Omar Sharif, o egípcio que encantou Hollywood


O ator Omar Sharif já era um astro em seu país natal, o Egito, quando atuou em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962), filme que lhe abriu as portas para uma bem sucedida carreira internacional. Mas sua consagração veio mesmo como o médico Yuri Jivago no clássico Doutor Jivago (Doctor Zhivago, 1965).

Sharife falava árabe, inglês, francês, espanhol e italiano fluentemente, e ao longo dos anos foi frequentemente escolhido para papéis de estrangeiro, geralmente vivendo personagens exóticos e sedutores. O ator costumava dizer que seu sotaque permitiu que ele desempenhasse o papel de estrangeiro "sem que ninguém soubesse exatamente de onde eu vinha".



Omar Sharif na verdade se chamava Michel Dimitri Chalhoub, e nasceu em na cidade de Alexandria, no Egito, em 10 de abril de 1932. Filho de um rico comerciante de madeira, Sharif mudou-se com a família para o Cairo quando tinha quatro anos de idade. Sua família tinha uma posição importante na sociedade egípcia, e costumavam dar festas onde recebiam o o rei Farouk do Egito (antes dele ser deposto, em 1952).

Sharif estudou no Victoria College, em Alexandria, onde demonstrou talento para idiomas. Mais tarde, se formou na Universidade do Cairo com um diploma em matemática e física. Ele trabalhou por um tempo nos negócios de seu pai, mas abandonou a vida empresarial para se tornar ator, estreando no cinema de seu país em 1954.

Durante as filmagens de seu primeiro filme, ele conheceu a atriz Faten Hamamah, sua colega de elenco. Eles se casaram no ano seguinte, em 05 de fevereiro de 1955. Ele converteu-se ao islamismo para poder casar-se com ela, e recebeu o nome islâmico de Omar El-Sharif (Sharif, significa nobre).


Omar Sharif e Faten Hamamah


Ele rapidamente tornou-se um astro em seu país, protagonizando mais de 20 filmes em pouco mais de cinco anos. Neste período, também atuou em A Aventureira do Oriente (La châtelaine du Liban, 1956), uma produção franco-italiana, estrelada por Gianna Maria Canale e Juliette Gréco

Em 1961 o diretor inglês David Lean começou a filmar Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962), e queria atores de etnias autênticas, para dar mais veracidade ao filme. Sharif havia sido contratado para um papel menor do que fez no filme.

A primeira opção para o papel de Sherif Ali havia sido o indiano Dilip Kumar, que recusou o papel, que ainda foi oferecido a Horst Bucholz e a Maurie Ronet. Finalmente Omar Sharif ficou com o papel que o revelou para o mundo.

Os produtores acharam uma escolha ousada, pois ele era desconhecido fora do Egito, mas David Lean insistiu. Estrelado por Peter O'Toole, o filme fez um enorme sucesso de bilheteria, e fez de Sharif um astro. Por seu desempenho, ele foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Cadjuvante e ao Globo de Ouro na Mesma categoria, e ganhou o Globo de Ouro de ator revelação do ano.


Omar Sharif e Peter O'Toole em Lawrence da Arábia


Após o sucesso de Lawrence da Arábia ele foi escalado para outra grande produção de Hollywood, A Queda do Império Romano (The Fall of the Roman Empire, 1964). Maas suas viagens ao exterior foram restringidas pelo presidente Gamal Abdel Nasser, o que levou o ator a um auto-exílio na Europa.

O ator seguiu fazendo papéis de apoio em filmes como A Voz do Sangue (Behold a Pale Horse, 1964), O Rolls-Royce Amarelo (The Yellow Rolls-Royce, 1965) e Marco Polo, O Magnífico (La fabuleuse aventure de Marco Polo, 1965).

Seu primeiro protagonista fora do Egito foi em Genghis Khan (Idem, 1965), onde deu vida ao famoso conquistador mongol. Sharif contracenava com a estrela francesa Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve (tragicamente desaparecida em um acidente de carro pouco tempo depois).

Mas o filme foi um fracasso de bilheteria, dando muito prejuízo aos estúdios.


Françoise Dorléac e Omar Sharif em Genghis Khan 


Quando filmava Genghis Khan ele soube que David Lean estava produzindo Doutor Jivago (Doctor Zhivago, 1965), baseado no livro de Boris Pasternak. Sharif era fã do romance e se ofereceu para um dos papéis coadjuvantes, mas Lean acabou lhe dando o protagonismo.

Para viver o poeta e médico Yuri Jivago, Sharif teve que usar uma peruca, para esconder seu cabelo natural. O filme fez um enorme sucesso, e deu ao artista um Globo de Ouro de Melhor Ator.

 Omar Sharif e Julie Christie em Doutor Jivago

Seu único filho, Tarek Sharif, também atuou no filme, fazendo o papel de Jivago criança. Tarek chegou a atuar em outros filmes, mas não deu continuidade na carreira.

 Omar e Tarek Sharif descansando num intervalo de filmagem de Doutor Jivago

Ouça o Tema de Lara, a canção de Doutor Jivago

Sharif então retornou ao Egito, onde filmou El mamalik (1965). Depois prosseguiu com sua carreira internacional, em filmes como O Ópio também é Uma Flor (Poppies Are Also Flowers, 1966) e Felizes Para Sempre (C'era uria volta, 1967).

Em A Noite dos Generais (The Night of the Generals, 1967), voltou a trabalhar com Peter O'Toole, que havia se tornado um de seus melhores amigos.

Omar Sharif e Sophia Loren em Felizes Para Sempre

Em 1968 ele estrelou Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968), ao lado de Barbra Streisand, que estreava no cinema como atriz. Durante as filmagens ele e Barbra tiveram um romance, embora ele ainda fosse casado com Faten Hamamah.

O relacionamento com a artista judia irritou o governo egípcio, devido ao posicionamento político da atriz e cantora, judia, sobre a Guerra dos Seis Dias, entre o Egito e Israel. Sharif quase perdeu sua nacionalidade devido ao relacionamento. Em tom de brincadeira, Streisand respondeu "Você acha que o Egito estava chateado? Você deveria ter visto a carta que recebi da minha tia Rose!". Com Barbra ele atuaria na sequência do filme, Funny Lady (Idem, 1975).

Sharif e Hamamah se separaram em 1966, e divorciaram-se legalmente em 1974. E o ator nunca mais voltou a se casar novamente.

 Omar Sharif e Barbra Streisand em Funny Girl: A Garota Genial

Após atuar em Mayerling (Idem, 1968), com Catherine Deneuve, ele esteve em diversos filmes que fracassaram nas bilheterias, como O Ouro de Mackenna (Columbia, Gold de Mackenna, 1969), Causa Perdida (Che!, 1969), O Encontro (The Appointment, 1969), Trois hommes sur un cheval (1969), e O Último Refúgio (The Last Valley, 1971). Após atuar em Os Cavaleiros do Buzkashi (The Horsemen, 1971), que também teve um desempenho ruim, ele teve seu contrato com a Columbia (assinado quando ingressou no elenco de Lawrence da Arábia) rescindido. 

Sharif anos mais tarde declararia: "O que matou minha carreira foi aparecer em uma sucessão de filmes que você não recusaria. Eles eram de bons diretores, mas eram filmes ruins".


 Omar Sharif como Che Guevara em Causa Perdida

Demitido da Columbia, teve melhores oportunidades em filmes europeus. Os Ladrões (Le casse, 1971), feito na França, fez sucesso no país, mas quase não foi visto no resto de mundo. Também na França ele interpretou o Capitão Nemo em A Ilha Misteriosa e o Capitão Nemo (La isla misteriosa, 1973). O filme chegou a gerar uma minissérie feita para a televisão, no mesmo ano.

De volta aos Estados Unidos, atuou em As Sementes de Tamarindo (The Tamarind Seed, 1974), de Blake Edwards. O filme era co-estrelado por Julie Andrews, a esposa do diretor. Em seguida fez um papel de apoio em Juggernaut: Inferno em Alto-Mar (Juggernaut, 1974) e voltou ao protagonismo em O Jogo da Trapaça (Ace Up My Sleeve, 1976), ao lado de Karen Black.

Julie Andrews e Omar Sharif em As Sementes de Tamarindo

O ator fez uma participação especiam em A Nova Transa da Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther Strikes Again, 1976), e teve papéis pequenos em filmes como Ashanti (1979) e outro um pouco maior em A Herdeira (Bloodline, 1979), estrelado por Audrey Hepburn.

Nos anos seguinte, o ator trabalhou muito na televisão, e atuou em produções feitas em diversas parte do mundo, incluíndo seu país natal. Muitos deles nada fizeram por sua carreira, e Sharif admitiu anos mais tarde que o fazia por ter muitas dívidas, principalmente obtidas no jogo e corridas de cavalo. Ele era um grande jogador de bridge, e chegou a escrever livros sobre o tema.

Sharif esteve nas comédias A Espiã (S.H.E: Security Hazards Expert, 1980), Tacada Mortal (The Baltimore Bullet, 1980), Benji, o Cachorro Divino (Oh Heavenly Dog, 1980) e Top Secret!: Superconfidencial (Top Secret!,1984). E no trilher Inferno Verde (Green Ice, 1981).

 Omar Sharif em Top Secret!: Superconfidencial

Em 1983 ele fez uma peça chamada The Sleeping Prince, onde dizia no palco que "apareceu nos filmes ruins dos grandes diretores". Na televisão, participou da minissérie Pedro, O Grande (Peter The Great, 1986) e no telefilme Anastásia: O Mistério de Anna (Anastasia: The Mystery of Anna, 1986), sobre a vida da suposta princesa Anastácia da Rússia.

Seu primeiro crédito no cinema depois de muito tempo, em um filme importante, foi em As Montanhas da Lua (Mountains of the Moon, 1990), mas seu papel era bem pequeno.

Ainda em 1990 ele voltou a contracenar com Peter O'Toole em O Ladrão do Arco-Íris (The Rainbow Thief, 1990), de Alejandro Jodorowsky. Os amigos ainda contracenariam em mais um filme, Conquista de Reis (One Night with the King, 2006).

 Peter O'Toole e Omar Sharif em O Ladrão do Arco-Íris

Sharif só retornou a uma grande super produção em O 13º Guerreiro (The 13th Warrior, 1999), filme estrelado por Antonio Banderas. Mas o papel o decepcionou tanto que ele chegou a anunciar sua aposentadoria, coisa que ele realmente nunca o fez.

Em 2003 Sharif protagonizou Uma Amizade sem Fronteiras (Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran, 2003), adaptação cinematográfica do romance Monsieur Ibrahim e les fleurs du Coran, onde ele viveu um comerciante turco-muçulmano que se torna uma figura paterna para um menino judeu. O filme rendeu boas críticas ao ator, que declarou "eu fiquei 25 anos sem fazer um bom filme". Por seu desempenho ele recebeu o César, o maior prêmio do cinema francês.

 Cartaz de Uma Amizade sem Fronteiras

Nos anos seguintes ele ainda foi visto em produções como Mar de Fogo (Hidalgo, 2004),na minissérie Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 2006) e no francês Um Castelo na Itália (Un château en Italie, 2013). Seu último longa-metragem foi Rock the Casbah (2013).

Após atuar no curta-metragem 1001 Inventions and the World of Ibn Al-Haytham (2015), feito pela Unesco, o ator despediu-se das telas.


Omar Sharif no cartaz de 1001 Inventions and the World of Ibn Al-Haytham



Em maio de 2015 seu filho Tarek anunciou que o pai estava em estava avanado de Alzheimer. Dois meses depois, Omar Sharif sofreu um ataque cardíaco em um hospital psiquiátrico no Cairo, falecendo em 10 de julho de 2015, aos 83 anos de idade.


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