As viagens de Errol Flynn ao Brasil


Errol Flynn ficou mundialmente famoso ao protagonizar filmes do gênero capa e espada, como Capitão Blood (Capitain Blood, 1935) e As Aventuras de Robin dos Bosques (The Adventures of Robin Hood, 1938). 

Em junho de 1940 ele veio ao Brasil, passando pelas cidades de Belém, Recife e Bahia, até chegar na então Capital Federal, o Rio de Janeiro.

Trailer de Robin dos Bosques (Robin Hood)


Era o tempo da Segunda Guerra Mundial, e os Estados Unidos promoviam a chamada “política da boa vizinhança” tentando agradar as nações da América do Sul para angariá-las como parceiras na guerra contra a Alemanha. O principal interesse dos EUA em países como Brasil e Argentina eram suas localizações estratégicas, que serviriam de base para os aviões reabastecerem combustível antes de voarem para à Europa via África. Outro interesse básico era de explorar as matérias primas encontradas por aqui.

Flynn aproveitou a viagem “extraoficial” para fazer pesquisa para seu estúdio, que desejava filmar a vida de Simon Bolivar afim de agradar o público latino. Este era um projeto antigo de Hollywood. A Metro Golden Mayer foi a primeira a se interessar pela história e foram os primeiros a adquirir os direitos de adaptação da biografia do líder latino escrita por Jules Furthman. O filme seria estrelado por Clark Gable. Mas a MGM desistiu do projeto, vendendo os direitos para Paramount, que o faria com Fred McMurray. Por fim, a Warner abraçou a produção, que seria protagonizada por Bette Davis e Errol Flynn, mas ela nunca saiu do papel. Quando chegou ao Rio de Janeiro em 06 de junho de 1940, Flynn estava em cartaz nos cinemas cariocas com o filme Meu Reino Por Um Amor (The Private Lives of Elizabeth and Essex, 1939), justamente com Bette Davis.

O ator havia feito paradas para abastecer nas cidades do norte e nordeste, dormindo uma única noite por lá, dormindo no Grande Hotel de Recife. Mas sua curta passagem pelas cidades do norte do país já foram suficientes para ele sentir a calorosa recepção dos fãs brasileiros, que queriam ver o astro de Hollywood de perto e rasgaram suas roupas no aeroporto. No dia 04 de junho ele estava em Recife e o então Major Filinto Müller, chefe da polícia de Getúlio Vargas, solicitou ao Secretário de Segurança Pública de Pernambuco Etelvino Lins informações sobre a passagem do ator pela cidade. Filinto queria saber, em caráter confidencial, sobre a veracidade da notícia de que Flynn teria reconhecido na cidade pilotos alemães que virá lutando na Guerra na Espanha (antes de vir ao Brasil ele havia feito uma temporada em Portugal e Espanha).

Quando Flynn finalmente chegou ao Rio de Janeiro foi recebido por uma multidão enlouquecida que foi espera-lo no aeroporto Santos Dumont. Ele ficou espantando com a quantidade de pessoas que o aguardavam, e disse nunca nunca ter sentido tanto carinho do público em outro país, muito menos nos EUA.


Assustado vendo a multidão que o esperava
Assustado com a multidão, foi o último passageiro a desembarcar do avião da Panair. Foi recebido pela primeira-dama, dona Darcy Vargas e só não teve as vestes rasgadas pelas fãs porque a polícia interveio e fez um forte esquema de segurança para ele. Uma fã que conseguiu chegar mais perto exclamou: "Ele é loiro, que decepção!" enquanto outra respondeu "mas ele é o homem mais bonito do mundo." Errol foi levado de imediato para o Hotel Copacabana Palace, onde ficou hospedado no quarto 514.

Ao chegar ao hotel foi direto para um cocktail destinado a imprensa, onde o ator foi solícito com todos os jornalistas, que o elegeram como a "celebridade estrangeira mais simpática que visitará o país". Seu secretário particular, John Meyer, vendo que uma multidão se aglomerava em frente ao hotel, pediu que ele fosse até o balcão para acenar ao público. Não contente, Flynn pediu para Meyer organizar uma fila e cumprimentou todos os fãs que o esperavam do lado de fora. Só não deu autógrafos, pois isto tomaria muito tempo.

Na estada do ator, ele fez muitas coisas, como turista. Visitou a cidade, tomou banho de mar, jogou tênis e assistiu ao show do ator mexicano Tito Guizar, que fazia muito sucesso nos cinemas com o filme O Trovador Galante (El Trovador de la Radio, 1938), e se apresentava no Cassino da Urca. Entre suas atividades oficiais, teve uma audiência particular com o presidente Vargas.

Também passou um dia na Ila de Paquetá, num encontro com fãs, organizado pela então senhorita da sociedade Barbara Heliadora, futura crítica teatral brasileira. O astro havia se separado da atriz Lily Damita há poucos dias e aproveitou sua recém conquistada solteirice. Em 17 de junho, após 11 dias na cidade, o ator partiu rumo à Buenos Aires, onde continuaria sua viagem.


Flynn atendendo as fãs em frente ao Copacabana Palace

O ator se servindo no cocktail para a imprensa

 Com seu secretário assistindo ao show de Tito Guizar
Apreciando a vista de Paquetá

Com as fãs em Paqueta

Publicidade brasileira de chapéus

Quando Flynn deixou o país, prometeu voltar em breve para caçar no Mato Grosso, o que nunca aconteceu. Mas ele retornaria ao Brasil alguns anos mais tarde.

Em janeiro de de 1954 foram preparadas inúmeras festividades para comemorar o Quarto Centenário da Cidade São Paulo. Uma delas foi Festival Internacional de Cinema do Brasil, que trouxe diversas celebridades cinematográficas de diversos países do mundo. Hollywood enviou ao Brasil alguns de seus maiores astros da época: Joan Fontaine, Edward G. Robinson, Gene Raymond, Jeanette MacDonald, Rhonda Fleming, Jeffrey Hunter,  Barbara Rush, Erich von Stroheim, Ann Miller, Fred MacMurray, June Haver, Mervin Le Roy, Jane Powell, Irene Dunne, Patrice Wymore e Walter Pidgeon. Errol Flynn não havia sido convidado para participar da comitiva americana, mas sabendo da vinda de diversos colegas ao Brasil, se convidou para participar também, chegando um dia depois da comitiva oficial, que desembarcou junta no aeroporto.

Joan Fontaine posando em frente ao cartaz do festival

A comitiva americana chegando no aeroporto

Jeffrey Hunter e a atriz brasileira Vera Nunes

Flynn chegando ao Brasil para sua segunda visita

Quando o ator esteve no país em 1940 ele era um grande astro. Mas após uma carreira com mas de trinta filmes e muitos sucessos, agora estava em franca decadência. A Warner havia  o mandando para filmar produções de baixo orçamento na Europa, como Minha Espada, Minha Lei (The Master of the Ballantrae, 1953) e Ousadia de Valentes (Crossed Swords, 1954). O vício em bebidas estava destruindo sua carreira (e sua saúde).

Durante o festival, Flynn foi visto constantemente embriagado. Certa noite, saiu cabaleando do Hotel Esplanada, e para não cair foi amparado pela atriz brasileira Aurora Duarte, que declarou "nunca estive com ele sóbrio". Na boate do mesmo hotel tentou quebrar a câmera de um fotógrafo, chamando o para rua para brigar, mas a turma do "deixa disso" impediu. Caiu da escada na boate Oasis e levou um bofetão de uma fã que ele tentou beijar em frente ao Cine Marrocos. Em um cocktail no Clube Harmonia, caiu na piscina ainda com o copo na mão.

O ator, embriagado, conversando com Ibrahim Sued

Flynn tentando sambar durante festa em São Paulo

Rhonda Fleming implorou para o que o ator se preservasse, dizendo que toda essa publicidade negativa afetaria ainda mais sua carreira já em baixa. No Rio de Janeiro, para aproveitar o carnaval, o ator se comportou. Todos os fotógrafos ficaram atentos para os pileques do antigo Robin Hood das telas. Mas ao lado de Rhonda, o ator não bebeu um gole de álcool sequer, para tristeza dos paparazzi da época.


O comportado Flynn no baile do Copacabana Palace

Com Patrice Wymore

Sóbrio, no baile do Copacabana

 Usando lança perfume no baile do Copacabana,
que na época era legal e muito popular no carnaval brasileiro.


Cinco anos depois, em 14 de outubro de 1959 Errol Flynn morreria vítima de um ataque cardíaco, com apenas 50 anos de idade, enquanto rodava um filme em Cuba.


Flyn e Hemingway em Havana (1959)

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