Kim Novak, a estrela reclusa



Muitas são as estrelas de cinema que abandonaram a carreira no auge. Talvez o caso mais famoso seja o de Greta Garbo, que deixou o cinema na década de 30, após proferir a icônica frase "eu quero ficar sozinha!" (I want to be alone!). Kim Novak, uma das recordistas de bilheteria do final da década de 50, foi outra dessas estrelas.




O verdadeiro nome de Kim Novak é Marilyn Pauline Novak, e ela nasceu em 13 de fevereiro de 1933. Filha de emigrantes tchecos, ela começou a carreira como modelo para uma marca de refrigeradores.

Em 1953, aos 20 anos de idade, ela estreou no cinema fazendo figuração em Um Romance em Paris (The French Line, 1953), uma produção da RKO. No mesmo ano, fez uma das garotas do harém em O Filho de Sinbad (Son of Sinbad, 1955), que embora rodado em 1953, só foi lançado em 1955.

Embora pouco aproveitada, um produtor da Columbia Pictures a viu, e lhe ofereceu um bom contrato com o estúdio. Harry Cohn, o todo poderoso do estúdio, queria fazer dela a substituta de Rita Hayworth, sua maior estrela na década de 40, agora em decadência. Cohn também queria fazer de Novak uma rival de Marylin Monroe, a loira platinada da Fox. Ele sugeriu que ela usasse seu nome de batismo, Marilyn, mas ela se recusou, para evitar comparações com Monroe. O produtor também não gostava do nome Novak, de origem tcheca, e sugeriu que ela mudasse seu nome para Kit Marlowe, mas ela se recusou.

O primeiro papel de Novak para o estúdio foi no filme noir A Morte Espera no 322 (Pushover, 1954), no qual ela recebeu o terceiro título abaixo de Fred MacMurray e Philip Carey. Ela então co-estrelou a comédia romântica Abaixo o Divórcio (Phffft, 1954) ao lado de Jack Lemmon. Ambos os filmes foram razoavelmente bem-sucedidos nas bilheterias, e Novak recebeu críticas favoráveis ​​por suas performances.


Kim Novak e Jack Lemmon em Abaixo o Divórcio

Novak também fez sucesso em O Homem do Braço de Ouro (The Man With the Golden Arm, 1955), ao lado de Frank Sinatra, com quem ela namorou na época. Mas o estrelato veio como Madge Owens, em Férias de Amor (picnic, 1956). O diretor Joshua Logan queria que ela pintasse os cabelos de ruivo para o papel, mas por fim os estúdios optaram por usar uma peruca.


William Holden e Kim Novak em Férias de Amor

O filme fez um grande sucesso de bilheteria, e deu a Novak um Globo de Ouro de Atriz Mais Promissora. Ela também foi indicada como melhor atriz estrangeira ao Bafta (prêmio do cinema inglês), mas não levou.

Em seu filme seguinte, Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story, 1956), ela contracenou com Tyrone Power. Os dois não se deram bem durante as filmagens, e brigavam constantemente. Novak quase desistiu do projeto. Mas como a atriz terminou o trabalho, a Columbia deixou que ela escolhesse seu próximo roteiro.

Novak então escolheu interpretar a antiga estrela do cinema mudo Jeanne Eagels, em Lágrimas do Triúnfo (Jeanne Eagels, 1957). Jeanne Eagles faleceu em 1929, com apenas 39 anos de idade, e foi a primeira atriz a ser indicada a um Oscar póstumo. (leia sobre ela aqui). Co-estrelado por Jeff Chandler, o filme fez um enorme sucesso, mas a família da atriz acabou processando o estúdio por difamação.

Em 1957 ela voltou a contracenar com Frank Sinatra em Meus Dois Carinhos (Pal Joey, 1957), ao lado da antiga estrela da Columbia Rita Hayworth. E no ano seguinte, faria seu filme mais famoso, Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958), de Alfred Hitchcock.


James Stewart e Kim Novak em Um Corpo Que Cai

Quem estrelaria o filme seria a atriz Vera Miles, a então atriz fetiche do diretor, mas Vera estava grávida e teve que deixar o complexo papel de Judy Barton (uma mulher que sofre de dupla personalidade). Hitchcok então procurou Cohn, e pediu Novak emprestada para sua produção. Novak adorou o roteiro, e aceitou o convite, mas durante as filmagens chegou a fazer greve exigindo um aumento de salário. Ela agora era uma estrela das maiores bilheterias do estúdio, mas ainda recebia o mesmo salário de inciante, quando foi contratada.

Um Corpo Que Cai foi um fracasso de bilheteria, e recebeu críticas negativas na época. Porém, ao longo dos anos, passou a ser considerado um dos melhores filmes da história do cinema.

De volta a Columbia, ela estrelou Sortilégio do Amor (Bell, Book and Candle, 1958), onde interpretava uma feiticeira. O filme, que também fez sucesso de bilheteria, era dirigido por Richard Quine, que era seu noivo na época. Ela e Quine ainda trabalharia juntos em O Nono Mandamento (Strangers When We Meet, 1960) e Aconteceu num Apartamento (The Notorious Landlady, 1962).

Para o filme Aconteceu num Apartamento, o estúdio construiu uma casa de verdade, que ao término das filmagens seria dada de presente de casamento ao casal. Porém, Novak terminou o noivado, e acabou comprando a casa na praia que ganharia de presente. A residência, em Big Sur, passou a ser refúgio longe de Hollywood.


Kirk Douglas e Kim Novak no cartaz de Aconteceu num Apartamento

Kim Novak então deixou a Columbia, passando a atuar como freelancer. Mas fez mas escolhas, e seus filmes seguintes não obtiveram sucesso, com excessão de Beija-Me, Idiota (Kiss me Stupid, 1964), de Billy Wilder. Apesar de bem recebido, o filme teve fraco desempenho em bilheteria, pois foi censurado pela Legião da Decência.

Kim Novak também foi buscar novas chances na Europa, filmando Servidão Humana (Human Somage, 1964) na Irlanda e As Aventuras Escandalosas de Uma Ruiva (The Amorous Adventures, de Moll Flanders, 1965), na Inglaterra. Durante as filmagens ela conheceu o ator britânico Richard Johnson, com quem se casou em 1965. E apesar do casamento ter durado menos de um ano, eles permaneceram amigos por toda a vida.


 Richard Johnson e Kim Novak


Em 1966 um deslizamento de terra destruíu sua casa em Hollywood, destruíndo todos os seus pertences. A atriz, que já andava desgostosa com a cidade do cinema, resolveu então se afastar, indo morar em sua casa em Big Sur. Ela estava emocionalmente esgotada e não queria mais ser uma estrela do cinema.

Falida, a atriz ainda teve que usar o dinheiro que sobrara para pagar as taxas da remoção do entulho de sua casa. A atriz então se isolou, no que ela chamou de férias auto-impostas, e começou a escrever poesias e letras de música (Harry Belafonte gravou uma de suas canções), e passou a dedicar-se a pintura.

Precisando de dinheiro, a atriz retornou ao cinema em A Lenda de Lylah Clare (The Legend of Lylah Clare, 1968). O diretor Robert Aldrich pediu que ela fizesse um sotaque alemão, o que ela achou que ficaria ridículo, e se recusou a fazer. Ao ver a estreia do filme, ela ficou chocada ao ver que havia sido dublada, ficando ainda mais decepcionada com o cinema. Novak então fez mais um filme, e se afastou novamente.

Ela atuou muito pouco na década de 70, aparecendo mais em filmes feitos para a televisão, que ela achava menos exaustivo. Novak só aceitou voltar ao cinema em filmes que realmente lhe interessassem, como Apenas um Gigolô (Schöner Gigolo, armer Gigolo, 1979), ao lado de David Bowie e da veterana Marlene Dietrich.


Kim Novak e David Bowie em Apenas um Gigolô


Em 1980 ela atuou em A Maldição do Espelho (The Mirror Crack'd, 1980), um filme de terror baseado em um livro da Agatha Christie. O filme tinha um elenco estrelar, que incluía Angela Lansbury, Elizabeth Taylor, Tony Curtis, Rock Hudson e Geraldine Chaplin.


 Kim Novak, Geraldine Chaplin, Elizabeth Taylor, Tony Curtis, Edward Fox e Rock Hudson em A Maldição do Espelho


Depois, a atriz desapareceu do cinema. Em 1986 ela foi convidada a ingressar no elenco da novela Falcon Crest, num papel semelhante ao que interpretara em Um Corpo Que Cai. Novak aceitou o convite, com uma condição, sua personagem devia se chamar Kit Marowe, o nome que Harry Cohn queria batizá-la. Ela afirmou que era uma espécie de vingança com o já falecido produtor.

Novak ainda voltaria ao cinema em 1990, mas em 1991, teve uma grande decepção ao filmar
Liebestraum - Atração Proibida (Liebestraum, 1991). Novak havia se encantado com o papel de uma escritora com uma doença terminal, mas ela e o diretor Mike Figgis brigaram durante toda a duração das filmagens. Figgis considerou que ela não era boa suficiente para a personagem, e contratou outra atriz para fazer as cenas de flashback. Kim Novak chegou a declarar que o diretor a maltratava e a manipulava, e que nem Alfred Hitchocock havia a tratado assim, e que se sentiu nos tempos de Harry Cohn.

A experiência da atriz foi tão traumática, que ela nunca mais aceitou nenhum convite para atuar, apesar de dizer que nunca se sentiu realizada profissionalmente, e que sentia falta de interpretar um grande papel. 


Kim Novak em Liebestraum - Atração Proibida


Desde então, a atriz evita aparições públicas, e recusa qualquer convite para atuar. Aparecendo apenas esporadicamente em uma entrevista, ou homenage. Em 2014, ela aceitou um convite para participar da cerimônia da entrega do Oscar.

Kim Novak resolver fazer uma intervenção estética no rosto, mas o resultado não ficou como ela esperava, e a aparência da atriz foi bastante criticada. Ela afirmou que havia se arrependido, e os comentários a deixaram ainda mais deprimida.


 Kim Novak e Matthew McConaughey na entrega do Oscar

Desde 1997 ela vive em um rancho no Oregon, onde cria lhamas. Mas em 2000, um incêndio destruiu completamente a sua residência, queimando inclusive o único rascunho de sua autobiografia, que ela escrevia há dez anos. Novak ainda vive no seu rancho, reclusa, escrevendo poesias e pintando quadros, muitos deles doados para leilões de caridade.


 Pintura de Kim Novak


 Kim Novak em foto recente e no auge da carreira


Em 1960 Kim Novak esteve no Brasil, curtindo o carnaval carioca. Ela chegou a conhecer o presidente Juscelino Kubitschek, com quem tirou a famosa foto onde ela esta sem sapatos na recepção oficial.


 Georginho Gingle e Kim Novak no baile de carnaval do Teatro Municipal do Rio de Janeiro


Kim Novak, sem sapatos, com Juscelino Kubitschek


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