Os Dez Mandamentos, a versão da TV Tupi (1955)


Em 2015 a TV Record começou a exibir a novela Os Dez Mandamentos, que fez grande sucesso de audiência, e foi lançada de forma compacta nos cinemas. Mas erroneamente, a emissora fez muita publicidade anunciando ser esta a primeira novela bíblica da televisão brasileira.

A primeira novela bíblica, nos moldes que conhecemos (com capítulos diários) da TV brasileira foi O Rouxinol da Galileia (1968), exibida pela TV Tupi, e estrelada por Patricia Mayo.


Ademir Rocha e Patricia Mayo em O Rouxinol da Galileia

Mas histórias religiosas oriundas da Bíblia já eram um tema recorrente explorado pela teledramaturgia televisiva no país. Infelizmente, como estes programas eram ao vivo, nada sobrou destas produções, a não ser algumas fotografias e histórias, algumas delas engraçadas.

Por ser ao vivo, alguns erros podiam ocorrer, e acabavam sendo transmitidos em direto para o público. Na inauguração da TV Paulista, em 1952, por exemplo, durante uma encenação da Paixão de Cristo, um mosquito pousou no rosto do ator que vivia Jesus crucificado. Irritado com o intruso indesejado, o ator acabou batendo no próprio rosto, enquanto estava na cruz, para espantar o mosquito.

O teleteatro da TV Tupi também se inspirou nas passagens bíblicas, mas os campeões de adaptações religiosas eram Tatiana Belinky e Júlio Gouveia, no programa Teatro da Juventude.

Geralmente eram programas de um ou dois episódios, mas em abril de 1955, no domingo de páscoa daquele ano, foi ao ar o primeiro de dez episódios da adaptação de Os Dez Mandamentos feita pela TV Tupi. Cada capítulo tinha uma hora e meia de duração (sempre exibido aos domingos) e foram feitos um ano antes do clássico de Hollywood, estrelado por Charlton Heston.

José Serber (1933-1988) era o protagonista Moisés. Ele já havia trabalhado em diversas produções do casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, inclusive no bíblico O Bom Samaritano (1954). 

José Serber como Moisés, em Os Dez Mandamentos

No elenco ainda Adélia Vitória (Myriam), Hervé Leblon (Aarão), Palmyra Elia (Ziporah), Wilma Camargo (Bâthyia), José Mendel (Jetrho), Suzi Arruda (Jochibed) e David José como o jovem Moisés. Também atuaram na produção nomes como Edy Cerri e Lúcia Lambertini, além da filinha do ator Fellipe Wagner (então com dois meses de idade), como o bebê Moisés.






Adélia Vitória




O cenógrafo Alexandre, Élio Tozzi, Hevelson de Oliveira e Júlio Gouveia

A técnica era composta por Élio Tozzi (na direção), Hervé Leblon (cenários), Alexandre (cenografia), Hevelson de Oliveira (direção de estúdio) e Antonino Seabra e Mário Pamponet no switch.

Para a famosa cena da abertura do Mar Vermelho, Tatiana Belinky e o marido Júlio Gouveia precisaram quebrar a cabeça para achar a melhor de produzi-la. Primeiro eles arrumaram duas caixas d'água enormes, que foram despejadas nos estúdios da Tupi, uma de cada lado. A imagem foi filmada em película, que depois foi projetada de trás pra frente, em sobreposição com os atores que interpretavam os judeus fugindo do Egito.

Mas era preciso fazer o Mar Vermelho se fechar sobre o exército, e esta cena foi feita ao vivo. A solução arrumada foi utilizar um corredor ao lado dos estúdios da Tupi, no bairro do Sumaré, em São Paulo. Nele foram pendurados diversos sacos de lixo cheios de água, e vários funcionários da Tupi ficaram a postos com facas sobre eles. Enquanto os atores que interpretavam os soldados passavam pelo local os funcionários furavam os sacos, simulando o fechamento do mar. O público ficou impressionado com o que viu na TV, mas os câmeras, como Luiz Francfort, estavam desesperados com a água molhando seus equipamentos.

José Serber faria ainda outros textos bíblicos na Tupi, como A Volta do Filho Prodigo (1956) e Dádiva Perfeita (1957), que mostrava a história dos Três Reis Magos

Dádiva Perfeita

A Volta do Filho Pródigo

Júlio Gouveia e Tatiana Belinky ainda fariam diversas adaptações religiosas na televisão brasileira, até o ano de 1962. Outro grande sucesso foi a versão da TV Tupi para Sansão e Dalila (1959), tendo Elias Gleiser e Beatriz Segall nos papéis títulos.

As colunas do templo, derrubadas pelo Sansão de Gleiser, na verdade eram caixas de chapéu pintadas e devidamente empilhadas, que caiam sincronizadas com um excelente trabalho de sonoplastia.


Elias Gleiser e Beatriz Segall em Sansão e Dalila


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Um comentário:

  1. Muito interessante. Uma pena que os registros desses programas se perderam

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