Elza Gomes, o reconhecimento tardio de uma veterana atriz

Em 1982 Elza Gomes caiu nas graças do público como a tranbiqueira Dona Sinhá, a mulher que que criava gatos para fazer espetinhos, na novela Final Feliz (1982). Aos 72 anos, a veterana chegava a consagração, após sessenta anos de carreira. Infelizmente, este foi também seu adeus das telas.

Elza Gomes em Final Feliz

Poucos sabem que na verdade Elza Gomes, embora tenha feito sua longa carreira no Brasil, era portuguesa. Elza Gomes nasceu Luísa dos Santos Gomes, em 19 de outubro de 1910, na cidade de Lisboa.

Filha dos artistas João Antônio Gomes e Silvana Gomes, Elza Gomes perdeu o pai com apenas oito anos. Sua mãe mudou-se então para o Brasil e deixou as filhas com parentes, enquanto tentava ganhar a vida por aqui.

A atriz Silvana Gomes

Em 1911 a atriz Silvana Gomes estava contratada da Companhia Armando Vasconcelos e Mira Bastos e mandou buscar as três filhas, Candida, Gina e Elza Gomes (todas tornaram-se atriz), mas as despesas eram caras, e a companhia teatral se recusou a pagar as despesas de viagem e hospedagem das meninas de graça, que em troca tiveram que ingressar no elenco. E foi assim que Elza Gomes estreou no teatro, na peça Sorte Grande (1921). A menina tinha onze anos, e fazia o papel de um passarinho.

Elza Gomes, como passarinho, em  Sorte Grande

Depois disso, nunca mais parou de trabalhar, tanto que Elza frequentou a escola por não ter tempo, sendo educada por professoras particulares. Estabeleceram incialmente na cidade da Paraíba (hoje João Pessoa) e mudaram para o Rio de Janeiro em 1923. Neste mesmo ano Elza atuou na peça Capital Federal, de Artur Azevedo, ao lado de Cinira Polônio. Elza interpretava o menino Juquinha. Nesta época ainda estreia no cinema, atuando no filme Carnaval Cantado (1923).

Em 1926 a atriz atuou na peça Ra-Ta-Plan, revista que inaugurou o Cassino Beira Mar. Depois Elza procurou o ator Procópio Ferreira, e ingressou em sua companhia, onde permaneceu por onze anos e atuando como a primeira atriz do elenco, destacando-se em peças como Deus Lhe Pague, de Joracy CamargoQuick, de Felix Gandera. E foi no elenco de Procópio que Elza conheceu o ator André Villon, que seria seu companheiro pela vida toda.

A jovem Elza Gomes

O ator André Villon

Ao deixar Procópio, Elza Gomes ficou outros onze anos na companhia teatral Eva e Seus Artistas, da atriz Eva Todor. Elza atou na primeira peça encenada pela recém criada companhia, Colégio Interno, entre tantas outras. Com Eva Todor, Elza Gomes retornaria a Portugal, onde apresentou-se em quatro temporadas, a primeira em 1948. Ao longo de sua carreira, a atriz atou em cerca de quatrocentas peças teatrais.

Elza Gomes no teatro

Mas em 1951 abandonou os palcos e aceitou o convite para ingressar o elenco do rádio teatro da Rádio Nacional, que já tentava contratá-la há dois anos. Permaneceu muitos anos na emissora, fazendo muito sucesso. Em 1965 atuou em três novelas radiofônicas distintas, fazia uma “preta velha” em O Solar dos Covardes, a Rosa em Canto do Cisne e a fofoqueira de O Solar dos Silvestres.

Em 1957 ingressou na televisão, atuando no Teatro de Variedades, dirigido por Victor Berbara, na TV Tupi do Rio de Janeiro. Atou também no programa Stúdio A (1960) que encenava peças teatrais para a televisão nas noites de domingo. Elza também fez muito teleteatros na TV Rio, no final da década de 1950. Os trabalhos no rádio e na televisão afastaram Elza Gomes dos palcos por muitos anos. 

Elza Gomes na TV Rio, 1959

Foi Victor Berbara, seu diretor em televisão, quem levou a atriz de volta ao teatro. O diretor estava produzindo uma versão brasileira do sucesso da Broadway My Fair Lady, com Bibi Ferreira e Paulo Autran, e convidou a veterana para um pequeno papel, o da velha porteira da casa de cômodos. Elza Gomes aceitou na hora, e ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante do ano, oferecido pela ABCT (Associação Brasileira de Críticos de Teatro). Em seguida emendou Mais Ou Menos Santa, que inaugurou o Teatro Princesa Isabel. Em 65 atuou na versão de Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues (ela repetiria este papel no filme baseado na peça, em 1970).

Elza Gomes ensaiando Toda Nudez Será Castigada

Em 1969 estreou em uma telenovela, atuando em O Retrato de Laura (1969), na TV Tupi e na mesma emissora fez Enquanto Houver Estrelas (1969). Depois foi contratada pela Rede Globo, onde faria muitas novelas seguidas, dentre as quais O Primeiro Amor (1972), Os Ossos do Barão (1973), Pecado Capital (1975), O Casarão (1976), Saramandaia (1976), Pai Herói (1979), Chega Mais (1980). 

Henriqueta Brieba, Suzy Kirby, Paulo Gracindo, Leonardo Villar e Elza Gomes em Os Ossos do Barão (1973)

Também atou na primeira versão de Roque Santeiro (1975), uma novela de Dias Gomes que foi proibida pela censura do governo militar que nunca chegou a ser exibida. Com mais de cinquenta anos de carreira, Elza Gomes tornou-se estrela de uma nova geração, que nem fazia ideia do que ela já viverá nos palcos. 

Lima Duarte e Elza Gomes na versão proibida de Roque Santeiro

Foi na década de setenta também que Elza Gomes retornou ao cinema. A atriz havia participado de apenas um filme mudo, lá em 1923, quando tornou-se uma das mais requisitadas atrizes da década, atuando em filmes importantes como Toda Nudez Será Castigada (1975) e Guerra Conjugal (1976), e também em diversas pornochanchadas.

No cinema, atuou muito nas décadas de 1970 e 80, participando dos filmes Memórias de Um Gigolô (1970), O Enterro da Cafetina (1970), Quando as Mulheres Paqueram (1971), Toda Nudez Será Castigada (1973), A Filha da Mademe Bettina (1973), Motel (1973), As Alegres Vigaristas (1974), Nem Os Bruxos Escapam (1975), Gerra Conjugal (1976), as Desquitadas em Lua de Mel (1976), Ninguém Segura Essas Mulheres (1976), Nas Quebradas da Vida (1977), Barra Pesada (1977), Assim Era a Pornochanchada (1978), A Missa do Galo (Curta-metragem, 1982).

Elza Gomes, Betty Sadi e a pequena Isabela Garcia no filme Ninguém Segura Essas Mulheres


Em 1984 a atriz estava internada para tratar um câncer pancreático quando mandou chamar um padre no hospital. Pediu que lhe desse a extrema-unção e que enfim lhe casasse com o ator André Villon, com quem vivia há mais de quarenta e seis anos. Casaram-se em 09 de maio de 1984.

Oito dias depois, em 17 de maio de 1984, a atriz veio a falecer. Sua filha Maria da Gloria, foi casada com o ator Arthur Costa Filho.


*** Este texto foi originalmente publicado em meu livro Cá e Lá, O Intercâmbio Cinematográfico Entre Brasil e Portugal. Nele, além das experiências cinematográficas realizadas entre os países irmãos, escrevi diversas biografias de artistas portugueses que trabalharam no Brasil, e brasileiros que atuaram em Portugal. Se quiser conhecer mais, ou adquirir o livro, entre em contato comigo, pelo email diegofnunes@yahoo.com.br.

André Villon e Elza Gomes




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