Harry Belafonte, o magnífico!


Harry Belafonte foi um bem sucedido cantor e ator, que sacrificou sua carreira de sucesso para lutar pelo bem estar social. Harry costuma dizer que não era um artista que virou ativista, mas um ativista que se tornou artista.


Harold George Belafonte Jr. naceu em Nova York, em 01 de março de 1927. Seus pais eram jamaicanos, e sua mãe era filha de uma jamaicana com um escocês que havia ido ao país para garimpar diamantes.

Sua família era muito pobre, seu pai trabalhava em um restaurante e sua mãe fazia faxinas para sustentar a família. E dificuldades financeiras, eles enviaram o pequeno Harry para Jamaica, para morar com os avós, em 1932. Belafonte voltou aos Estados Unidos em 1940, ano em que conheceu seu grande amigo Sidney Poitier. Ele arrumou um emprego como assistente de zelador em um prédio. Um dia um morador lhe deu de presente dois ingressos para assistir a uma apresentação do grupo teatral American Negro Theatre, comandado pela atriz Ruby Dee.

O grupo dava aulas de interpretação para jovens negros carentes. Belafonte ficou fascinado com o teatro, e ingressou no grupo para aprender a atuar. Ele estreou nos palcos em 1946, e seu amigo Poitier era seu ator substituto, quando ele não podia atuar.

Belafonte começou a cantar em nighclubs para pagar novas aulas de teatro. Ele então se matriculou na Dramatic Workshop of The New School, onde foi colega de classe de Walther Matthau, Tony Curtis, Marlon Brando, Bea Arthur e novamente, Sidney Poitier.

Ele começou a se destacar como cantor, e em 1952 assinou um contrato com a RCA Victor para gravar seu primeiro disco. No começo de sua carreira, cantava canções populares, no estilo dos crooners como Frank Sinatra e Bing Crosby, mas o sucesso veio quando ele resolveu introduzir na América um ritmo ainda desconhecido, o calypso, que ele conhecerá na Jamaica. Seu álbum de 1956 foi o primeiro LP a vender mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos. Belafonte fez tanto sucesso, que recebeu o título de "O Rei do Calypso", apelido que ele rejeitava.

Belafonte estreou no cinema em Bright Road (1953), ao lado da atriz Dorothy Dandridge. Apesar de ser uma produção da MGM, o filme, estrelado por negros, teve pouca divulgação do estúdio. Ele nem chegou a ser exibido no Brasil, por exemplo.

Mesmo assim o filme, que foi feito para testar o potencial dos artistas, agradou, e no ano seguinte eles estrelaram Carmen Jones (Idem, 1954), que fez um grande sucesso. Dandridge recebeu uma indicação ao Oscar, sendo a primeira atriz negra indicada na categoria de atriz principal.

Dorothy Dandridge e Harry Belafonte em Carmen Jones

Mas apesar do sucesso, ele só retornaria ao cinema em Ilha nos Trópicos (Island in the Sun, 1957), que foi rodado no Caribe. Dorothy Dandridge também estava no elenco. O filme causou um escândalo por apresentar interesse romântico entre casais interraciais, entre Belafonte e Joan Fontaine e Dandridge e John Justin.

 Joan Fontaine e Harry Belafonte em Ilha nos Trópicos

Belafonte era um astro, mas quase não havia papéis para ele. Novamente, ele ficou dois anos afastados das telas, até retornar e O Diabo, a Carne e o Mundo (The World, The Flesh and The Devil, 1959), onde ele, Inger Stevens e Mel Ferrer interpretavam os últimos sobreviventes da face da terra. O filme também causou polêmica por insinuar um triângulo amoroso entre eles.


Cartaz de O Diabo, a Carne e o Mundo


No mesmo ano atuou em Homens em Fúria (Odds Against Tomorrow, 1959), de Robert Wise. Em 1960 ele apresentou-se no programa de televisão The Revlon Revue, protagonizando o especial Tonight With Harry Belafonte. Por este trabalho, ele tornou-se o primeiro artista negro a receber um prêmio Emmy, a maior premiação da TV norte-americana.

Harry Belafonte e seu Emmy

Mas Belafonte estava insatisfeito com sua carreira no cinema, e os poucos papéis que lhe ofereciam. Ele começou a protestar contra isto, e acabou sendo incluído na lista negra de Hollywood. A América vivia sobre uma histérica campanha contra o comunismo, liderada pelo senador Charles MacCharty, que criou o chamado "MacCarthismo", que perseguiu e baniu diversos artistas de Hollywood, incluindo Charles Chaplin.

Belafonte foi um dos banidos na época, e junto com a atriz Lee Grant, é um dos últimos membros inclusos na lista ainda vivos. Apesar de banido do cinema, ele conseguiu manter sua carreira de cantor, ainda muito bem sucedida.

Em 1962 ele lançou o álbum Midnight Special, que tinha como músico um jovem tocador de gaita de boca, em seu primeiro trabalho na indústria fonográfica. O rapaz chamava-se Bob Dylan.

Belafonte era ameaçado pela Klu Klux Kan desde 1954, e era proibido de se apresentar nos estados do sul dos EUA até o ano de 1961. Ele tornou-se um dos melhores amigos e confidentes de Martin Luther King, e arrecadou milhares de dólares para pagar a fiança de manifestantes presos durante as marchas por direitos civis.

Também foi um grande amigo de Malcom X.

 Harry Belafonte e Martin Luther King

Belafonte foi um dos organizadores da Marcha Sobre Washington, em 1963. Ele convenceu diversos colegas artistas a comparecerem, como Burt Lancaster, Marlon Brando e até mesmo Charlton Heston. Seu velho amigo Sidney Poitier também estava lá, ao seu lado. Foi nesta manifestação que Martin Luther King proferiu o famoso discurso "eu tive um sonho". O ator também estava presente na Marcha em Selma, que foi fortemente reprimida pela polícia.

Sidney Poitier e Harry Belafonte na Marcha Sobre Washington

Na década de sessenta, apesar de toda a restrição governamental devido seu posicionamento político, ele ainda conseguiu vencer dois prêmios Grammy, e recebeu seis discos de ouro. Ele também lançou a cantora Miriam Makeba, e com ela, gravou diversas canções de protesto contra o apartheid, na África. Mas a explosão dos Beatles e do rock inglês, fez sua carreira musical diminuir.

No final da década de sessenta ele conseguiu retornar à televisão. Em 1968 ele foi convidado para se apresentar no programa The Petula Clark Show, estrelado pela cantora inglesa Petula Clark. Enquanto eles cantavam durante um número, Petula segurou seu braço de forma carinhosa, e o patrocinador do programa exigiu que o número fosse cortado. Petula se recusou, ameaçando deixar o popular programa caso fosse censurada. A discussão vazou para a imprensa, e quando finalmente o programa foi ao ar, bateu recordes de audiência. Este foi um pequeno gesto, mas um grande marco na luta contra o racismo na televisão norte-americana.

Petula Clark e Harry Belafonte


Harry Belafonte só retornaria ao cinema em O Anjo Levine (The Angel Levine, 1970), onde interpretou um anjo negro que ajuda Morris Mishkin (papel de Zero Mostel), um judeu que não acredita em anjos. Seu filme seguinte foi Um por Deus, Outro pelo Diabo (Buck and the Preacher, 1972), dirigido pelo amigo Sidney Poitier. Ruby Dee, antiga professora de interpretação de ambos, e outra vítima do MacChartismo, também estava no elenco. Sob a direção de Poitier, ele ainda atuaria em Aconteceu num Sábado (Uptown Saturday Night, 1974).

 Sidney Poitier, Ruby Dee e Harry Belafonte em Um por Deus, Outro pelo Diabo

Depois, afastou-se do cinema, mas continuou cantando. Em 1985 Belafonte foi um dos organizadores  Em 1985 foi um dos organizadores do grupo de artistas que gravou a famosa música "We Are the World", cujo objetivo era arrecadar fundos para combater a miséria e o racismo no continente africano. Em 1987, Harry Belafonte tornou-se embaixador da UNICEF.

Em 1992 ele retornou ao cinema, interpretando a si mesmo, no filme O Jogador (The Player, 1992), de Robert Altman. Com Altman, ele voltaria a trabalhar em Prêt-à-Porter (Idem, 1994) e Kansas City (Idem, 1996). Em 1995 ele estrelou A Cor da Fúria (White Man's Burden, 1995), ao lado de John Travolta.


John Travolta e Harry Belafonte em A Cor da Fúria

Após atuar em O Desafio da Lei (Swing Vote, 1999), ele fez uma turnê que durou até 2003, onde anunciou sua aposentadoria. Porém, ele continuou gravando novos discos.
Em 2006, entretanto, ele aceitou o convite para atuar em Bobby (Idem, 2006), sobre a vida do senador Bobby Kennedy.
Em 2015 Harry Belafonte recebeu um Oscar especial pelo conjunto de sua carreira e contribuição por trabalhos humanitários. O prêmio foi entregue pelas mãos de Sidney Poitier, seu velho amigo de infância.

Harry Belafonte e Sidney Poitier, no Oscar de 2015
Harry Belafonte foi um ferrenho ativista contra diversas guerras, e foi grande opositor do governo Bush. Sempre se manifestou contra as invasões norte-americanas no estrangeiro, ao embarco ecônomicos impostos a diversos países, e contra a ação dos Estados Unidos nos países da América Latina.

Aos 91 anos, ele retornou ao cinema a convite de Spike Lee, atuando em Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018), filme indicado a seis Oscars (ele venceu o prêmio de melhor roteiro adaptado).
 Harry Belafone e Spike Lee

O filme é baseado numa história real, mostrando um policial negro infiltrado na Klu Klu Kan. Belafonte, que foi perseguido pela KKK, faz uma participação especial como Jerome Turner, uma testemunha ocular do linchamento do jovem Jesse Washington, outro personagem real, queimado vivo por um grupo racista, em 1916. 
 Harry Belafonte em Infiltrado na Klan, 2018
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