Crítica: Era Uma Vez Um Sonho (Hillbilly Elegy, 2020)


Em 2016 o investidor J.D. Vance publicou seu livro de memórias Hillibilly Elegy: A Memoir of a Family and Culture in Crisis (Elegia Caipira: Memorias de uma família e cultura em crise). A publicação foi aclamada pela crítica por retratar não só o drama de uma família rural disfuncional, mas por mostrar os norte-americanos do interior, os chamados caipiras, que representam uma América pouco retratada, pobre, decadente, com pouca instrução ou oportunidades.

Muitas expectativas surgiram quando os rumores que o livro ganharia as telas do cinema, principalmente pelo momento político em que o país vivia, nos tempos do governo Trump

Coube a Vanessa Taylor adaptar a obra, que foi dirigida pelo diretor Ron Howard. E talvez seja o diretor o maior problema do filme.

Ron Howard é um bom diretor (Apollo 11, Uma Mente Brilhante), mas é bastante convencional. Antigo ator mirim de filmes como Vendedor de Ilusões (The Music Man, 1962) e da série Happy Days (1974-1984), Howard tem feito uma boa carreira como diretor, mas as vezes peca pelo excesso de cuidados e pretensões melodramáticas. Ele nos dá a impressão que sempre tenta polir a história de forma a fazer um filme familiar, que não arrisca muito, daqueles exibidos na televisão nos sábados a noite.

Mesmo em Uma Mente Brilhante, que lhe deu um Oscar de Melhor Diretor (e melhor filme), o diretor foi acusado de ocultar traços da vida que deixaram a vida de John Nash mais complexa, mas o diretor preferiu ao invés de  ser fiel ao personagem, preferiu carregar no drama entre um casal.

Falta profundidade nos personagens de Era Uma Vez Um Sonho, dando a impressão que estamos vendo apenas uma colcha de retalhos de problemas familiares, com a intenção de comover. Mas o filme não gera emoções suficientes para odiarmos ou termos empatias pelas pessoas retratadas. Mesmo a história da família de J.D. ser descendente direto dos membros do clássico conflito Hartfield - McCoy, que é citado, é muito pouco explorado.

Glenn Close interpreta a avó do personagem principal. De grande importância na trama, ela é mal apresentada, deixando dúbia a relação do espectador com sua personagem. A secura e dureza da personagem é aceitável, devido a sua história de vida, mas o filme pouco se aprofunda nas motivações Mamaw, a ponto de não sabermos se gostamos ou odiamos a personagem. Algumas amarguras familiares, existentes, acabam não sendo explicadas.

Close conseguiu uma façanha interessante com este filme. Foi indicada tanto ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante como ao Framboesa de Ouro de Pior atriz na mesma categoria. Com sete indicações ao prêmio, está mais no que na hora da atriz ser agraciada com uma estatueta, mas a compensação histórica seria frustrante diante de um papel tão irregular.

O filme, produzido pela Netflix, foi indicado também ao Oscar de melhor maquiagem e cabelo, uma categoria merecida. Nos créditos finais, vemos fotos e vídeos dos personagens reais da história, e a categorização impressiona.

Glenn Close em Era Uma Vez Um Sonho

A personagem Mamaw da vida real


Com seis indicações ao Oscar, sem ter ganho nenhum, Amy Adams se esforçou muito para uma nova indicação que não veio. Ela está ótima como a mãe viciada de J.D., e garante as melhores cenas do filme, mas o roteiro deixa a desejar na construção de sua Bev.

O veterano Bo Hospkins, no papel do avô, passa despercebido, quase como um figurante.

Era Uma Vez Um Sonho não é um filme ruim, mas não atingiu as pretensões do diretor. É uma distração, mas é também um filme que dificilmente o espectador assistirá uma segunda vez.


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