Leslie Caron, a estrela relutante


Leslie Caron é a estrela francesa que encantou o mundo ao estrelar musicais clássicos da MGM, sendo uma das poucas artistas que dançaram com lendas como Gene Kelly, Fred Astaire, Mikhail Barryshnikov e Rudolf Nureyev.

Nascida Leslie Claire Margaret Caron nasceu em 01 de julho de 1931, em Boulogne-Billancourt, na França, ela era filha de Claude Caron, um químico e perfumista francês e Margaret Petit, uma antiga dançarina americana da Broadway.

Margaret Petit, na década de 20

Influenciada por sua mãe, começou a tomar lições de dança ainda criança. Mas aos 11 anos teve de interromper seus estudos. Era o ano de 1942, e a França havia sido ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Por segurança, seus pais mudaram-se para os Estados Unidos, e retornaram a França em 1944, após as tropas aliadas retirarem os alemães de seu país natal.

Seus pais a internaram então em um rigoroso colégio interno católico, onde as alunas nem podiam conversar entre si, podendo apenas falar quando fosse perguntadas pelos clérigos locais. Aos 14 anos, ela foi expulsa, ao ser flagrada lendo um "romance proibido".

Sua mãe então a matriculou no Conservatório Nacional de Dança, e ainda aos 14 anos ela estreou no balé The Pearl Diver, interpretando um menino. Aos 16 anos ela foi contratada pelo renomado coreografo Roland Petit (não era parente de sua mãe), ingressando no Ballet des Champs-Elysees, onde tornou-se solista.

Leslie ensaiando com Roland Petit

Em 1948 ela se apresentou no balé La Rencontre, na platéia estava o ator Gene Kelly e sua esposa Betsy Blair. Kelly quis conhecer a dançarina, mas sua mãe, rígida com regras, exigia que a adolescente de 17 anos retornasse para casa assim que acabasse o espetáculo.

Dois anos depois, a MGM produzia a superprodução Sinfonia de Paris (An American in Paris, 1951), estrelado por Gene Kelly.  A dançarina Cyd Charisse seria sua partner, mas ela estava grávida e precisou deixar o papel. Kelly então lembrou-se da bailarina francesa que vira anos antes, e insistiu que o estúdio a contratasse para ser sua co-estrela.

Leslie e Gene Kelly em Sinfonia de Paris

Ao interpretar Lise Bouvier, a jovem francesa disputada por três amigos (Kelly, Oscar Levant e Georges Guétary) na França pós-guerra, ela tornou-se imediatamente uma estrela. O filme foi indicado a sete prêmios Oscar, vencendo seis deles, inclusive o de melhor filme.

A MGM ofereceu-lhe um contrato de sete anos. Seu primeiro papel pós contrato foi no filme O Homem das Sombras (The Man with a Cloak, 1951), um filme policial estrelado por Joseph Cotten e Barbara Stanwyck. Mas foram os musicais que fizeram sua popularidade. Após fazer um papel secundário, Leslie estrelou Escravos de um Segredo (Glory Alley, 1952). Em seguida, fez um dos principais papéis femininos em A História de Três Amores (The Story of Three Loves, 1953), onde suas habilidades de atrizes dramáticas foram testadas.

Cartaz de Escravos de um Segredo

Em 1953 ela estrelou Lili (Idem, 1953), ao lado de Mel Ferrer, Jean-Pierre Aumont e Zsa Zsa Gabor. Poe este papel, ela foi indicada ao Oscar de Melhor atriz, e passou finalmente a ser considerada do primeiro time das estrelas da MGM, "o estúdio que tinha mais estrelas que o céu".

Leslie Caron em Lili

Ela não ganhou o Oscar por sua atuação, mas venceu o Globo de Ouro e o Bafta de melhor atriz daquele ano. Depois estrelou o musical O Sapatinho de Cristal (The Glass Slipper, 1955), onde também atuou a bailarina francesa Lilliane Montevecchi, uma nova aposta da MGM, que quis fazer dela uma "nova Leslie Caron", sem o mesmo sucesso.

Depois ela estrelou outra superprodução do estúdio, Papai Pernilongo (Daddy Long Legs, 1955), ao lado de outro lendário dançarino do estúdio, Fred Astaire. O filme foi coreografado por seu antigo amigo Roland Petit, e Caron pediu para fazer seu próprio figurino. Astaire apoiou a ideia, desde que ela não usasse roupas com penas. O ator tinha traumas das penas que se soltaram e voavam em seu rosto usadas por Ginger Rogers no filme O Picolino (Top Hat, 1935). Esta cena foi parodiada no filme Desfile de Páscoa (Easther Parade, 1948), onde Astaire dançava com uma bailarina desajeitada coberta de plumas, papel interpretado por Judy Garland.

Caron e Fred Astaire em Papai Pernilongo

Em seguida atuou em Gaby (Idem, 1956), onde interpretava uma bailarina apaixonada pelo soldado interpretado por John Kerr, em um remake mal sucedido de A Ponte de Waterloo (waterloo Bridge, 1940).

Leslie Caron então repetiu o sucesso mundial ao estrelar Gigi (Idem, 1958), ao lado de Maurice Chevalier e Louis Jordan. A MGM queria que Audrey Hepburn fizesse o papel, que ela havia feito na Broadway, mas o produtor Arthur Freed insisitiu que queria Caron como sua protagonista. Por este papel, a atriz foi indicada novamente ao Globo de Ouro, e o Gigi ganhou o Oscar de melhor filme daquele ano.


Ela gravou o filme apenas três meses depois de dar a luz a seu primeiro filho, Christopher John Hall, filho do diretor Peter Hall, com quem ela era casada desde 1956. Christopher John Hall hoje é produtor cinematográfico.

Leslie apresentando seu pequeno Peter a Maurice Chevalier

Apesar do sucesso de Gigi, ela não renovou o contrato com a MGM após o término. A era dos grandes musicais começava a entrar em declínio, e ela ressentida, declarou "Infelizmente, Hollywood considera bailarinos  de musicais como brinquedos. Algo lamentável".

Ela então passou a dedicar seu tempo entre a televisão e produções norte-americanas e europeias. Seu primeiro filme longe da MGM foi O Dilema do Médico (The Doctor's Dilemma, 1958), com Dirk Bogarde, feito na Inglaterra. Caron retornou a Hollywood para atuar em Quando a Esposa Peca (The Man Who Understood Women, 1959), feito na FOX. Na Republic atuou em Papai Ganso (Father Goose, 1964), ao lado de Cary Grant. Também atuou com Rock Hudson em Um Favor Muito Especial (A Very Special Favor, 1965), na Universal.

De volta à Europa, atuou na produção franco-italiana Com Sangue se Escreve a História (Austerlitz, 1960), ao lado de Claudia Cardinale.

Caron e seus filhos Peter e Jennifer Caron Hall com Claudia Cardinale

Nos EUA ainda fez Os Subterrâneos da Noite (The Subterraneans, 1960) e Fanny (Idem, 1961), onde voltou a atuar com Maurice Chevalier. Nesta época atuou também em filmes na Inglaterra e na França. 

Longe dos musicais, dedicava-se a papéis dramáticos, e recebeu uma segunda indicação ao Oscar por sua atuação em A Mulher que Pecou (The L-Shaped Room, 1962), que lhe valeu seu segundo Bafta de melhor atriz.

Em 1966 estrelou A Deliciosa Viuvinha (Promise Her Anything, 1966), ao lado de Warren Beatty. Caron e Beatty tiveram um romance durante as filmagens, que motivou seu divórcio com Peter Hall. Após o processo de separação, o juiz decretou que Beatty deveria pagar as despesas do tribunal.

Leslie Caron e Warren Beatty em A Deliciosa Viuvinha

No final da década de 60 passou a atuar apenas na Europa, atuando com diretores como Nanni Loy, René Clement e François Truffaut. Em 1977 interpretou a atriz Alla Nazimova no filme Valentino - O Ídolo, o Homem (1977), com o lendário bailarino Rudolf Nureyev interpretando Rudolph Valentino, o astro do cinema mudo.

Em Valentino - O Ídolo, o Homem (1977)

Na década de 80, apareceu em produções teatrais de Can-Can, On Your Toes e One for the TangoEm 1986 retornou aos Estados Unidos, atuando em alguns episódios de O Barco do Amor (The Love Boat). Na série, atou ao lado de sua filha, a também atriz Jennifer Caron Hall. Juntas, interpretavam uma dupla de vigaristas tentando tirar dinheiro de milionários.

Em 1990 atuou em A Montanha da Coragem (Courage Mountain, 1990), ao lado do ator Charlie Sheen.

Leslie Caron e Charlie Sheen em A Montanha da Coragem

Leslie Caron nunca se afastou do cinema, mas passou a escolher os papéis em que trabalharia, fazendo atuações esporádicas. Ela atuou em Perdas e Danos (Damage, 1992), de Louis Malle; Chocolate (Chocolat, 2000) e À Francesa (Le Divorce, 2003).

Em 2009 ganhou um Emmy como atriz convidada na série Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais (Law & Order: Special Victims Unit). Neste mesmo ano ganhou sua estrela na calçada da fama.

Leslie Caron em Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais

Atualmente residindo por temporadas em Londres, Paris e Nova York, teve um hotel e restaurante na França entre 1993 e 2009, mas o vendeu por achar o trabalho excessivo. Em 2010 lançou sua autobiografia chamada Thank Heaven (Obrigado Céu), e em 2011 foi homenageada com o documentário Leslie Caron: The Reluctant Star (Leslie Caron, a estrela relutante).

Seu último trabalho nas telas foi na série inglesa The Durrells (2016), produzida por seu filho. Caron interpretava a Condessa Mavrodaki.

Em The Durrells

Leslie Caron atualmente




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