Hattie McDaniel, a luta constante de uma pioneira


Em 29 de fevereiro de 1940 Hattie McDaniel tornou-se a primeira artista negra a receber um Oscar, de melhor atriz coadjuvante, por seu papel da criada Mammy no clássico ...E O Vento Levou (...Gone With the Wind, 1939). Mas mesmo com o pioneirismo, o prêmio não tornou a carreira (e nem a vida) da atriz mais fácil. Hattie ainda precisava lutar constantemente com o racismo, vivendo em um país onde a segregação racial era lei.

Veja Hattie McDaniel recebendo seu Oscar,
com legendas em português


Hattie McDaniel nasceu em Wichita, no Kansas, em 10 de junho de 1895. Seu pai era um pastor batista e sua mãe, Susan Holbert, era uma cantora gospel. Seu pai, Henry Mcdaniel, havia sido escravo, e foi obrigado a lutar pelo sul na Guerra Civil norte-americana, o conflito exibido em ...E O Vento Levou.

Hattie era a filha mais nova de treze filhos. Em 1910 ela foi a única pessoa negra a participar de um concurso de poesia, onde foi vencedora. Ao receber o prêmio, declamou os versos escritos por ela, e ao subir no palco percebeu que queria ser artista.

Hattie McDaniel em 1910

Hattie abandonou os estudos e passou a acompanhar um grupo de músicos, do qual faziam parte seu pai e os irmãos Otis e Sam. Ele se tornou a cantora principal do grupo, além de compor algumas das canções que eles apresentavam. Mas em 1916 Ottis McDaniel faleceu, e o grupo se desfez. Hattie só voltaria a carreira artística em 1920, quando entrou no elenco da peça Melody Hounds.

Otis McDaniel

Em 1925 Hattie McDaniel tornou-se uma das primeiras cantoras negras a se apresentar no rádio americano. Ela também começou a gravar discos, normalmente cantando blues. Ao mesmo tempo, aparecia constantemente no teatro.

Hattie McDaniel, cantora

Mas em 1929, com o colapso da bolsa de valores de Nova York, os teatros onde ela atuava fecharam, e Hattie só conseguiu emprego como atendente de banheiro, em uma boate para pessoas brancas. A entrada dos negros só era permitida para prestar serviços.

O proprietário da casa sabia que Hattie McDaniel era uma boa cantora, mas tinha medo que o público a rejeitasse, e por isso a proibia de cantar. Mas um dia ela subiu no palco e cantou, e logo tornou-se a principal atração da casa.

Em 1930 ela se mudou para Los Angeles, acompanhada dos irmãos Sam, Etta e Orlena, todos sonhando em conseguir papéis no cinema. Com exceção de Orlena, todos tornaram-se atores, mas claro, sem grandes oportunidades nas telas.

 Etta, Sam e Hattie McDaniel

Sam McDaniel (1896-1962) atuou em quase 300 filmes, mas só foi creditado em 15 deles. Seus papéis eram limitados a porteiros, criados, serventes ou motoristas. Etta McDaniel (1890-1945) atuou em 60 filmes, normalmente fazendo papéis de empregadas, também não creditada. Seu primeiro papel foi como a nativa que salva uma criança em King Kong (Idem, 1933).

Marion Davis e Sam McDaniel

Ann Ruthenford, John Wayne e Etta McDaniel

Hattie McDaniel atuou em mais de 300 filmes, mas não foi creditada na maioria deles, e sua filmografia completa ainda é desconhecida. Os historiadores já conseguiram listar 97 trabalhos da atriz, sendo que ela foi creditada em apenas 80 deles. Destes 80 créditos, ela interpretou uma criada em 73 ocasiões.

McDaniel estreou no cinema em 1930. Na mesma época, trabalhou muito no rádio, tornando-se uma rádio-atriz muito popular. Porém, seu salário era tão baixo que ela complementava a renda trabalhando como doméstica ou cozinheira.

Mais tarde, ao ser criticada por se submeter a papéis de empregadas domésticas nas telas ela declarou: "Por que devo reclamar enquanto ganho 700 doláres por semana sendo uma empregada nas telas? Se não fosse uma nas telas, ganharia sete dólares por semana sendo uma de verdade".


Em 1934 Hattie já havia atuado em diversos filmes, como A Vênus Loura (Blonde Venus, 1932) e Santa Não Sou (I'm No Angel, 1933), mas nunca tinha sido creditado em nenhum deles.

Hattie McDaniel e Marlene Dietrich em A Vênus Loura

Seu primeiro crédito foi no filme Judge Priest (1934), estrelado por Will Rogers. A atriz também cantava no filme. E embora interpretasse uma empregada, ela tinha um dos papéis principais no filme, algo raro em sua carreira.


Hattie só voltaria a ser creditada em um filme em A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935). O filme é estrelado por Shirley Temple, que aparece usando a infame blackface.

Shirley Temple e Hattie McDaniel


Hattie teve outro papel de destaque em A Mulher que Soube Amar (Alice Adams, 1935), estrelado por Katharine Hepburn. Em 1936 ela atuou em Magnólia: O Barco das Ilusões (Show Boat, 1936), interpretando um papel que havia feito no teatro. Também atuou em filmes como As Cinco Gêmeas da Fortuna (Reunion, 1936), estrelado pelas quíntuplas Dionne e Zenóbia (Zenobia, 1939), estrelado por Oliver Hardy.

Oliver Hardy e Hattie McDaniel

Em 1937 atuou em Saratoga (Idem, 1937), último filme de Jean Harlow (que faleceu durante as filmagens). O filme também era estrelado por Clark Gable, que se tornou um grande amigo de Hattie McDaniel. Eles já haviam trabalhado juntos em Mares da China (China Seas, 1935).

Hattie McDaniel, Clark Gable e Jean Harlow

Quando foi iniciada a produção de ...E O Vento Levou (...Gone With de Wind, 1939), muitas atrizes disputaram o papel de Scarlet O'Hara, que acabou ficando com Vivien Leigh. Porém, o papel de Mammy também foi muito disputado.  A atriz Hattie Noel foi muito bem nos testes, e a primeira dama Eleanor Roosevelt chegou a pedir ao produtor David O. Selznick que desse o papel para sua criada, Elizabeth McDuffie.

Selznick não achava que Hattie McDaniel era uma boa escolha para o papel, pois já havia visto a atriz no cinema, normalmente interpretando papéis cômicos, mas mudou de ideia após ver seu teste. Clark Gable também foi um grande incentivador para sua escolha.

 Jean Arthur e Hattie Noel fazendo teste para Scarlet e Mammy, respectivamente

Butterfly McQueen e Hattie McDaniel fazendo teste de figurino para ...E O Vento Levou

Quando ...E o Vento Levou estreou, na cidade de Atlanta, Hattie McDaniel avisou ao diretor Victor Fleming que não iria na estreia, pois estava doente. Clark Gable foi até a casa da amiga, e descobriu que na verdade ela estava com medo, pois havia recebido ameaças da Klu Klu Klan. Além disto, por questões raciais, a entrada da atriz era proibida no cinema onde o filme seria exibido, que só permitia a entrada de pessoas brancas. Gable ameaçou não comparecer na estréia se Hattie não estivesse presente, e Selznick pediu aos donos do cinema que permitissem a entrada da atriz. 

Porém, Butterfly McQueen (a Prissy) e os outros artistas negros da obra foram barrados na sessão.

Vivien Leigh e Hattie McDaniel em ...E O Vento Levou

Ameaçada pela Klu Klu Klan, Hattie também recebeu críticas dos ativistas negros, por novamente interpretar uma empregada. Em resposta ela declarou "nunca me ofereceram o papel de Scalet O'Hara".

Por este papel, ela tornou-se a primeira pessoa negra indicada a um Oscar, de melhor atriz coadjuvante. Também tornou-se a primeira negra a comparecer a cerimônia como convidada e não como serviçal. E mesmo tendo vazado que a atriz havia vencido o prêmio, dias antes da noite da entrega, Hattie teve que sentar sozinha em uma mesa nos fundos, encostada na parede, enquanto o resto do elenco e equipe do filme sentavam juntos em uma mesa no salão principal.

Em 1940 o Oscar para os artistas coadjuvantes era diferente da famosa estatueta. Ele era menor, gravado em uma placa. Mas após muitos artistas reclamarem da diferenciação, o prêmio tornou-se igual para todos. Hattie foi uma das artistas que recebeu o Oscar em forma de placa.

Hattie McDaniel e seu Oscar

Mas mesmo ganhando o mais cobiçado prêmio de Hollywood, sua carreira não deslanchou nos anos seguintes. Hattie continuou atuando em pequenos papéis, normalmente interpretando criadas, com algumas exceções.

A atriz recebeu boas críticas por Nascida Para o Mal (In This Our Life, 1942), onde interpretou a mãe de uma rapaz acusado de um crime, injustamente. No filme, ela contracenava novamente com Olivia de Havilland, sua colega de elenco de ...E O Vento Levou.

Hattie também apareceu bem vestida e maquiada (algo raro em sua carreira), e cantando, em Graças à Minha Boa Estrela (Thank Your Lucky Stars, 1943).

Olivia de Havilland e Hattie McDaniel

Hattie McDaniel em Graças à Minha Boa Estrela

Na década de 40, após vencer um Oscar, os convites para atuar diminuíram, e Hattie atuou pouco no cinema. Ela ainda fez alguns outros filmes, inclusive A Canção do Sul (Song of the South, 1946), um filme da Disney, que hoje é considerado racista. Seu último filme foi Flertando com a Morte (The Big Wheel, 1949).


Sem trabalhos no cinema, a atriz retornou ao rádio. Em 1952 Hattie McDaniel voltou a atuar em frente as câmeras, desta vez da televisão. Ela foi protagonista da série de TV Beulah, substituindo a atriz Ethel Walters no papel principal. Porém Hattie adoeceu, e ficou participou de apenas seis episódios da série, sendo substituída pela atriz Louise Beavers. Beulah foi a primeira série de TV protagonizada por artistas negros.

Butterfly McQueen e Ruby Dandridge (a mãe de Dorothy Dandridge) também faziam parte do elenco.


A Vida Pessoal

Em 1945 os vizinhos da atriz tentara despejar ela de sua própria casa, comprada em 1938. Eles usaram como argumento a lei de segregação racial, e não queriam uma negra como vizinha. A atriz precisou lutar na justiça por quatro anos, pelo direito de morar em sua residência. Ela venceu a disputa em 1949, abrindo precedentes legais para acabar com a segregação racial em bairros residenciais. (leia mais sobre isto aqui).

Hattie McDaniel deixando o tribunal, em 1949

A atriz foi casada quatro vezes. Seu primeiro marido foi assassinado poucos dias após o casamento, em 1922. Ela nunca teve filhos, mas em 1945 anunciou que estava grávida, e chegou a posar para a imprensa com as roupinhas de bebê que já havia comprado. Porém, seu médico afirmou que atriz, de 50 anos de idade, estava com gravidez psicológica. Hattie entrou em depressão, o que afetou a sua saúde nos anos seguintes.

Quando ela morreu, em seu testamento deixou algumas clausulas. Uma delas, destinava o valor de um dólar para seu último marido, de quem havia se separado em 1950. Ela também deixou dois pedidos, o primeiro deles era ser enterrada no cemitério de Hollywood, ao lado de alguns de seus colegas astros das telas. Porém, o dono do local se recusou a enterrar uma negra em seu cemitério.

O segundo pedido era que seu Oscar fosse doado para a Universidade de Howard, o que foi feito. Mas em 1960, durante os protestos pelos direitos de igualdade, um grupo de estudantes racistas arrombou a vitrine onde o troféu estava exposto e jogou o Oscar em um rio. O prêmio hoje é dado como perdido.

Hattie McDaniel e seu Oscar, que foi jogado em um rio

A atriz faleceu devido a um câncer de mama, em 26 de outubro de 1952. Hattie McDaniel tinha apenas 59 anos de idade.


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