Pobre Johnnie Ray, o artista esquecido


Em 1982 a banda inglesa Dexys Midnight Runners lançou o hit Come on Eileen, cujo refrão inicial (traduzido) dizia: "Pobre velho Johnnie, soou triste no rádio. Ele moveu um milhão de corações em mono. Nossas mães choraram, e cantaram junto, quem iria culpá-las?".

Apesar de ter sido um dos maiores astros da indústria musical, e ainda estar vivo na época, poucas pessoas se lembravam do cantor, que aparecia no clipe musical (em imagens de arquivo). Na década de 50 Johnnie Ray havia sido um fenômeno fonográfico, um cantor de transição entre a era dos velhos crooners da década de 30 e 40 e os roqueiros da década de 50.


John Alvin Ray nasceu em 10 de janeiro de 1927, no Oregon. Aos 2 anos de idade mudou-se com a família para Portugal, e quando tinha 13 anos sofreu um acidente em sua escola, que perfurou seu ouvido direito, deixando o parcialmente surdo. A perda auditiva não foi identificada de imediato, só sendo tratada meses depois, quando já era tarde demais.

Johnnie Ray começou na carreira como pianista em uma boate no começo da década de 50. Até que uma noite lhe deram uma chance para cantar, e então, ele logo se tornou um grande sucesso no cenário musical. No palco, Johnnie Ray se escabelava, se jogava no chão, e chegava a rasgar suas roupas, de acordo com a emoção pedida pela música, geralmente composta por ele. Por essa encenação exagerada, foi apelidado de "Mr. Emotion". Em 1952 a música Cry (choro) foi uma das mais tocadas nos Estados Unidos.

Muitas de suas fãs nem percebiam que ele cantava com aparelho auditivo.

Johnny Ray cantando Cry


Em 1954 ele fez uma turnê pelo Reino Unido, que atraiu multidões de fãs. Ele também foi o primeiro norte-americano a atrair milhares de pessoas na Austrália. Johnnie Ray era um astro.

Ainda em 1954 Johnnie foi contratado pela FOX, como um dos principais astros de No Mundo da Fantasia (There's No Business Like Show Business, 1954). 


O filme tinha um elenco estrelar, incluindo Marilyn Monroe. A atriz só aceitou atuar neste filme porque lhe foi prometido o papel principal de O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955), caso ela aceitasse. No elenco ainda Mitzi Gaynor, Ethel Merman, Donald O'Coonor e Dan Dailey, além de Johnnie Ray, que interpretava um artista que tornava-se padre. No final do filme, ele retorna para a sua família, todos artistas, e revela que sua paróquia permite que ele continue se apresentando.




O filme foi um fracasso, mas imortalizou a canção "There's No Business Like Show Business", que se tornou uma espécie de hino de Hollywood. Veja Johnnie Ray, Mitzi Gaynor, Dan Dailey, Ethel Merman, Donald O'Connor e Marilyn Monroe cantando esta canção nas cenas finais de O Mundo da Fantasia.



Depois disto Johnnie Ray desapareceu do cinema. Ele mesmo declarava: "Eu me pergunto constantemente por quê eu nunca mais fiz outro filme. A pergunta nunca foi respondida."

Alguns historiadores acreditam saber a resposta. Johnnie Ray era gay! E isso era inadmissível para uma galã na época. Em 1951 ele havia sido preso por "promiscuidade" em um bar em Detroit. Era uma pratica da época policiais jovens e bonitos irem à paisana em bares frequentado por homossexuais. Lá, eles propunham sexo aos seus frequentadores. Caso estes aceitassem, recebiam imediatamente voz de prisão (o ator George Maharis, de Rota 66, teve sua carreira destruída nas mesmas condições). 


Johnnie Ray se declarou culpado, pagou a fiança e foi posto em liberdade. Ele ainda não era famoso quando isto ocorreu, e nenhum jornal noticiou, mas os estúdios investigavam o passado de seus astros, e provavelmente não quiseram investir em um ator que poderia dar problemas.

Em 1952 sua gravadora havia arrumado um casamento arranjado para ele, com a filha de um de seus executivos. As notícias do "casal feliz" eram amplamente divulgadas pela imprensa especializada em celebridades, que também deu muito destaque para seu divórcio, em 1954.

Recém separado durante as filmagens de No Mundo da Fantasia, a FOX inventou um namoro do cantor com a estrelinha Terry Moore, para evitar suspeitas do público.

Seu último grande sucesso como cantor foi gravado em 1957. Depois disso, Ray só faria sucesso em outros países, ainda sendo um grande ídolo na Inglaterra.

Johnnie Ray no Brasil

Muitos astros estrangeiros fizeram temporadas no Brasil na década de 50. Eles eram contratados como grandes atrações internacionais das boates renomadas, e constantemente se apresentavam na televisão. Johnnie Ray chegou ao Brasil em 1958, trazido para cantar na luxuosa boate Fred's, no Rio de Janeiro. Por aqui, o cantor de Cry, era chamado de "o chorão".


Após a temporada no Rio de Janeiro, a TV Record de São Paulo contratou o cantor para se apresentar em sua programação. Ray estreou na TV brasileira em 05 de novembro de 1958, e se apresentou durante uma semana na televisão.


No Brasil, Ray decepcionou as fãs, que perceberam que ele usava aparelho auditivo. A imprensa também escrevia que ele tinha "outros problemas a mais", talvez se referindo a sua homossexualidade.

Johnnie Ray e o comediante Gasolina, na TV Record

Ainda no Brasil, o cantor fez questão de visitar a cantora Leny Eversong. Ele havia conhecido Leny quando esta fez uma bem sucedida turnê nos Estados Unidos. Leny chegou a se apresentar no famoso The Ed Sullivan Show, onde conheceu o rei do rock Elvis Presley. (Leia está história aqui).


Johnnie Ray na casa de Leny Eversong

A decadência

De volta aos Estados Unidos, Johnnie Ray nunca mais conseguiu repetir o sucesso. Nos últimos dias de 58 um médico o convenceu a se submeter a uma operação para resolver seu problema auditivo. Mas a cirurgia só piorou seu quadro, e ele ficou praticamente surdo. O que lhe impedia de se comunicar com os músicos.

Além disto, novos nomes como Chuck Berry e Elvis Presley haviam surgido, e conquistado o coração das adolescentes. Em 1960 ele foi demitido de sua gravadora, e nunca mais lançou um outro álbum.

A pá de cal em sua carreira ocorreu em 1959, quando ele foi novamente preso na mesma situação de anos antes, só que agora com um grande escândalo na imprensa.

Ray nunca mais se apresentou em um grande estádio ou sala de espetáculos nos Estados Unidos, embora ainda tenha feito shows lotados no Reino Unido e Austrália. Em 1989 ele fez um show em sua cidade natal, no Óregon, para uma plateia quase vazia.

Para piorar ainda mais a sua situação, seu agente nos tempos do sucesso, havia desviado sua pequena fortuna, e além de deixar o cantor falido, o deixou com uma enorme dívida com o Imposto de Renda. Johnnie Ray chegou a trabalhar como gerente de uma boate na Espanha, para poder pagar parte da dívida.

Em 1965 ninguém notou sua pequena participação no obscuro filme Rogue's Gallery (1965), onde ele fazia um pequeno papel de policial. Em 1980 ele também fez uma pequena (minúscula para ser mais exato) participação especial em um episódio da série CHIPS. Sua última aparição foi no clipe da música You Don't Need a Gun, do cantor Billy Idol. Johnny Ray aparece chorando quando o cantor canta o trecho "Johnnie Ray he's always crying" (Johnnie Ray está sempre chorando).

Johnnie Ray em You Don't Need a Gun

Em dificuldades financeiras, Johnnie Ray voltou a viver em Los Angeles, em busca de algum trabalho. Ele começou a desenvolver sintomas de cirose no fígado, mas ninguém se importou. Em 1990 o cantor entrou em coma, permanecendo assim por três semanas, sem nenhum jornal também dar a notícia.

Em 24 de fevereiro de 1990, o cantor enfim faleceu, aos 63 anos. Sua morte então foi anunciada a exaustão pela televisão americana.

Fãs enxugando as lágrimas de Johnnie Ray no auge da fama


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