Benjamin de Oliveira e Eduardo das Neves, os primeiros palhaços negros do Brasil (e talvez do mundo)


Benjamin de Oliveira é um nome um tanto esquecido da história, mas foi um dos artistas mais populares do Brasil no começo do século XX, a chamada Bellé Époque Brasileira. Ator, compositor, cantor, diretor, escritor, produtor, ele também foi o primeiro palhaço negro do país, e encantou gerações com seu talento.


Benjamin Chaves nasceu em Patufufu (hoje chamada Pará de Minas, interior de Minas Gerais), em 11 de junho de 1870. Seus pais eram escravos na fazenda de Roberto Evangelista, e sua mãe, era uma "escrava de estimação", que vivia dentro da casa grande.

Por isto, seu "dono" deu alforria a seus filhos, como Benjamin, que nasceu 18 anos antes da abolição da escravatura.

Quando os circos passavam pela cidade, o menino aproveitava para vender broas feitas por sua mãe na porta do espetáculo, e ficava fascinado com os artistas que ele via na vida circense. O pai, capitão do mato, era violento com ele e seus irmãos, e Benjamin acabou fugindo de casa aos 12 anos de idade, acompanhando o Circo Sotero.

Mas no Circo Sotero ele também era espancado pelo proprietário, e acabou fugiu da companhia pouco tempo depois. Na fuga, foi capturado por um bando de ciganos que queriam vende-lo como escravo. Novamente ele fugiu, e um fazendeiro então alegou ser seu proprietário. Benjamin para provar que era artista, fez acrobacias que aprendeu no circo, e acabou sendo solto.

Ele passou por diversos circos até fazer seu nome. E teve sua primeira chance como palhaço quando o um artista adoeceu e não havia ninguém para substituí-lo. Benjamin, agora chamado Oliveira (em homenagem ao empresário circense Severino de Oliveira) subiu ao picadeiro, mas o público odiou sua apresentação, deixando a lona do circo sob vaias.

Negro, ele então passou a pintar o rosto de branco, o que agradou a platéia.

Benjamin de Oliveira e Dona Leandra, sua mãe (que teria vivido 119 anos)

Mas a vida no circo era difícil, e os artistas chegavam a passar fome quando não tinha bom público. Foi no Circo Caçamba que as coisas começaram a mudar. Eles se apresentavam em uma favela do Rio de Janeiro, quando o então presidente da república, Floriano Peixoto, foi ver a apresentação.

Ele ficou encantado com Benjamin de Oliveira, e transferiu o circo para o terreno em frente ao palácio do governo, na Praça da República. A partir de então, os caravanas dos shows de Benjamin Oliveira passaram a ser escoltadas pelo exército brasileiro.


Benjamin então passou a atuar na Companhia Spinelli, onde se tornou um astro, percorrendo quase todo o Brasil. Além de palhaço, ele era ator, e criou os espetáculos teatrais nos picadeiros, exibindo peças pelo interior do país, onde não haviam salas de espetáculos.

Mesmo famoso, era tratado pejorativamente pela imprensa

Além de adaptar grandes textos, também passou a escrever suas próprias peças teatrais. Em 1910, interpretou Jesus Cristo, com o rosto pintando, em O Mártir do Calvário.


Um dos maiores sucessos de Benjamin de Oliveira no Circo Teatro foi a opereta A Viúva Alegre, encenada nos palcos do Spenelli. A peça, de Franz Lehar, era muito popular no Brasil, e foi levada as telas do cinema em 1910, tendo Eduardo das Neves, também com o rosto pintado de branco, como protagonista.


E embora tenha perdido o papel no cinema para Eduardo das Neves, Benjamin estreou no cinema em Os Guaranis (1908), ao lado de Ignez Cruzette. Ele interpretava o índio Pery, e ela Cecy, da obra de José de Alencar. O filme foi gravado a partir de uma apresentação no Circo Spinelli.

Benjamin de Oliveira e Ignez Cruzette em Os Guaranis

Por muitos anos, foi seu único trabalho no cinema. Mas continuou fazendo sucesso nos palcos, com peças como O Diabo e o Chico, Vingança Operária, Matutos na Cidade e A Noite do Sargento. E em 1921 escreveu e encenou a revista Sai Despacho!, desta vez nos palcos do Teatro Gynástico.

Também chegou a ser sócio do Circo Olimecha, onde Oscarito iniciou sua vida artística.

Benjamin de Oliveira foi responsável por lançar o cômico Pinto Filho, e trabalhou com grandes nomes como Aracy Cortês e Brandão, o Popularíssimo (pai do também ator Brandão Filho).

Pioneiro na discografia brasileira, gravou dois discos, um dele em parceria com Mário Pinheiro.

Ouça Benjamin de Oliveira cantando, em 1910

Embora continuasse atuando, a partir da década de 30 entrou em declínio, passando por dificuldades financeiras nos anos seguintes.


Na década de 40, foi reconhecido por um grupo de turistas, em Minas Gerais, quando pedia dinheiro. Isto acabou se tornando notícia, e por pressão da imprensa, em 1947 ele passou receber uma pensão paga pelo estado.



Ao saber da situação do artista, a pioneira cineasta Carmen Santos o convidou para retornar ao cinema, atuando em sua super produção Inconfidência Mineira (1948). O filme teve muitos problemas, principalmente por questões financeiras, e demorou anos para ser concluído. Benjamin de Oliveira interpretava um escravo, em seu segundo trabalho no cinema. Algumas fontes o creditam em Alma do Brasil (1932), mas na verdade é um ator homônimo.

Benjamin de Oliveira em Inconfidência Mineira

Infelizmente, Os Guaranis, seu primeiro filme, perdeu-se com o tempo.

Benjamin de Oliveira, aos 70 anos, trabalhando no Circo Dorby





Benjamin de Oliveira faleceu no Rio de Janeiro, em 03 de maio de 1954, aos 83 anos de idade.

Em sua cidade natal há uma estátua em sua homenagem, inaugurada em 2013. A obra foi vandalizada, com uma pichação nazista, em 2017.





Eduardo das Neves, o outro palhaço


Eduardo Sebastião das Neves (1874-1919) nasceu no Rio de Janeiro, e foi contemporâneo de Benjamin de Oliveira. Ele hoje é mais conhecido como cantor, ou cançonetista (como era chamado na época), e junto com Baiano foi um dos pioneiros das gravações sonoras (em discos mecânicos) no Brasil.


Anúncio de 1904

Eduardo era bombeiro, mas foi expulso da corporação por frequentar os círculos dos "chorões", os grupos de cantores boêmios da época. Ele então passou a trabalhar como cantor, violonista de circo e também foi palhaço de circo, com no nome Palhaço Dudu, na mesma época que Benjamin de Oliveira.

Mas eles não eram rivais, na verdade, eram amigos, e frequentavam as mesmas rodas musicais, ao lado de compositores como Catulo da Paixão Cearense e Bororó. Além de cantor, também é compositor, e são deles os versos "Oh Minas Gerais, Oh Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais, Oh Minas Gerais". Mas embora hoje usada para exaltar o estado brasileiro, a canção na verdade, foi feita em homenagem ao Encouraçado Minas Gerais, quando este foi agregado a esquadra da Marinha Brasileira.

Em 1902 a canção A Conquista do Ar, feita em homenagem a Santos Dumont, correu o mundo após os feitos na aviação por parte do brasileiro.


No cinema, além de estrelar A Viúva Alegre (1910), também atuou nas operetas cantantes Valsa da Moda (1908), O Pronto (1909) e a Condessa Descalça (1910). Infelizmente, todos perdidos com o tempo.

Poucas fotos do artista, que é pai de Cândido das Neves, também são conhecidas nos dias atuais.

Eduardo das Neves faleceu em 11 de novembro de 1919, ele passou mal após se apresentar no Circo Norte-Americano. Como morava longe, foi para a casa do filho, Cândido das Neves, e posteriormente levado ao hospital, onde faleceu, com apenas 48 anos de idade.

Para conhecer mais sobre Eduardo das Neves, acessem o Blog Estrelas Que Não Se Apagam, do pesquisador Marcelo Bonavides, aqui.


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