga vamp do cinema mudo Theda Bara).

Não existem registros que provem que Rudolph Florentino, o pseudônimo do brasileiro Dominick Giordano, realmente trabalhou na Falcon Liar, mas sabemos que em 1949 o milionário Gerald “Gispy” Buys, que havia comprado a mansão em 1946, convidou Florentino para visitá-la. Gipsy Buys também era obcecado pelo ator e promovia sessões espíritas para tentar invocar seu espírito para que ele voltasse a residir em sua antiga morada. Vestido a caráter, Florentino participou de algumas dessas sessões. Sem sucesso nas tentativas de trazer de volta a alma do ator, Buys vendeu a casa em 1950. O comprador foi outro artista brasileiro que fazia carreira em Hollywood, o músico Russo do Pandeiro, que também nasceu no bairro do Brás.


Florentino e a médium Carol McKinstry, em uma sessão espírita na Falcon Liar


Florentino, que virou uma figura folclórica na lenda de Valentino (assim como a Dama de Negro, que por anos visitou seu túmulo, coberta com um manto negro que escondia seu rosto), chegou a participar de alguns programas de televisão, como o de Groncho Marx, na década de 50. Na década de 70, apesar de cultuar o mito do latin lover do cinema mudo, também passou a se interessar pela espanhola Sarita Montiel.

Rudolph Florentino, diante de fotos de Sarita Montiel, em 1972

Rudolph Florentino faleceu em 08 de dezembro de 1978, aos setenta e cinco anos. O prédio do Apollo Theater, onde ele morava, foi demolido pouco depois junto com o memorial que ele construiu.


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