Atriz Maria Fernanda completa 95 anos de idade


A atriz Maria Fernanda é dona de uma das mais respeitáveis carreiras do Brasil. Grande dama do cinema, teatro e televisão, ela deu via a alguns dos papéis mais importantes da dramaturgia mundial, seja nos palcos ou nas telas.


Maria Fernanda Meirelles Correia Dias nasceu no Rio de Janeiro, em 27 de outubro de 1925. Filha da poetisa Cecília Meireles e do pintor Fernando Correia Dias, que se suicidou quando a menina tinha dez anos de idade.

Cecília Meirelles

Em 1948 Maria Fernanda inicia seus estudos teatrais no Teatro do Estudante do Brasil (TEB), de Paschoal Carlos Magno, e participa de peça Hamlet (1948), passando a adotar profissionalmente o nome de Maria Fernanda. Ela não era completamente inexperiente, já tendo participado do filme Sempre Resta Uma Esperança (1946).

Na década de 1940 existe outra atriz brasileira usando o nome de Maria Fernanda nos palcos. Ela chegou a participar da montagem de Vestido de Noiva, em 1945. Entretanto, são artistas distintas.

(foto do acervo da coleção de Marcelo Del Cima)

Em 1949, após interpretar um menino na peça O Carteiro do Rei (1949), Maria Fernanda ganhou uma bolsa de estudos no lendário Old Vic, em Bristol. Ela permaneceu alguns anos na Inglaterra, onde chegou a ser contratada da BBC. Antes de deixar o Brasil, atuou em A Mulher de Longe (1949), seu segundo filme, que entretanto não foi finalizado, por falta de verba (o filme foi concluído e lançando apenas em 2013).

Maria Fernanda em O Carteiro do Rei

Maria Fernanda e o diretor Lucio Cardoso, nos bastidores de A Mulher de Longe

De volta ao Brasil, retornou ao teatro. Na Companhia Dramática Nacional a atriz consagra-se em peças colo As Casadas Solteiras, Senhora dos Afogados e Cidade Assassina, todas de 1953. No mesmo ano atua em Luz Apagada (1953), um clássico dos Estúdios da Vera Cruz.

Mário Sérgio e Maria Fernanda no filme Luz Apagada

Possuindo uma grande bagagem teatral, Maria Fernanda se rendeu a televisão, estreando em outubro de 1955, em um teleteatro na TV Rio.


Após atuar em diversos teleteatros, a atriz fez sua primeira telenovela, já na TV Tupi. Maria Fernanda viveu Scarlet O'Hara na novela ...E O Vento Levou (1956), baseada no livro que deu origem a um dos filmes mais famosos da história do cinema. Lima Duarte interpretava Rett Buttler, papel eternizado por Clark Gable nos cinemas. Saiba mais sobre ...E O Vento Levou, a novela, aqui.

Lima Duarte e Maria Fernanda em ...E O Vento Levou

Além de Scarlet O'Hara, Maria Fernanda também viveu Blance Dubois em uma adaptação de Um Bonde Chamado Desejo (1959), no programa TV de Vanguarda, fazendo na televisão dois papéis clássicos da atriz Viven Leigh. Em 1958 Maria Fernanda fez sua segunda novela, A Vida de George Sand (1958). Também na Tupi, era uma novela diurna, exibida as 14:30, durante o programa Revista Feminina, apresento por Abelardo Figueiredo.

Maria Fernanda além de protagonista, era a diretora da novela, cuja adaptação ficou por conta de Sérgio Viotti.

Egídio Écio e Maria Fernanda em A Vida de George Sand

Todas estas produções eram ao vivo, e como não existia videotape, não foram preservadas para a posteridade. Em 1960 Fernanda deixou a Tupi, rumo a Record, onde fez outra novela importante, Dr. Jivago (1960). Curiosamente, esta foi a primeira versão mundial do livro, publicado no ano anterior. A novela da TV Record foi ao ar muitos anos antes do filme estrelado por Omar Sharif. Leia mais sobre Dr. Jivago, a novela, aqui.

Maria Fernanda interpretava Lara.

Maria Fernanda e Allan Lima em Dr. Jivago

Ao mesmo tempo que brilhava no teatro e televisão, a atriz também encontrava tempo para trabalhar no cinema. Participando dos filmes Senhora (1955), Nobreza Gaúcha (1958) e Tumulto de Paixões (1958). 

Em 1953 ela também chegou a iniciar as filmagens de O Americano (The Americano), uma produção made in Hollywood, filmada no Brasil. Estrelado por Glenn Ford e Cesar Romero, Maria Fernanda dividiria os principais papéis femininos com a espanhola Sarita Montiel.

Porém, após muitos problemas de filmagens por aqui, o dinheiro da produção acabou, e a equipe foi embora. O Americano foi refeito todo em estúdio, nos Estados Unidos, e não aproveitou nenhuma imagem gravada no Brasil, e todo o elenco brasileiro também não foi reaproveitado. Mas em 1956 a atriz chegou a participar de uma produção norte-americana, The Amazon Trader (1956), um curta metragens da Warner Bros, que mostrava uma aventura na exótica Amazônia.

Anselmo Duarte e Maria Fernanda, em Senhora

Entre 1962 e 1963 ela também viveu Blance Dubois nos palcos, em duas ocasiões. A primeira delas, dirigida por Augusto Boal (em São Paulo), e a segunda por Flávio Rangel (no Rio de Janeiro). Pela montagem carioca, ganhou os prêmios Molière, Saci e Governador do Estado de 1963.

Em 1962 a atriz Viven Leigh veio ao Brasil em uma turnê teatral. Leigh foi apresentada a Maria Fernanda, que havia interpretado Scarlet O'Hara na televisão, e Blance Dubois (de Um Bonde Chamado Desejo) nos palcos e na TV. Ambas as personagens haviam sido interpretadas por Vivien, que recebeu um Oscar por cada uma dessas atuações.

Maria Fernanda, Vivien Leigh e Henritte Morineau, as três intérpretes de Blance Dubois

Vivien achou que Maria Fernanda parecia triste, e perguntou o que acontecia. A atriz respondeu que sua mãe, a poetista Cecília Meireles, estava doente, hospitalizada. Vivien Leigh então foi visitar Cecília no hospital, e lá ficaram amigas. Durante sua estada no Brasil Vivien visitou a escritora no hospital todos os dias. Mais tarde, Cecília publicaria um poema em homenagem a atriz inglesa.

Ainda em 1963, trabalha também como apresentadora do programa O Show é o Rio, na TV Rio, onde também apresentou o Programa Encontro no Barra Country, além de protagonizar a novela A Morta Sem Espelho (1963), na mesma emissora. Na TV Rio, ainda participou de Imitação da Vida (1964).

E ainda em 1963, vai para Paris, para estudar teatro com o mímico Jean Louis Barrault. Na década de 1960, dedica-se basicamente ao teatro, e  em 1965, protagoniza Santa Joana, de Bernard Shaw, dirigida por Flávio Rangel. E em 1970, recebe o Prêmio Molière por seu trabalho na montagem carioca de O Balcão, de Jean Genet, dirigida por Eros Martim. Volta a trabalhar com esse diretor em 1971, em Senhorita Júlia, de August Strindberg e Jardim das Delícias, de Fernando Arrabal.


Ainda na década de 1960, vale destacar uma curiosidade em sua extensa carreira. Dona de uma voz potente e marcante, a atriz gravou um disco, onde declamava sonetos de William Shakespeare, no ano de 1964.


Na década de 1970 Maria Fernanda conquista uma enorme popularidade ao atuar em diversas telenovelas, ficando marcada especialmente como Dona Sinhazinha Guedes Mendonça na bem sucedida Gabriela (1975). Ela ainda participaria de João da Silva (1973), O Grito (1975), Nina (1977) e Pai Herói (1979).

João Paulo Adour e Maria Fernanda, em Gabriela

Maria Fernanda e Paulo Autran em Pai Herói

Na década de 1970 também retorna ao cinema, atuando em Fim de Festa (1978) e Joana Angélica (1979). Algumas fontes, indicam erroneamente, alguns trabalhos da atriz em filmes espanhóis, no mesmo período, mas na verdade trata-se de uma artista homônima. 


Na televisão, a atriz ainda atuaria em Dulcinéia Vai à Guerra (1980), Nem Rebeldes, Nem Fiéis (1982), O Tronco do Ipê (1982), Moinhos de Vento (1983), Dona Beija (1986), Mania de Querer (1986) e Olho Por Olho (1988).

Maria Fernanda em Dona Beija, na Manchete

No cinema, ainda participou de J.S. Brown, o Último Herói (1980) e Chico Rei (1985), e teve uma brilhante atuação como a Rainha Dona Maria I em Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995). Em 2004 fez seu último filme, O Quinze.

Maria Fernanda em Carlota Joaquina

Maria Fernanda em O Quinze

Em 2005, após fazer a peça A Importância de Ser Fiél (2004-2005), a atriz se aposentou, aos 80 anos de idade. Mas por alguns anos ainda foi jurada do importante Prêmio Shell, de Teatro.

Lucida, e gozando de boa saúde, ela vive com o filho Luiz Heitor Fernando Meirelles Gallão, na cidade do Rio de Janeiro. Luiz Henrique é seu único filho, fruto do casamento com o diretor de televisão Luiz Gallon (com quem a atriz foi casada entre 1956 e 1963). Ela também foi casada com o produtor Oscar Araripe (entre 1963 e 1968). 

Reclusa, a atriz não gosta de dar entrevistas, e raramente deixa-se fotografar.

Maria Fernanda atualmente (foto do acervo da coleção de Marcelo Del Cima)




*** Matéria escrita com a gentil colaboração dos pesquisadores Daniel Marano, Gui Castro Neves e Marcelo Del Cima. 

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