Berta Loran, a atriz que tranformou a tragédia em riso


A polonesa Berta Loran é uma das mais queridas comediantes brasileiras. Sobrevivente do Holocausto, Berta encontrou no humor a forma de superar a perseguição, a fome, o frio e o medo que viveu nos seus primeiros anos de vida na cidade da Varsóvia, ocupada pelo exército nazista.


Berta Loran é o nome artístico de Basza Ajs, nascida em Varsóvia, em 23 de março de 1926.

Berta nasceu em uma família judia, na Rua Mila, 53, o coração de onde seria criado o Gueto da Varsóvia. Após a ocupação nazista na Polônia, cerca de 380 mil judeus foram isolados por muros no gueto. 

A jovem Berta dividia o quarto com 14 pessoas, incluindo parentes e funcionários de seu pai José Ajs, um ator e alfaiate polônes. A comida era escassa, geralmente composta de uma sopa feita com repolhos e batatas, alimentos baratos e disponíveis no bairro.

Berta Loran, no colo da mãe, com a família

Temendo pela vida da família, seu pai conseguiu fugir com a esposa e filhos para o Brasil em 1939. Nos anos seguintes, praticamente todos os moradores do Gueto de Varsóvia foram exterminados nos campos de concentração de Treblinka, em Auschwit. Os primeiros enviados para os campos foram os idosos, mulheres e crianças, que tinham menos força para trabalhar. Os avós, tios, primos e toda a família restante de Berta Loran foi morta pelos nazistas.

Em 1943, os 80 mil sobriventes (dos 380 mil iniciais) criaram uma revolta que enfrentou o exército nazista. Era uma missão suicida, mas as pessoas preferiram morrer lutando do que exterminadas na câmara de gás. Praticamente todos os moradores foram massacrados e o Gueto destruído. Um dos poucos sobreviventes do local foi o pianista Władysław Szpilman, que foi retratado no filme O Pianista (The Pianist, 2002), de Roman Polanski.

No Brasil, a família se instalou em um sobrado na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Seu pai, que havia sido ator na Polônia, começou a trabalhar como técnico em produções teatrais em iídiche, voltadas para a comunidade judaica. Ele incentivava as filhas a seguirem a carreira artística, e por intermédio de seu pai, Berta estreou nos palcos aos 14 anos de idade, na peça O Espírito (1940). Sua irmã, Bela Ajs também chegou a atuar, e elas formaram a dupla Bela e Berta.

Berta Loran, adolescente

Ela atuava falando em iídiche, em recitais, clubes e escolas. A menina atuou em peças como S'grorjs Gevins (o Ganhador da Loteria) de Sholem Aleichem e Moyses Ganef  (O Ladrão Moisés). Depois fez algumas comédias musicadas com artistas norte-americanos de origem israelita, como Joseph Buloff  e Maurice Schwartz que viam ao Brasil para atuar em espetáculos geralmente encenadas no Teatro República.

Berta então foi contratada pelo empresário Isaak Liubeltchik, que a levou para Buenos Aires, lá, em 1946, ela se casou com o ator Saul Handjuss, muitos anos mais velho que ela. Anos mais tarde a atriz afirmou que casou-se apenas para sair da casa dos pais e conquistar sua independência. Ela morou dois anos na Argentina, também se apresentando no teatro em iídiche.

Mas com a criação do Estado de Israel em 1948, que passou a adotar o hebraico como língua oficial dos judeus, o teatro iídiche perdeu espaço. Berta não falava hebraico, língua que só conhecia de alguns cânticos e orações. Foi então que ela foi convidada pelo maestro Armando Angelo para ingressar no teatro de revista brasileiro, onde ela estreou na peça O Pudim de Ouro (1951). No elenco também o cômico Spina, a vedete Salomé Parísio e a dançarina Eros Volusia.

Spina e Berta Loran em O Pudim de Ouro

Berta seguiu atuando em revistas, onde atuou em peças como Confusão no Reboque (1951) e Ponto e Banca (1952). Sob direção de Chianca de Garcia, ela estreou na televisão no programa Grande Revista (1951), na TV Tupi do Rio de Janeiro. A Tupi tinha tradição de levar espetáculos teatrais ao ar, em programas como O Grande Teatro Tupi, e Chianca havia resolvido também televisionar espetáculos de revista. Spina, Solange França e João Celestino também faziam parte do elenco.

Em 1952 ingressou na companhia de Dercy Gonçalves, com quem atuou em Paris de 1900 (1952), A Túnica de Vênus (1952) e Eu Sou Tarada (1952). Nos espetáculos da Praça Tirandentes, reduto da revista carioca, atuou ainda em Tudo de Fora (1953), Nonô Vai Na Raça (1955), Não Vou ao Golpe (1955) e Tem Nego Bêbo Aí (1955). Berta dançava, cantava e atuava, e até atuou como vedetes, e chegou a cantar Singing' in The Rain na revista Uma Pulga na Camisola (1953), mas foi como caricata que acabou fazendo sua fama.

 Berta Loran, como vedete

Em 1955 ela abandonou o nome Berta Ajs, que usava artisticamente até então, pasando a usar o sobrenome Loran, mais fácil de pronunciar. Foi neste ano que ela estreou no cinema, atuando em Sinfonia Carioca (1955), uma produção da Atlântida, estrelada por Eliana Macedo, Anselmo Duarte e Zezé Macedo.

Eliana Macedo e Berta Loran em Sinfonia Carioca

Berta fez outras chanchadas da Atlântida, nos anos seguintes: Garotas e Samba (1957), Papai Fanfarrão (1957) e O Barbeiro que se Vira (1958). Em Garotas e Sambas ela interpretou "Ninón Ervilha", uma paródia da rumbeira cubana Ninón Sevilla.

Berta Loran e Arrelia em O Barbeiro que Se Vira

Ainda em 1955 ela foi contratada pela TV Tupi do Rio de Janeiro, passando a atuar no programa Espetáculos Tonelux, como comediante.

Berta Loran no Espetáculos Tonelux

Em 1957 ela foi contratada pelo empresário José Ferreira da Silva, o Zézinho, que criava uma nova companhia teatral. Zézinho preparava a peça É Fogo No Pandeiro (1957), que iria se apresentar em Portugal e as suas colônias. Os ensaios foram feitos no navio, e a primeira apresentação foi em Lorenço Marques (hoje Maputo), capital de Moçambique.

O elenco, do qual ainda faziam parte Badaró, Wilma Palmer, Spina e a cantora Mara Abrantes. Eles haviam ido para ficar alguns meses, mas o espetáculo ficou em cartaz por dois anos em Portugal. Relegados a coadjuvantes no Brasil, os artistas brasileiros se tornaram astros no país, e muitos acabaram ficando por lá.

Berta havia se separado de Saul Handjuss e preparava-se para voltar ao Brasil, quando recebeu o convite para atuar na revista Esta Bonita a Brincadeira (1957), estrelada por Beatriz Costa. O sucesso da brasileira fez com que ela permanecesse sete anos no país, onde atuou em onze revistas e no espetáculo Boing Boing.

Em 1960 Berta estrelou um filme português chamado O Cantor e a Bailarina (1960).

Berta Loran em O Cantor e a Bailarina

O filme tinha cenas rodadas no Brasil, e durante o período das gravações ela ficou alguns meses no país, onde estrelou o espetáculo Minha Lady Fuleira (1961), uma paródia de My Fair Lady, antigo sucesso cinematográfico cuja versão teatral fazia sucesso na época com Bibi Ferreira e Paulo Autran.

Após sete anos fazendo sucesso em Portugal, Berta recebeu um convite para voltar ao Brasil, contratada pela TV Record, em 1963. Morando em São Paulo, estrelou o espetáculo Sete Belo Show, no mesmo ano de seu retorno.

Ainda em 1963 atuou no musical Como Vencer na Vida Sem Fazer Força, ao lado de Moacyr Franco e Marília Pêra, dirigido por Augusto César Vannucci

 Felipe Carone e Berta Loran em O Peru


No teatro, foram incontáveis espetáculos, como a versão brasileira de Boeing Boeing (1964), A Dama do Maxim's (1965), Cinderela do Petróleo (1966), Alegro Desbum (1973), O Peru (1973), Camas Redondas e Casais Quadrados (1974), Três Solteironas Balançando o Rambo (1991), As Tias de Mauro Rasi (1996), Os Dálmatas – O Musical (1997) e Quem Vai Ficar com a Velha? (2002).

John Herbert e Berta Loran assinando contrato com Tônia Carrero
para atuar em A Dama do Maxim's

Na TV Globo, atuou no humorísticos Bairro Feliz (1965) e Riso Sinal Aberto (1965-1967) e Balança Mais Não Cai (1968). Em 1969 Berta estrelou o programa Com... Média Máxima (1969), na TV Excelsior do Rio de Janeiro. Berta dividia o programa com Costinha, com quem havia feito Nonô Vai Na Raça no teatro.

A partir da década de 70 ela fez muitos programas de humor na Rede Globo, como Faça Humor, Não Faça Guerra (1970), Satiricon (1973), Planeta dos Homens (1976), A Festa é Nossa (1983) e Humor Livre (1984).

 Berta Loran e Jô Soares em O Planeta dos Homens

Na década de 70 também foi muito atuante no cinema brasileiro, participando de A Ilha dos Paqueras (1970), Em Busca do Su$exo (1970), Ipanema Toda Nua (1971), Como Matar Uma Sogra (1978), O Golpe Mais Louco do Mundo (1978) e O Amante de Minha Mulher (1978).

Em 1980 ela estrelou o espetáculo Divirta-se Com Berta Loran (1980), onde fazia um musical no estilo da Broadway, onde cantava, dançava e atuava. No mesmo ano, gravou um disco ao ado de Elke Maravilha e Cidinha Campos, chamado Humor Só Para Mulheres. Berta, que havia gravado alguns discos de 78 RPM na década de cinquenta com marcinhas de carnaval, agora lançava um disco onde contava piadas.

Elke Maravilha, Cidinha Campos e Berta Loran

Em 1983 ela estrou como atriz de novelas, atuando em Guerra dos Sexos (1983). Em sua novela seguinte, recebeu elogios por sua atuação ao lado de Ary Fontoura em Amor com Amor Se Paga (1984). Ela ainda atuaria nas novelas Cambalacho (1986), Torre de Babel (1999), Ciranda de Pedra (2008), Cama de Gato (2009), Ti Ti Ti (2010) e Cordel Encantado (2011).

Berta Loran em Cordel Encantado

Na década de 90 destacou-se atuando com Chico Anysio em Escolinha do Professor Raimundo (1990), onde interpretava a portuguesa Manuela D'Além-Mar. Mais tarde, no mesmo programa, interpretou a judia Sara Rebeca. Com o comediante ainda fez Estados Anysios de Chico City (1991) e Chico Total (1996).


Berta Loran na Escolinha do Professor Raimundo


Berta Loran continua atuando, fazendo participações na televisão e teatro. Em 2015, ao lado de Elke Maravilha e Vilma Nascimento teve um quadro no programa Fantástico, chamado O Grande Plano.

No cinema, ainda atuou em Polaróides Urbanas (2006), A Guerra dos Rocha (2008) e Até que a Sorte Nos Separe 2 (2013). Este último, apesar de ser uma produção brasileira, foi um dos últimos trabalhos no cinema do lendário ator Jerry Lewis.

Leandro Hassum e Jerry Lewis em Até Que a Sorte nos Separe 2


Em 2016, a atriz foi homenageada pelo produtor cultural João Luiz Azevedo com livro biográfico - Berta Loran: 90 anos de humor, documentário e exposição com fotos do acervo pessoal, objetos e recordações dos diversos trabalhos realizados por Berta no cinema, teatro e televisão.

 Berta Loran, e sua biografia

Berta Loran, nos tempos do teatro de revista


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