Marni Nixon, a cantora desconhecida dona da voz mais famosa de Hollywood


Em Cantando Na Chuva (Singin' in the Rain, 1952), Debbie Reynolds vive uma talentosa aspirante ao estrelato, que acaba sendo contratada para dublar uma grande estrela de cinema (papel de Jean Hagen), que não possuiu uma bela voz. A prática de contratar cantores para emprestar a voz para os astros dos musicais era muito comum, e manteve no anonimato grandes artistas vocais, como India Adams, Betty Wand, Bill Lee e Annette Warren.

Cantando na Chuva

A prática ainda é utilizada nos dias de hoje, o cantor Drew Seeley dublou Zac Effron nos filmes High School Musical, por exemplo. Em tempo, Em Cantando na Chuva, em alguns números musicais de Debbie Reynolds, na verdade estamos ouvindo a voz de Betty Noyes.

Marni Nixon é outra da lista das chamadas ghost singers (cantoras fantasmas), e talvez seja a mais famosa delas. Até o cinéfilo mais dedicado pode nunca ter ouvido falarem seu nome, mas com certeza já ouviu sua voz em alguns dos maiores clássicos do cinema. Marni dublou nomes como Natalie Wood, Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Deborah Kerr, entre outras.

Marnie Nixon

Margaret Nixon McEathon nasceu em Altadena, Califórnia. Ela começou a cantar ainda criança, ao lado das irmãs, e quando tinha 14 anos ingressou no coral do Los Angeles Concert Youth, que também tinha a futura cantora lírica Marilyn Horne como membro (Marilyn dublaria Dorothy Dandridge em Carmen Jones, anos mais tarde).

Aos 12 anos ela havia trabalhado no cinema, fazendo figurações nos filmes Mocidade do Barulho (Born to Sing, 1942) e The Bashful Bachelor (1942). Marni não foi creditada por estes trabalhos, aliás, ela raramente seria creditada em seus trabalhos ao longo de sua carreira.

Ela aprofundou seus estudos de canto, estudando ópera, e fez sua estreia no canto lírico cantando Carmina Burana no Hollywood Bowl, em 1947.

Em 1948 ela fez seu primeiro trabalho vocal em Hollywood, fazendo o canto dos anjos ouvido por Ingrid Bergman em Joana D'Arc (Joan of Arc, 1948). No ano seguinte, dublou as cenas de canto de Margaret O'Brien em O Jardim Encantado (The Secret Garden, 1949).


Na Disney, vocalizou alguns números musicais de Cinderela (Cinderella, 1950) e Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951), e posteriormente foi contratada para dublar Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Louras (Gentlemen Prefer Blondes, 1953). Na verdade, Marilyn era uma boa cantora, e Marni apenas dublou as notas mais altas que Marilyn não conseguia alcançar.

Em 1956 Marni foi contratada para cantar os números musicais de Deborah Kerr em O Rei e Eu (The King and I, 1956). A Fox fez a cantora assinar um contrato se comprometendo a nunca revelar que a voz ouvida era dela na verdade, sob pena de processos e ameaças de nunca mais trabalhar na indústria cinematográfica.

Marni também dublaria Kerr em seu filme seguinte, Tarde Demais Para Esquecer (An Affair to Remember, 1957). Porém, após o sucesso de O Rei e Eu, Deborah Kerr ficou indignada pela cantora não receber créditos por seu trabalho, e passou a declarar em todas as entrevistas que não era cantora, e a voz ouvida pelos fãs era na verdade de Marni Nixon.

Kerr fazia questão de que a cantora aparecesse, e deu muitas entrevistas ao seu lado.

Deborah Kerr e Marni Nixon

Natalie Wood não teve a mesma postura que Kerr, e ficou magoada ao ser dublada por Marni Nixon em Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961). Natalie havia praticado o canto, e achou que Nixon dublaria apenas suas notas mais altas, mas na verdade a voz da atriz não foi aproveitada nos números musicais, sendo a voz de Nixon que ouvimos em todo o filme (inclusive em algumas falas de Natalie, que precisaram ser redubladas).

Rita Moreno também não usou sua voz original, e Betty Wand acabou gravando seus números musicais. Mas com o filme quase pronto, Wand adoeceu, e Nixon chegou a fazer também alguns números da personagem de Moreno.

O sucesso de vendas da trilha sonora de Amor, Sublime Amor, dizendo ser Natalie Wood a cantora do filme, começou a deixar Marni Nixon deprimida com os rumos de sua carreira.

Voz Original de Natalie Wood em Amor, Sublime Amor


Voz de Marni Nixon na edição final de Amor, Sublime Amor


O mesmo ocorreu com Audrey Hepburn, que não gostou de ver as canções que havia gravado serem recusadas em Minha Bela Dama (My Fair Lady, 1964). A situação com Audrey foi ainda pior, pois a atriz não sabia que seria dublada, nem mesmo em algumas notas. Alguns pesquisadores acreditam que o fato de o filme não usar a voz original de Audrey custaram a não indicação ao Oscar por este trabalho.

Voz original de Audrey Hepburn


Voz de Marni Nixon na edição final de Minha Bela Dama


Marni nunca dublou Julie Andrews, mas também teve sua carreira ligada ao da estrela. O primeiro contato foi quando ela dublou um dos gansos animados em Mary Poppins (Idem, 1964), filme estrelado por Andrews. Ela também cantou em um disquinho de histórias infantis lançado pela Disney, que não quis pagar um novo cachê de Andrews para repetir a gravação.

Os Gansos de Mary Poppins

Disco de Mary Poppins, gravado por Marni Nixon

Marni chegou a fazer teste para dublar Julie Andrews e Charmian Carr em A Noviça Rebelde (The Soud of Music, 1965), mas apesar de ter gravado as canções bases, este material não foi usado. A edição final usou a voz original de Julie Andrews e Charmian Carr foi dublada nos números musicais por por sua irmã, Darleen Carr.


Apesar de suas gravações não terem sido usadas, Marni Nixon conseguiu um papel em A Noviça Rebelde, interpretando a freira Sophia, um das raras vezes que apareceu como artista em frente as câmeras.

Marni Nixon em A Noviça Rebelde


Com o declínio do gênero dos musicais, Marni ficou sem trabalho em Hollywood. Ela ainda dublou Viveca Lindfords em uma cena de canto na série Bonanza, em 1965 e dublou a Princesa Serena, a Harpa Mágica da animação Jack e os Feijões Mágicos (Jack and the Beanstalk, 1967), que  foi exibida algumas vezes na Sessão da Tarde, na década de 1980.


Marni passou a trabalhar na Broadway, onde chegou interpretar Eliza Dolittle em Minha Bela Dama. Também fez a Fraulein Schneider na versão teatral de Cabaret. Ela começou a gravar discos usando seu próprio nome e fez turnês acompanhada pelo pianista Liberace.

Marni Nixon em Minha Bela Dama



Liberace e Marni Nixon

Entre 1975 e 1980 ela apresentou um programa infantil com marionetes, chamado Boomerang, produzido por uma televisão local de Seattle. Marni também cantava na atração.

Marni Nixon em Boomerang

Foi na década de 1980, com a explosão das vendas e locações de VHS que o nome de Marni Nixon começou a aparecer como a cantora dos grandes clássicos musicais, devido a busca pela cantora para recolher os direitos autorais.

Marni atuou ainda, desta vez em frente as câmeras no telefime Taking My Turn (1984) e apareceu como atriz na comédia Acho Que Sou (I Think I Do, 1997), e com seu nome dublou a animação Mulan (Idem, 1998), onde fez as cenas de canto da Avó Fa.

As falas de Avó Fa foram dubladas por June Foray.


Avó Fa

Sua última participação na televisão foi em um episódio da série Lei & Ordem (Law & Order), em 2001. Em 2003 ela retornou a Broadway, interpretando a mãe do personagem Guido em Nine. E em 2007 voltou a trabalhar em Minha Bela Dama, desta vez como a mãe do professor Higgins. Ela também fez diversas apresentações com o show Marni Nixon, The Voice of Hollywood.


Nixon casou-se três vezes, tendo os seus dois primeiros casamentos terminados em divórcio.

De seu primeiro casamento, com o compositor de bandas sonoras Ernest Gold (que compôs a música-tema do filme Exodus, de 1960), ela teve três filhos, sendo um deles o cantor e compositor Andrew Gold, que faleceu em 2011 aos 59 anos. O casamento, que durou 19 anos, terminou em divórcio em 1969. Melanie Gold, outra filha do casal, também é atriz e cantora.

Em 1971, Nixon casou-se com Lajos Frederick Fenster, mas, passados quatro anos, a união também terminou em divórcio, em 1975.

Seu terceiro e último casamento ocorreu em 1983, com Albert Block, de quem ficou viúva em 2015, após 32 anos de união. Marni Nixon morreu vítima de câncer de mama em 24 de julho de 2016, aos 86 anos de idade.







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